Você está aqui

HIV e tuberculose na Índia

Trabalho de MSF em Mumbai envolve o tratamento de casos graves de tuberculose e de pessoas que vivem com HIV, de acordo com a psicóloga Daniela Cerqueira
16/09/2016
HIV e tuberculose na Índia

Foto: MSF

Meu nome é Daniela, 39 anos, psicóloga, brasiliense. Trabalho com Médicos Sem Fronteiras (MSF) desde 2010, mas acabei trabalhando no Brasil nos últimos 3 anos no DDAHV – Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis, HIV/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, e só agora consegui retornar meu trabalho com MSF. Esta é minha terceira participação em projetos em campo, e, pela primeira vez, no continente asiático, trabalhando na cidade de Mumbai, na Índia. Uma grande parte da população mora em favelas em uma condição muito precária, sem qualquer infraestrutura, casas muito pequenas para uma família inteira onde não há qualquer tipo de ventilação. As favelas não têm água, são imundas, ratos são comuns, e posso dizer que a grande maioria das pessoas chega a viver em condição miserável só porque esta incrível cidade lhes oferece oportunidades de trabalho e melhores opções de subsistência. Por outro lado, a imensidão cultural e religiosa é de encher os olhos!

O projeto é voltado para tuberculose resistente a medicamentos (TB-DR) e HIV. Tenho experiência principalmente na área de HIV, pois antes de me formar já trabalhava com o tema no governo do Distrito Federal. Depois de alguns anos trabalhando com HIV, acabei seguindo também para área da coinfecção TB-HIV, pois é muito comum, já que as duas doenças são como “melhores amigas” e muita gente com HIV morre de TB e vice-versa. Existem outras coinfecções com o HIV também, como por exemplo a coinfecção HCV/HIV – Hepatite C, entre outras. E sim, é possível ter coinfecção com mais de duas doenças!

Eu vim para o projeto para coordenar a equipe de “Apoio ao Paciente”, e somos um total de 12 pessoas entre psicólogos, aconselhadores, assistentes sociais e educadores de pares1. Todos os nossos pacientes estão com pelo menos algum tipo de tuberculose resistente a medicamentos.  Os casos que atendemos aqui são os mais sérios/complexos, daqueles infectados com a tuberculose extensivamente resistente (TB-XDR), e em sua maioria são coinfectados com o HIV, também já em estágios mais avançados (tratamento de 2ª ou de 3ª linha). Temos uma clínica de MSF onde estão os casos mais sérios são tratados, mas acabamos de começar a trabalhar em conjunto com o programa de TB nacional na parte leste de Mumbai, e também temos trabalhado em um dos maiores hospitais de tuberculose da Ásia, no apoio ao paciente. Para se ter uma noção, este hospital já tem mil leitos exclusivos para TB sensível a medicamentos e 200 para TB resistente a medicamentos. Isso é muita coisa, gente! São andares e mais andares de pessoas em tratamento. Quando não há mais opções de tratamento disponíveis no sistema público ou o paciente já não pode arcar com o atendimento na clínica privada, onde os pacientes inicialmente faziam o tratamento, eles são encaminhados para nós. Temos 230 pacientes só na clínica de MSF.

Para os pacientes e suas famílias, o tratamento de TB-DR, longo e difícil, é um fardo pesado. Portanto, os pacientes com TB-DR enfrentam sérios riscos de não-aderência e abandono do tratamento. Isso tem implicações no resultado do tratamento, bem como na saúde pública. A Índia é pioneira na oferta do tratamento de observação direta de curta duração, mas, para cidades com alta incidência da doença, como Mumbai, é necessário um modelo centrado nas necessidades do paciente, o qual MSF já aplica em outras partes do mundo e que será replicado no projeto de Mumbai. A estratégia de promoção de saúde de MSF concentra esforços no empoderamento do paciente, permitindo que ele obtenha um maior controle sobre suas decisões e ações que afetam sua saúde e vida pessoal como um todo. Isso é feito por meio do incentivo aos pacientes para tomarem seus medicamentos orais por contra própria a partir do início do tratamento e em diante, com uma estrutura de apoio adaptados às suas necessidades e pontos fortes individuais.

É um processo contínuo que objetiva responder às necessidades físicas, emocionais, sociais, mentais e espirituais dos pacientes. As atividades de apoio ao paciente ajudam a melhorar a aderência ao tratamento de tuberculose resistente a medicamentos (TB-DR). A força do aconselhamento e do apoio à aderência para pacientes com TB-DR é tão importante quando os cuidados clínicos que recebem durante o tratamento a longo prazo. Pacientes com TB enfrentam diversos eventos traumáticos que podem levar a depressão, solidão, raiva, medo, desconfiança e confusão.

MSF começou a tratar esses pacientes de TB-XDR com dois novos medicamentos, bedaquilina e delamanida, na África do Sul (Khayelitsha), em um projeto onde trabalhei em 2010.  Aqui em Mumbai estamos seguindo o exemplo sul-africano, mas só que lá não há pacientes em condições tão extremas como os que temos aqui, então, é tudo muito novo ainda.

Vou tentar escrever para vocês com frequência, e então passar um pouquinho do meu trabalho com MSF que faz total e completa diferença na vida de populações vulneráveis no mundo todo.

Um beijo grande!

1A “educação aos pares” é uma abordagem de promoção de saúde na qual membros da comunidade integram as equipes para transmitir mensagens de saúde a pessoas que compartilham das suas mesmas experiências de vida e bagagem sociocultural.

Leia outros diários relacionados

Sem conteúdo disponivel.