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Considerações de um abraço

A médica infectologista Raquel Bandeira relata um episódio marcante durante seu trabalho com HIV em Maputo, Moçambique
17/08/2016

Foto: Arquivo Pessoal

15/05/2016

Era mais uma manhã de mais um dia caótico. Foi a primeira vez que a vi. Carregada por sua irmã e um profissional do centro de saúde, mal possuía forças para exprimir seu lamento. A voz lhe saíra trêmula e fraca, assim como seu corpo delgado, caquético, coberto por uma capulana de cores desbotadas. Eu, meio surda que sou, me esforçava ao máximo para entender aquelas palavras, porém, naquele dia, não foi possível. Ela estava febril, desidratada, anêmica, tinha fome e Aids. Fizemos o diagnóstico de tuberculose disseminada, lhe demos sopa, antibióticos para pneumonia e tuberculose, hidratação, fluconazol para candidíase oral e dezenas de vitaminas e suplementos.

Ela experimentou uma leve melhora, um breve sopro de vida, implorou para não ser internada, e regressou à casa com a condição de retornar na manhã seguinte. Antes de nos despedirmos, me pediu leite para seu filho de apenas 7 meses de idade. Estava tão magra e fraca que não conseguia amamentar. Pedi para trazer sua criança para consulta no outro dia. Maria não tomou os antirretrovirais na gravidez, deu à luz sem qualquer assistência obstétrica, amamentou sua criança até os 6 meses de idade, portanto, havia enorme probabilidade de a criança também ser HIV-positivo.

No outro dia, ela não voltou. Demorou uma semana para nos reencontrarmos. Infelizmente, sob a mesma condição. Febril, deitou no leito, pousou os olhos e descansou do longo caminho para chegar até mim. No total foram quatro horas, dois ônibus precários e duas horas de caminhada trôpega. Assim que despertou, contou-me que esse trajeto foi feito com sua criança amarrada nas costas. Logo que soube, saí para procurar, na área de espera dos pacientes, seu filho Pedro. Ele se encontrava bem quieto e compartilhava o colo de sua tia com outra criança ainda mais nova. Que criança linda! Linda, assim como a mãe. Assim como a mãe, também estava febril, desidratado e faminto.

Com apenas 7 meses de vida, fizemos o diagnóstico de tuberculose pulmonar e desnutrição grave. Dessa vez, Maria foi encaminhada para internação no hospital geral da cidade; necessitava receber sangue e antibióticos endovenosos. Pedro foi embora nas costas de sua tia e retornaria para controle ambulatorial uma semana depois. Ao me despedir de Maria, pensava que seria a última vez que nos veríamos. Na tentativa de disfarçar minhas dolorosas previsões a abracei, esmaguei com um aperto de mão aqueles dedinhos finos e pedi para voltar para o Hospital de Dia (onde trabalho) assim que recebesse alta. A cadeira de rodas, enferrujada, gemia. Acenou em despedida e partiu na ambulância branca de Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Os dias caóticos passavam um a um. Nem Pedro nem Maria regressaram. O telefone que a família deixou para contato não existia. Todos os dias pela manhã, procurava o rosto de Maria na área de espera, mas não o encontrava. Passaram-se 15 dias e sua irmã sozinha veio à minha procura. Maria tivera alta do hospital havia uma semana. Porém, não conseguia caminhar, tinha as pernas inchadas e fracas, além de não ter dinheiro para o transporte. Sua irmã veio para buscar os comprimidos do HIV. Elas já haviam entendido bem a importância do tratamento antirretroviral.

Não fiquei satisfeita só em fornecer os comprimidos. Sabia que estavam doentes e que tinham fome. Queria vê-los, examinar, colocar o estetoscópio no tórax e escutar aquele coração bater acelerado como um coração de beija- flor. Felizmente, meus supervisores concordaram com uma visita domiciliar. Conseguimos também uma cesta básica e leite para levar. Seria uma longa viagem. Na noite anterior não consegui dormir. Uma pilha de ansiedade. Medo de algo dar errado ou de chegar tarde demais.

Por fim, chegamos. Após um breve atolamento, entramos no quintalzinho de areia da Maria. Ela estava sentada no chão, ao ar livre, do lado de uma fogueira em uma cozinha improvisada. Na panela, apenas um bocado de arroz para ela, a irmã e seis crianças. Maria me viu, sorriu, pediu ajuda para a irmã para pôr-se de pé. Caminhou em minha direção, lentamente, com seus passos cambaleantes, parou por alguns segundos e me abraçou. Foi um abraço tão forte e espontâneo que não conseguia esboçar reação. Nesse momento, Maria começou a chorar. Um choro alto e doloroso que mais parecia um grito. Eu com os olhos nublados senti suas lágrimas quentes a me escorrer pela nuca. Não sei quanto tempo durou aquele abraço. Naqueles segundos sabia que experimentava algo extraordinário. Agradeci à vida a oportunidade de poder viver esse momento, agradeci as escolhas que me levaram a chegar ali. Não, eu nunca mais seria a mesma.

Por enquanto, Maria e Pedro passam bem. Infelizmente, mesmo me esforçando para ser otimista, não consigo prever o futuro dessa história. Todos os médicos que trabalham com HIV/Aids sabem o tanto que a vida é frágil, ainda mais nos casos de imunossupressão severa como o da Maria. Durante a noite, na varanda do apartamento de MSF, me ponho a tentar entender o significado daquele pranto. Mas se torna uma tentativa totalmente frustrada, já que mal consigo distinguir se seria um choro de tristeza, alegria ou talvez esperança. Como admiro a coragem e força de viver dessas mulheres. Será que eu também seria forte assim? Acho que não.

Hoje estou com saudades de casa, do cheiro do café passado pela manhã e do barulho que meus pais fazem na cozinha logo cedo. Estou com saudades da risada escandalosa do meu irmão, dos beijos do meu futuro marido e das piadas e memes dos meus amigos. Hoje é só mais um domingo silencioso e solitário. Procuro na lembrança do abraço de Maria a esperança e a coragem de começar uma nova segunda-feira.