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Dois caminhões repletos de histórias

Carolyne Cesar conta sua chegada ao Sudão do Sul e a emoção de ver o retorno de famílias às suas comunidades
26/04/2018
Dois caminhões repletos de histórias

Foto: Acervo pessoal

Cheguei ao Sudão do Sul no dia 25 de janeiro deste ano e tenho como função a supervisão de saúde mental. O Sudão do Sul é o mais novo país do mundo, assim como um dos países com maiores dificuldades econômicas e com uma escassez significativa de serviços de saúde. Associado a essas dificuldades, o país enfrenta mais de 20 anos de conflito armado, que resultou em uma larga escala de violência, com fuga das pessoas.  

Do avião era possível ver uma vegetação seca e alguns pontos negros de queimadas no campo. No pouso, algo já dizia muito: a maioria esmagadora dos aviões ali estacionados eram de organizações não governamentais ou de agências da ONU.

Após descer do avião, a chegada ao aeroporto da capital (Juba) é peculiar: não avistei portas nem paredes, mas sim tendas e um chão feito de terra laranja e seca. Depois de passar pelo controle de passaporte, há uma multidão de pessoas. A razão pela qual tantas pessoas estão nesse lugar é simples: as malas estão ali e também ali existe uma possibilidade de levar a mala de alguém até o carro em troca de algum dinheiro. Na estrada até o escritório, vários jovens na rua, alguns com uniforme militar, algumas pessoas acenavam, outras tinham olhos vazios e  não pareciam presentes nem aqui e nem em lugar algum.

Após dois dias, segui para uma cidade chamada Yei, que possui uma localização geográfica importante, com estradas que levam para Uganda, República Democrática do Congo e Juba. A cidade é bem menor e tem um movimento também muito menor de pessoas na rua, mas aparenta ser incrivelmente mais organizada que Juba. Por aqui, alguns prédios, demonstrando uma diferença entre o passado e o presente desse lugar. Curiosamente, havia um local onde se lia infraestrutura com letras bem apagadas e outras palavras impossíveis de serem lidas, por terem desaparecido completamente. No entanto, o que mais se vê são barracos e tukuls (as típicas construções locais).

Seria uma manhã de percepção local e observação do trabalho já realizado aqui, numa tentativa de conhecer melhor as pessoas e entender a situação, numa tentativa de proporcionar um auxílio compatível com as necessidades da população e a nossa capacidade. No meio dessa suposta calma manhã de quarta-feira, a informação de que algumas pessoas chegavam de Uganda refez todos os planos: essas pessoas retornavam para a sua terra natal. E em menos de uma hora já havia uma clínica móvel para realizar triagem, vacinação e distribuição de alguns itens. Por volta das três da tarde, dois caminhões chegam com 62 famílias – considerando cada família com 5 membros. No alto desses caminhões, cada pessoa tem um rosto: um rosto coberto por uma camada espessa e profunda de poeira de quem passou algumas horas em uma estrada de terra, viajando em um caminhão aberto. As pessoas aqui embaixo batem palmas, riem, cantam e correm. Correm com esperança: correm para descobrir se os seus entes queridos estão naquele caminhão. E nesse momento o que se avista é a alegria transbordante daqueles que puderam ter ali o seu encontro, o alívio daqueles que novamente colocavam os pés em sua terra materna e o desapontamento daqueles que esperavam receber de volta alguém, mas encontraram apenas o enorme peso da ausência.

Existe um novo movimento: a comunidade se mobiliza para receber aqueles que haviam partido e, num misto de curiosidade e irmandade, existe uma tentativa de uma comunidade completamente fraturada pela guerra tentar se reestabelecer. Algumas crianças carregam os mesmos olhos vazios e tristes dos pais, outras são vivazes e alegres e chegam a tocar as mãos de estranhos. A variedade de expressões e emoções é incontável e não existem palavras adequadas nem suficientes para descrevê-las.

Hoje, o que se vê está para além: para além de palavras e explicações e imagens. É todo um conjunto de todos os sentidos formando uma coisa inominável.      
 

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