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Histórias de Leitchuor, na Etiópia

23/02/2015

Eu poderia contar sobre meus dias como médica em Leitchuor, um campo de refugiados na Etiópia, próximo da fronteira com o Sudão do Sul, de muitas maneiras. Poderia falar da guerra no Sudão do Sul, que forçou milhares de pessoas a fugirem do país, da vastidão da planície onde as tendas brancas da Organização das Nações Unidas (ONU) se espalham até onde a vista alcança ou sobre o hospital de Médicos Sem Fronteiras (MSF), onde moro e trabalho todos os dias e, por vezes, por longas noites.


Mas eu quero contar as histórias que se acumulam em minha cabeça e em meu coração, e que parecem ocupar todos meus pensamentos.


Histórias como a do Chuol, um menininho de oito anos trazido por desnutrição severa e leishmaniose visceral (calazar), uma doença muito grave de tratamento difícil. Chuol chegou muito debilitado e, mesmo com o tratamento, ele foi ficando cada vez mais fraco. Finalmente, ele faleceu e eu fui contar a sua mãe o que havia acontecido. Ela segurou minha mão com força enquanto chorava devagarinho. Ela me disse que havia escapado da guerra no Sudão do Sul com os filhos sob chuva de balas. Desde então o menino tinha estado doente, mas, para ela,  tudo daria certo quando atravessassem a fronteira para a Etiópia, que era um sonho, uma terra prometida. A certeza da cura do Chuol era o que lhe dava forças para a longa caminhada. “E então, agora que meu filho morreu, o que resta para mim?”, ela me perguntou.


Ou a história do Jimir, de nove anos, trazido com sua irmã com queimaduras graves. Em uma noite fria, a família do menino resolveu fazer uma pequena fogueira para se aquecer. Uma das brasas voou com o vento e incendiou a tenda de plástico onde eles viviam. Alguns dos irmãos conseguiram escapar, mas Jimir e sua irmã mais velha ficaram presos. Passei a madrugada toda cuidando deles e tentando estabilizá-los para mandá-los de manhã cedo para o hospital da cidade (a quatro horas daqui). Enquanto eu tratava dos pacientes, o irmãozinho caçula da família, de uns cinco anos (o único que não sofreu queimaduras) chorava sozinho, sem fazer quase nenhum barulho, sentado em um banquinho olhando os irmãos mais velhos queimados. Eu mal conseguia me concentrar no trabalho enorme que tinha pela frente com os pacientes ouvindo aquele som baixinho, difícil de distinguir do silêncio, de uma tristeza que não podia ser falada, apenas sentida.


O Duoth chegou trazido pelo pai, a pé, de um vilarejo a três dias de caminhada do hospital. Sua mãe morrera durante o parto feito em casa, assim como seus dois outros irmãos gêmeos. Ele chegou pequeno, com 1,3 kg, mal conseguindo respirar e com infecção disseminada. No lugar de uma incubadora, colocamos o bebê dentro de uma caixa de papelão com algodão e papel alumínio. A equipe se desdobrou para oferecer todos os cuidados a essa criança tão frágil e nos abraçamos emocionados quando ele foi liberado, com dois quilos e meio (já com uma barriguinha!) nos braços do pai.


Em uma tarde, recebemos uma mãe desesperada com uma criança de nove anos nos braços. A criança tinha estado gravemente doente e febril durante toda a noite anterior, e ela esperou o nascer do sol para caminhar, sozinha, os 10 km que separavam sua casa do hospital. Quando coloquei a criança na maca, percebi que ela já estava morta. A mãe escorregou devagar na parede, sentou-se com a cabeça entre as mãos e as pernas, que haviam caminhado com força sobrenatural para salvar seu filho e já não mais conseguiam sustentar seu corpo.


Seria fácil questionar por que estamos aqui ou qual a recompensa de trabalhar com tantas tragédias e histórias tristes. A verdade é que o trabalho humanitário é muito mais do que eficiência médica. É criar um espaço humano em situacões desumanas – os campos de refugiados, a guerra, a doença, a dor. É aliviar o sofrer e, em especial, o sofrer sozinho. É a recusa em aceitar o ataque à dignidade humana como natural e o repúdio às causas políticas e sociais que perpetuam o desrespeito à vida. A criança que chorava num banco não tinha voz para contar sua história. Mas nós, da equipe médica, podemos recontar e dar vida ao seu sofrimento, para que ele tenha significado para aqueles que não estão em Leitchuor. Ser médica em MSF é também dar voz às histórias escondidas daqueles que não têm como falar.