Você está aqui

A linha tênue das nossas próprias fronteiras

Cirurgião brasileiro detalha aprendizados muito além da medicina no Nepal
07/08/2015

Nepal, 4 de agosto de 2015. 2072 no calendário nepalês.

Já aqui se nota um estranhamento. Faço as contas e, para o Nepal, tenho 107 anos. Olho no espelho do meu iPhone e, no reflexo, fico feliz; estou bem conservado pra essa idade. Mas logo vêm os estranhamentos.

Não. Não sou um Médico Sem Fronteiras. Aceito, de bom grado, com toda minha energia, especialmente aquela, amorosa, ser um médico; e antes ainda, ser uma pessoa, um ser humano.

Lidar com os limites que são inerentes à vida de todos nós é o grande desafio. Perdoem o “cheiro” de arrogância em assim considerar como “o grande desafio”. Claro que falo aqui a partir de mim, mas confesso: quero provocar esse incômodo em todo mundo.

Pra mim, como um médico; pra nós, envolvidos diretamente no atendimento àqueles que no momento mais frágil de sua existência nos procuram, ou são achados por nós (explicarei esse “achados”), esse limite ganha um corpo duro no balanço “vida e morte”, “vida ou morte”.

E foi assim, desde o meu primeiro dia no projeto. Buscar pacientes, como um herói a querer salvar o mundo.

Charitok, área rural do Nepal, nas montanhas, a 2.700 metros de altitude. Uma das regiões mais afetadas pelo segundo devastador terremoto. Deparo-me com uma menina, no colo da mãe, quase uma pluma de 1,5 kg, respirando o que podia; e era pouco, gravemente acometida por sepse neonatal, infecção generalizada.

Logo veio o Estevão Plentz, Médico Sem Fronteiras. Vamos iniciar o tratamento: intubação (um tubo na garganta para respirar artificialmente), soro, antibióticos, equipamentos... Mil fios conectados a esse ser. Então, a família: “Doutor, namastê (obrigado, em nepalês), mas, não queremos isso tudo”. Uma única pergunta a mim, pela mãe: “Posso amamentar minha filha?”. Não tive resposta. Sabia que a criança não tinha forças para sugar. Não entendi que o que ambos queriam era compartilhar, por mais alguns momentos, o calor entre mãe e filha. “Doutor, deixemos nossa filha partir”. E tomou a filha no seio, mesmo sabendo que não iria fluir propriamente leite. Mas vida, isso ela sabia, e tentou me ensinar. E, de fato, eu não tinha recursos para salvar a criança. A mãe sabia disso. Eu, médico com fronteiras, não.

Não invadi aquele corpo, que buscara, aqueles seres, e fui embora, chocado, olhos molhados, impotente frente às fronteiras que a vida me impôs. Havia fronteiras muito duras.

Volto ao primeiro dia. Inauguração do hospital.

À sala de emergência chega uma mulher de 65 anos trazida por familiares. Fumante de longa data, preferiu não abandonar seus momentos de dragão e pagar o preço de, mais hora, menos hora, não ter mais o sabor do oxigênio. E chegou a hora. Após três dias de muitos tubos e fios conectados àquela pessoa, ela partiu. E foi assim:

Desde o início mantinha contato com a família, esclarecendo, confortando e percebendo o que queria aquela gente. No terceiro dia, toda a equipe e familiares exauridos da batalha que apontava para o fim que não queríamos, veio a luz. Chamei o filho, a pessoa de mais próximo contato, para acompanhar por alguns instantes o tratamento que a mãe recebia. Tomei por iluminado aquele momento porque pude a ele dizer que havia um limite intransponível. Insistir seria um exercício egocêntrico. Ele, serenamente, generoso com nosso esforço, concordou. E naquele exato momento, aquela mulher parece ter escutado algo. Seu coração parou, justo, sereno, frente a nós. Olhamos um para o outro, nos abraçamos e, juntos, decidimos não prosseguir. Ela se foi, ele se foi. Preparamos o corpo, que logo foi transladado pela família para a cerimônia hinduísta.

Três dias depois veio a família trazendo sua gratidão por nosso trabalho. E foi assim.

Claro que houve muitos casos de sucesso, riso, muita alegria, nascimento; como a criança da foto, nascida em minhas mãos. Bebê de 4 quilos que se recusava a nascer em parto normal. Veio a minha primeira cesariana da emergência aqui, e, olhem só na foto. Ele gostou de nascer!

Começo a aprender, a duras penas, a usar melhor as próprias fronteiras.

Sim, sou um Médico Sem Fronteiras, ao consenti-las num balanço tênue.