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Como foi contribuir para as ações de saúde mental no contexto de Roraima

O fluxo de migração de venezuelanos no Brasil, pelas lentes da psicóloga Mariana Reis
08/11/2019
Como foi contribuir para as ações de saúde mental no contexto de Roraima

Foto: MSF

Eu sou Mariana, mulher, brasileira, feminista, mãe, nascida em uma família classe média alta branca, psicóloga. Estive em Boa Vista, capital do estado de Roraima, Brasil, por seis meses trabalhando na equipe de saúde mental de Médicos Sem Fronteiras em apoio a migrantes, refugiados e refugiadas que chegam da Venezuela. É desse lugar que eu falo.
 
Estar como psicóloga em MSF foi, de todos os ângulos, desafiador e gratificante. É uma organização que preza muito pelo vínculo com as pessoas atendidas, que pensa a sua própria maneira de estabelecer relações, que entende que para haver efetividade em suas ações há que cuidar de como nos aproximamos e como mantemos um clima de confiança e segurança com quem usufrui de nossos serviços. E nesse sentido há um caminho aberto, seguro e básico para a intervenção psicológica: o vínculo é central nas ações da organização.
 
É necessária uma energia extra para comunicar às pessoas que nós psicólogas e psicólogos estamos disponíveis para atender as pessoas em geral, e não as “pessoas loucas”; explicar que o apoio psicossocial pode aumentar a adesão a certos tipos de tratamento, que é comum reações de estresse em situações de crise e que sempre há algo que pode ser feito, que certas alterações na maneira de sentir-se e de relacionar-se são esperadas, mas podem ser contornadas se houver apoio de alguém com ferramentas técnicas para tal.
 
Também para os nossos colegas de trabalho! É uma organização internacional composta por pessoas com formações em áreas diversas, mas pouco a pouco e através da ocupação de espaços por profissionais de saúde mental, a ideia de que “não há saúde sem saúde mental” vai se concretizando e sendo cada vez mais natural para se passar à prática. 
 
Logo que cheguei, percebi que um grande desafio era articular as ações de saúde mental de MSF, que conta com uma política de apoio psicossocial organizada de forma bem parecida às políticas de saúde do Brasil, dividida em níveis de atenção, como as políticas públicas estruturadas no país. Então, encarei toda a minha jornada em MSF também como uma oportunidade de ser um tijolinho na construção de uma rede de atenção em saúde mental sólida e sustentável no longo prazo, enxergando o fluxo migratório e a crise humanitária como de fato uma oportunidade de contribuir para o fortalecimento de políticas públicas em saúde no estado de Roraima. Políticas essas que em sua essência refletem a luta histórica de tantos colegas e profissionais de saúde em prol da democracia e dos direitos humanos no Brasil.
 
Este fluxo migratório que chega ao Brasil da Venezuela é marcado pela migração de famílias inteiras, que chegam fugindo da fome, mas também buscando serviços específicos de saúde e saúde mental. Isto quer dizer que chegam idosos necessitando de cirurgias de emergencias, crianças desnutridas, pessoas com necessidades de cuidados neurológicos, pessoas buscando tratamentos oncológicos, mulheres grávidas querendo parir com segurança e garantir que o filho que está por vir também não sofra com a fome e a desnutrição. 
 
Vivenciei junto com migrantes, refugiados e refugiadas que encontrei através da minha atuação profissional a angústia do luto e da frustração e a celebração das grandes pequenas conquistas que a vivência no Brasil facilitou. Não vou mentir: foi duro para mim escutar principalmente as mulheres com filhos e observar as crianças. Não houve um dia em que eu não entrasse em um abrigo ou em uma ocupação e não ficasse impactada com a fragilidade imposta à sobrevivência e ao bem-estar das pessoas ali. 
 
Tampouco vou romantizar as conquistas, mas elas existem. E uma trabalhadora humanitária, ainda mais psicóloga, deve saber reconhecê-las: como forma de autoproteção para dar conta da carga emocional do trabalho, sim, mas também como um mapa para não cair na armadilha que o grande sofrimento oferece de pensar “não vale a pena, não há nada a ser feito”. 
 
Encontrei muitas mulheres sobreviventes de violência doméstica que seguem em relacionamentos abusivos, mas pouco a pouco, através do suporte psicossocial e de informações sobre o direito das mulheres no Brasil, começam a se perguntar se tem de ser assim mesmo. Encontrei casais que perderam totalmente a privacidade devido às condições em que estão alojados e sofrem impactos disso em seu vínculo afetivo, mas que celebram juntos cada quilo ganhado por sua filha que chegou com desnutrição grave. Encontrei crianças – muitas mesmo – que lamentam a falta de oportunidade de trabalho para os pais, mas reconstroem seu sonho de estudar. Encontrei refugiados indígenas preocupados com a falta de acesso a serviços e direitos e que lutam à sua maneira pela valorização da sua identidade e práticas culturais. Encontrei adolescentes que dizem sofrer xenofobia por parte de colegas e professoras nas escolas, mas que se encantam com a liberdade das brasileiras e dos brasileiros de fazerem tatuagens, piercings e brincos. Encontrei pessoas cadeirantes entediadas com a falta do que fazer, mas satisfeitas por agora terem acesso à medicação que necessitam.
 
E aprendi, reaprendi e aprendi mais uma vez que, apesar de ser essencial, indispensável e elementar para uma atuação ética e afetiva propor atividades, oferecer informações, referenciar para serviços, fortalecer vínculos sociais e/ou entre pessoas e serviços públicos, ao fim de um encontro o que as pessoas agradecem mesmo é a disponibilidade para estar junto; é o conforto de achar na presença do outro a própria humanidade. 
 
Creio que pude contribuir para que migrantes, refugiados e refugiadas encontrassem sombra e água fresca dentro de si nesta longa caminhada de se redescobrirem em outro país, creio que contribuí para que alguns brasileiros olhassem mais para o estado esquecido de Roraima, creio que contribuí para a construção de parcerias entre políticas públicas e ação humanitária. E em troca, sinto-me mais latino-americana, mais consciente da história deste continente América, mais sensibilizada pelas lutas indígenas, mais sabida de reggaeton, doida para comer uma boa arepa e mais defensora da saúde mental.       
 
E este é só o início.

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