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“Lambuzado” de afeto em Akuem

Alexandre Izart, enfermeiro que atuou como responsável do programa de tuberculose em Akuem, em 2005, no hospital de campanha de MSF no Sudão do Sul, conta como um menino de 7 anos mudou sua percepção cultural.
11/07/2021
“Lambuzado” de afeto em Akuem

Foto: MSF

Em 2002, MSF iniciou um programa de tuberculose (TB) em Akuem, um pequeno vilarejo na região central de Bahr El Ghazal, no Sudão do Sul. Devastada por anos de guerra, a região era muito carente de instalações de saúde. Na época, o centro de saúde de MSF oferecia visitas médicas, hospitalização, atendimento obstétrico e serviços nutricionais. Foi uma das poucas instalações a oferecer tratamento de tuberculose em toda a região, onde a cobertura vacinal anti-TB entre crianças com menos de 5 anos de idade é extremamente baixa.

Alexandre Izart é atualmente gerente de recursos humanos de MSF no Brasil e, em 2005, atuou como responsável do programa de tuberculose no hospital de campanha de MSF em Akuem, no Sudão do Sul. De origem francesa, ele divide conosco uma das muitas marcantes histórias que vivenciou na organização:

“Quero dedicar esse diário de bordo para Majok Makuei, que foi meu ¨professor¨ no Sudão do Sul há alguns anos.

Majok tinha 7 anos quando encontrei ele no departamento de tuberculose do hospital de MSF em Akuem. Ele estava curado, mas a doença atingiu seu cérebro (tuberculose meningitis) e o deixou com sequelas hemiplégicas: retrações musculares do lado direito (braço, perna, rosto).

Ele não conseguia fechar a boca e, por isso, babava sempre... com o chão de terra, ele aparecia sempre coberto de lama.... Eu tinha uma única túnica azul, uma roupa que ficava limpa somente 1h depois da lavagem…

Ele estava curado, mas seu irmão e sua mãe ficaram doentes, então ele ficava com eles no hospital.

Eu, em minha primeira missão em MSF, estava descobrindo o departamento e minhas responsabilidades como supervisor: 150 pacientes hospitalizados (acompanhados de suas famílias) e 100 pacientes tratados ambulatorialmente.

Começava o meu dia às 7h pela distribuição do tratamento pelos pacientes, orgulhoso de usar minha camisa branca de MSF.... Desde o nosso primeiro encontro, Majok quis me abraçar, mas eu tinha a preocupação de não sujar tanto o meu uniforme de trabalho...

No final do dia, no entanto, minha camisa estava ocra como o chão de tanto colocar as ¨mãos na massa¨: lidando com farmácia, ventilação das tendas, transporte de água e comida, consultas, além dos pacientes....

Uma semana depois, me aproximei de Majok, olhei dentro de seus olhos e vi alegria e amor... Abracei ele e me sujei de sua baba e lama às 7h da manhã… Quebrei minha percepção de estar “bem apresentável” ao longo de todo o dia, entendi que não havia nenhuma importância e que o seu abraço me enchia de energia e alegria para enfrentar o dia!

Majok tinha 7 anos e me ensinou que eu precisava deixar minha cultura, de priorizar uma aparência impecável no ambiente de trabalho, para estar plenamente presente e abrir o meu coração…. Durante 4 meses de presença de Majok no departamento, todos dias, tínhamos esse ritual, essa troca de amor. Em cada missão que eu fiz depois, no final do dia, olhando para minha camisa de MSF suja, eu pensava em meu pequeno professor de vida...

Alec Makuei (Nome dinka* dedicado a ele pela família de Majok) ”

*Dinka é o dialeto falado pela população dinka, que vive na região da savana ao redor dos pântanos centrais da bacia do Nilo, principalmente no sul do Sudão.

 

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