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“Ir para Manaus simbolizou para mim o ápice da cooperação humana.”

Especialista em doenças infecciosas conta como foi coordenar a equipe médica da resposta à COVID-19 no Amazonas
06/12/2020
“Ir para Manaus simbolizou para mim o ápice da cooperação humana.”

Foto: Euzivaldo Queiroz/MSF

Num domingo à noite, recebi um e-mail de Médicos Sem Fronteiras (MSF) solicitando que eu fosse para o Amazonas coordenar a equipe médica da resposta à COVID-19. Manaus havia tristemente chegado ao noticiário nacional por causa do colapso do seu sistema de saúde. As imagens de covas abertas em massa simbolizavam a tragédia que se desenrolava por lá. Não havia dúvidas de que estávamos diante de uma das piores crises sanitárias do país e do mundo. Por isso, minha decisão pessoal de aceitar o desafio não foi imediata tampouco veio com leveza. No entanto, eu sabia que a atuação de MSF poderia fazer a diferença naquele contexto.

Nas ruas da capital do Amazonas, havia uma mistura de atitudes que refletia a confusão que aquela crise impunha à população. Enquanto muitas pessoas reticentemente usavam máscaras, outras tantas se aglomeravam em estabelecimentos comerciais como antes. Tentava-se viver normalmente em meio a uma pandemia avassaladora. Era claramente uma cidade traumatizada por um evento de grandes proporções.

Como coordenador médico do projeto, meu trabalho era apoiar a análise das necessidades e garantir que a atuação proposta fosse viabilizada. Era um grande e intrincado trabalho em equipe. MSF atuou em abrigos para populações vulneráveis (indígenas, migrantes e sem-teto) fazendo rastreamento e isolamento de casos. Além disso, treinamos equipes de profissionais de saúde sobre prevenção e controle de infecção bem como apoiamos uma unidade de terapia intensiva com 12 leitos e uma ala de 36 leitos para casos moderados em um dos grandes hospitais da cidade. Olhando para trás, é quase inacreditável que realizamos tanto em tão pouco tempo. Foi muito em relação ao que parecia humanamente possível de fazer, mas tivemos que tomar decisões difíceis quanto ao que não conseguiríamos fazer. Enquanto a pandemia se alastrava pelo Amazonas, sabíamos que só poderíamos chegar a alguns poucos lugares. Nossa capacidade de resposta era limitada frente à complexidade da crise.

Trabalhávamos muitas vezes mais de 12 horas, todos os dias da semana. O trabalho era interminável assim como a aflição que a pandemia nos causava. Eu não saberia descrever num texto o cansaço físico e mental que experimentei. Recrutamos uma equipe de médicos intensivistas e enfermeiros em questão de dias. Não importava se eram 6 horas da manhã ou 11 horas da noite, eu e a coordenadora de recursos humanos nos falávamos incessantemente por e-mail ou WhatsApp para (tentar) garantir a celeridade desse processo de recrutamento. Lembro também que num certo domingo bem cedo pela manhã, ainda no meu quarto e no escuro, já estava no telefone com uma colega em Roraima, trocando dados dos quais ela precisava urgentemente para desenhar a resposta em Boa Vista. Diante da COVID-19, o tempo não era generoso conosco e tudo o que fazíamos já devia ter sido feito muito antes.

Uma resposta dessa dimensão só foi possível porque muitas pessoas se comprometeram com ela. Quando cheguei em Manaus, nossa equipe tinha não mais do que 15 pessoas. Quando saí de lá, éramos mais de 120 profissionais de todas as áreas. Nesse contexto, além do objetivo óbvio de prover cuidados para o maior número de pessoas, existia um compromisso e uma necessidade de cuidar do bem-estar da equipe. Corria-se o risco de contrair o vírus. Parte do meu trabalho consistia, portanto, em assegurar que tínhamos uma política de prevenção à COVID-19 na equipe e que as pessoas tinham as informações corretas sobre o assunto e, mais importante, que se sentiam seguras. Além do risco de infecção, queríamos também que as pessoas estivessem protegidas emocionalmente. Era necessário assegurar que teriam folgas e períodos de descanso. O que a COVID-19 deixou muito claro, inclusive no trabalho de MSF, é que as pessoas que cuidam também precisam ser cuidadas.

Ir para Manaus simbolizou para mim o ápice da cooperação humana. Carregada de incertezas e minada de frustrações, essa cooperação nunca é linear e homogênea, principalmente numa crise como a pandemia atual. Porém, esse ideal se concretiza quando nossa atuação coletiva culmina, ainda que de forma limitada, em um pouco de alívio para populações tão vulneráveis. Nesse sentido, o trabalho humanitário de MSF não se apresenta como solução, mas sim como uma necessidade essencialmente humana de confortar indivíduos e comunidades.

 

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