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A felicidade é um idioma universal

A enfermeira Núbia Aguiar fala sobre sua experiência recente junto a MSF em Manica, Moçambique
23/03/2018
A felicidade é um idioma universal

Foto: Acervo pessoal

A missão em Moçambique foi desafiadora porque iniciamos um projeto em uma região onde não havia presença de MSF. MSF está há mais de 30 anos no país, porém, na região de Manica, ainda não tínhamos conseguido contato.

As autoridades foram receptivas e isso facilitou nossa entrada e o início das atividades. Com o passar do tempo e a conquista de confiança, adentramos nas áreas mais isoladas e importantes para nós, por concentrarem grande número da população sem acesso de saúde. Alguns locais não tinham assistência de saúde há mais de um ano. Trabalhamos não somente para conquistar a confiança das autoridades, mas também da população, que estava desconfiada com “aqueles estrangeiros que ofereciam assistência primaria de saúde gratuitamente”. Os moçambicanos são alegres, simpáticos e receptivos, mas viveram dificuldades que não conseguimos imaginar, sendo perfeitamente compreensível a desconfiança.

Nosso trabalho consistia em atender com clínicas móveis as regiões isoladas, mais distantes das unidades de saúde, oferecendo cuidados primários de saúde e assistência à saúde da mulher. O governo não podia reiniciar esse trabalho, então MSF apoiou para que retornassem as áreas isoladas. Logo em seguida, acrescentamos clínicas móveis de MSF de forma a fortificar o trabalho e alcançar mais pessoas. Por sermos uma organização independente, pudemos entrar em “áreas ainda não permitidas”, abrimos as portas para contato entre as unidades de saúde e o hospital com a população isolada, que ainda tinha medo – e o medo era bilateral.

O maior problema de saúde local é a malária. Um grande número de casos continuou surgindo mesmo após a estação de chuvas ter terminado e as crianças são as mais afetadas. Havia também um grande número de mulheres que procurava o serviço para obter métodos contraceptivos orais, mas era pouca a busca por acompanhamento pré-natal e pós-natal. Por isso, trabalhamos fortemente em promoção de saúde insistindo na importância desses cuidados.

História de uma pequena paciente
                                                                                                                                                                                    
Uma história entre tantas que vi foi a de uma bebê que chegou a nossa clínica, no fim do dia, quase anoitecendo. A mãe estava com a bebê, acompanhada do pai e de outra criança. Eles caminharam por cerca de uma hora até chegarem a nós. A bebê estava com malária grave, com complicação respiratória e desnutrição aguda. Realizamos os primeiros cuidados e a transferimos para o hospital. Era um local distante e a mãe e a bebê chegaram à noite no hospital, por isso precisamos contar com ajuda da população; um homem levou-os de moto até o hospital.

Nesse dia, nós dormimos no local, em uma barraca, para realizar mais atendimentos no outro dia, pois a demanda era enorme naquela comunidade. Nos acompanhávamos os casos transferidos e pudemos ver a boa evolução dessa bebê. Foi especial porque, particularmente, ela não tinha muita chance de vida pela gravidade do caso, ficou doente muito tempo em casa sem tratamento e, quando a vimos pela primeira vez, havia recebido tratamento com ervas locais e isso agravou o quadro. Mesmo assim, tentamos tudo o possível.

Depois de alguns dias, para minha surpresa, não encontrei a bebê no hospital no período de visita aos pacientes transferidos. Ao perguntar ao funcionário, ele contou que eles haviam ido embora algumas horas antes da minha chegada, mas garantiu após minha insistência que a mãe aceitara continuar o tratamento de desnutrição na unidade de saúde próxima à sua comunidade. Já havia saído do hospital quando fui abordada pela mãe, segurando a bebê já reestabelecida. Ela sorria muito e me disse várias coisas no seu idioma. Infelizmente, não tinha ninguém para traduzir, mas para dizer a verdade não precisava. A nossa comunicação foi feita numa linguagem corporal e visual, ambas muito felizes, o mais importante estava visível na nossa frente: a criança viva e saudável.