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Iémen, tão longe e tão próximo

A administradora Sinclética Félix recorda como encontrou pontes entre culturas nos cinco meses em que trabalhou em Abs
27/12/2019
Iémen, tão longe e tão próximo

Arquivo pessoal

Durante a viagem de Sanaa, a capital do Iémen, para Abs, com as frequentes paragens nos checkpoints, para controlo de documentação, começámos a interiorizar que estamos numa zona de conflito. O hospital rural onde a MSF apoia os cuidados de saúde desde 2015 serve uma população de mais de 1,2 milhão de pessoas, que vivem na cidade e nos distritos em redor, e a proximidade dos combates avoluma a chegada de pessoas deslocadas de dia para dia.

Nas primeiras paragens estava um pouco ansiosa. Talvez pelo facto de todos estarem armados e nos fazerem aguardar longamente, enquanto nos olhavam com uma atitude inquisitiva, analisavam a documentação e faziam telefonemas em que não percebíamos absolutamente nada para além de salam aleikum.

Depois habituamo-nos e ficamos menos apreensivos e mais curiosos e vamos reparando nos detalhes da forma como se vestem e interagem, como seguram as kalashnikovs, etc. Os iemenitas usualmente vestem uma túnica longa ou uma espécie de saia comprida com um blazer e usam lenços nos ombros ou na cabeça em forma de turbante. E o que mais impressiona é notar que em todos os checkpoints encontramos rapazes, quase crianças, com cerca de 13 ou 14 anos, a fazer o controlo dos passageiros, com kalashnikovs em punho.

Apercebia-me também que há imensas crianças na rua. Pela hora do dia deveriam estar na escola, mas deambulavam nas bermas das estradas, uns a tentar vender frutas, outros caminhavam ou pareciam estar simplesmente a gastar mais um dia.

À medida que nos aproximamos de Abs, que é quase na fronteira com a Arábia Saudita, a paisagem torna-se árida e a temperatura aumenta. A maioria das casas é num tom cor de cimento, o que se confunde com a paisagem acinzentada e poeirenta. A cidade é sufocante, o calor não dá tréguas e não há forma de lhe escapar. Durante o tempo que estive em Abs, as temperaturas mantiveram-se sempre acima dos 40º, não há espaços verdes e não me lembro de ter visto uma árvore.

Nesta zona do país as mulheres vestem-se todas de preto, com abaya e niqab, uma túnica e um véu que lhes cobre todo o corpo e o rosto, deixando apenas que se vejam os olhos e as mãos. Até as meninas, às vezes mal começam a andar, já usam um véu a cobrir-lhes o cabelo. É também comum ver meninas de 6 ou 7 anos com bebés ao colo e a cuidar deles. Nas ruas vemos os rapazes, com pouco mais de 10 anos, a conduzir no trânsito caótico da cidade. Em Abs parece não haver tempo para ser criança.

A cidade, com muito trânsito e lojas de comércio e mercados ao ar livre na rua, tem um ritmo agitado e é barulhenta. A não ser pelos grandes cartazes na estrada com fotografias a homenagear os que morreram no conflito ou pelas explosões que se ouvem ao longe durante a noite, não desconfiaríamos que estamos a pouco mais de 20 km da linha de combate.

Durante os apenas cinco meses que estive em Abs, os campos de deslocados iam crescendo à volta da cidade. Ali chegavam diariamente as pessoas que fugiam da linha de combate, que se aproximava. E não conseguia deixar de pensar que estas pessoas num dia tinham uma vida normal e no dia seguinte estavam com a família inteira a lutar para sobreviver à falta de água, de comida, de privacidade, etc.

Pelas dificuldades do contexto, tão próximo da linha de combate, não era possível garantir que outras organizações pudessem responder em tempo útil às necessidades desesperantes da população crescente dos campos de deslocados de Abs. Por isso, nós, MSF, além de lidar com um hospital sobrelotado e com imensos desafios, tivemos de nos desdobrar e conseguir recursos adicionais para responder às necessidades mais prementes, como o abastecimento de água e a organização de clínicas móveis que se deslocavam a estes campos.

De todos os lugares em que vivi, o Iémen foi onde senti uma maior distância cultural. Apesar das pessoas serem muito amáveis, pode ser mais complicado criar relações próximas com os colegas de trabalho ou a população local. Vimos de realidades tão diferentes que, por vezes, surgem dificuldades nas conversas – não por falta de interesse, mas por receio de se ser inapropriado ou de que a nossa curiosidade possa ser mal interpretada. Por isso, inicialmente, as conversas tendiam a ser cautelosas e evitando certos temas.

Lembro-me sempre com um sorriso de, no primeiro dia no escritório, o Fawaz, um dos assistentes de Recursos Humanos, me perguntar: “Conheces a música Despacito?” E eu que não suportava a música, mas não queria desperdiçar uma possibilidade para quebrar o gelo, respondi: “E tu, conheces o Despacito?!” E o Fawaz animadamente dissertou sobre a sua preferência por “música alegre” para não alimentar as tristezas, que já bastavam as da vida.

Às vezes encontramos pontes onde menos esperamos. Sempre que me perguntavam de onde era e eu respondia ser de Portugal, mencionavam sempre o Cristiano Ronaldo. No Iémen é muito difícil fazer uma criança sorrir. Eles olhavam-me fixamente e com curiosidade, talvez pelo facto de apenas usar véu e não ter a cara tapada. Mas nunca respondiam aos meus sorrisos ou tentativas de aproximação com conversas ou brincadeiras. Até que eu, que não tenho paciência para ver mais de 15 minutos dos jogos da seleção, passei a usar o “trunfo Cristiano Ronaldo”. E todas riam imenso quando as tentava convencer a vir comigo para Portugal e conhecer o “meu primo”, o Cristiano Ronaldo.

Com o tempo tudo se vai tornando mais fácil e espontâneo. E ainda sinto saudades dos momentos em que partilhava com a minha equipa os pequenos-almoços e conversas sobre a vida, no pátio do escritório. A comida no Iémen é muito boa, mas não se usam talheres, e confesso que nunca me habituei a comer arroz com as mãos.

Pelo grande volume de trabalho e desafios do projeto, a hostilidade do lugar e, principalmente, pela dureza do sofrimento que vemos todos os dias, o Iémen foi a experiência mais difícil que tive em MSF. Mas, sem dúvida, foi também onde tive o maior sentimento de propósito e de estarmos de facto a fazer a diferença. Posso dizer que do Iémen trouxe a melhor e a pior das experiências. Simultaneamente, a mais dura e a mais bonita.

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