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Convivendo com uma nova cultura no Sudão

A administradora Joana Martoni descreve desafios do dia a dia causados pelas diferenças culturais
08/06/2018
Convivendo com uma nova cultura no Sudão

Foto: MSF

Meu nome é Joana, sou coordenadora financeira de Médicos Sem Fronteiras. Terminei meu segundo projeto com MSF em janeiro e quero compartilhar um pouquinho sobre minha experiência no Sudão.Ainda me lembro da minha primeira impressão de Cartum, capital do país, quando cheguei. Acordei com o som das mesquitas bem cedinho. Olhei pela janela, vi o céu azul e logo veio uma enorme sensação de paz e tranquilidade pelas ruas ainda desertas.

Tomei um banho e fui para o escritório (a apenas duas quadras da casa dos profissionais internacionais) para conhecer a equipe e saber um pouco mais sobre os desafios que estavam por vir.

Aos poucos, descobri um país superinteressante, por sua história e cultura. Lembro-me que cheguei bastante receosa em relação à religião muçulmana, com medo de falar e/ou fazer algo que pudesse ser mal interpretado ou mesmo parecer falta de respeito. Por mais que leiamos ou busquemos informações sobre os costumes locais, algumas coisas nós só aprendemos mesmo quando vivenciamos aquilo.

Por exemplo, eu já sabia que qualquer contato físico entre pessoas de sexo oposto deveria ser evitado, inclusive o aperto de mãos. Uma única vez me esqueci e espontaneamente estendi a mão para cumprimentar o novo funcionário que acabava de chegar, ele colocou a mão no peito, balançou a cabeça de forma negativa e disse: sinto muito. Fiquei muito envergonhada, mas felizmente dentro do escritório de MSF todos estão dispostos a lidar e respeitar outras culturas, já que viemos de toda parte do mundo.

Um dia muito marcante para mim foi quando fui visitar nosso projeto na região de Nilo Branco, bem perto da fronteira com o Sudão do Sul. Com os conflitos no sul, inflação e fome, as pessoas começaram a atravessar a fronteira e a se instalar em quatro campos de refugiados, onde decidimos abrir uma clínica e posteriormente construir um hospital. Nossa maior preocupação naquele primeiro instante era a limpeza e higiene no campo, incluindo a construção de latrinas para a população. Então, foram selecionadas algumas pessoas para trabalhar por alguns dias, recolhendo o lixo e colocando o campo em ordem.

Coincidentemente, minha visita foi exatamente no dia de fazer o pagamento dessas 120 pessoas (sul-sudanesas) que trabalharam por três ou quatro dias na campanha. Não é só a equipe médica que enfrenta desafios para levar saúde à população; os departamentos de suporte são essenciais para tornar todo esse trabalho possível.

Nós (eu, o administrador do projeto e um assistente) recebemos uma lista com o nome e número de dias trabalhados das pessoas que deveriam receber o pagamento. Essa lista foi escrita originalmente no alfabeto árabe e “traduzida” para o alfabeto latino, porque todo documento de MSF deve estar em inglês. É uma questão de transparência. Mas a confusão começou aí. As letras do alfabeto romano não são equivalentes no alfabeto árabe. E para piorar a situação, eu estava encarregada de “chamar” um por um, lendo os nomes em voz alta (erroneamente traduzidos e com um pesado sotaque brasileiro).

Eles não aguentaram e morreram de rir. Imaginem a minha pronúncia dizendo: Mujahid, Khaled, Rihab, Zeinab, Feruine, Khadija...

Sem contar que isso foi no auge do verão e fazia simplesmente 53°C. Além disso, foi durante o período do Ramadan, quando os muçulmanos fazem jejum durante a luz do dia. Nem água eu podia tomar. E o suor pingava.

Mas no final deu tudo certo. Mais uma vez o povo sudanês mostrou sua humildade e paciência com muita bravura. Esse foi um dia difícil, mas que hoje contando me faz rir muito e com certeza ficará pra sempre na memória.

Uma coisa que me encanta em trabalhar com Médicos Sem Fronteiras é que nos desafiamos e testamos os nossos limites a cada dia. E descobrimos que podemos ir muito além.
 

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