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Colapso do sistema de saúde de Manaus

Psicólogo e gerente de saúde mental do projeto de MSF em resposta à COVID-19 em Manaus traz o seu testemunho sobre a crise de oxigênio na capital do Amazonas, que gerou uma situação dramática.
03/07/2021
Colapso do sistema de saúde de Manaus

Foto: Mariana Abdalla/MSF

Em janeiro de 2021, Manaus (AM) vivenciou um colapso no sistema de saúde por causa da falta de oxigênio, insumo essencial para tratar casos graves de Covid-19. No mesmo período, MSF passou a oferecer apoio psicológico aos profissionais da linha de frente do Hospital 28 de Agosto e da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) José Rodrigues, ambos na capital amazonense.

Álvaro Palha é psicólogo e foi o gerente de saúde mental do projeto de Manaus. Chegou à cidade em meio ao pico da crise de oxigênio e atendeu aos profissionais de saúde que sofreram o impacto de ver pessoas morrerem asfixiadas e famílias em busca desesperada por cilindros de oxigênios para os pacientes internados. Ele traz o seu testemunho sobre a crise de oxigênio em Manaus, que gerou uma situação dramática:

“Fileiras de pessoas dispostas lado a lado. Digo, fileira de camas organizadas no interior de ideias arquitetônicas passadas a limpo em coisa feita no mundo. Tijolo, fundação, reboco, piso, tinta, portas... um monte de ideias muito boas que, nessa encruzilhada, produzem o acontecimento de camas enfileiradas, guardadas por portas, acompanhadas de equipes e equipamentos para receber pessoas. Pessoas nas camas do lado de dentro das portas. Pessoas do lado de fora das portas. Medo. As portas e as ideias separam tantos amores.   

Cada pessoa ganha uma dupla. Escuta bem, cada pessoa ganha uma dupla. É que as vezes as ideias e as pessoas se desentendem e disso calha de faltar alguma coisa. Um tijolo, uma tinta, um lápis. Dessa vez faltou o ar e isso vem acompanhado de silêncio... Por favor, respira.

Cada pessoa ganhou uma dupla e cada dupla, uma tarefa. Remediar o desentendimento que deu para cada pessoa uma dupla.

Ambusar*... ambusar... ambusar...  Em mais de três horas de quebras de pontes, ambusar... ambusar... ambusar... Dessas vontades e desejos e planos e amor que ligam as pessoas entre os lados das portas. Essas pontes, 14 pessoas, 14 pontes. Quatorze pessoas do lado de dentro, famílias do lado de fora. Cada dupla tem a tarefa de sustentar com as mãos as existências que dão vida às pontes.

Entre ideias muito boas existem autoridades que as vezes querendo, as vezes não querendo, as vezes cínicas, erram. Nessas horas, pode rolar de acontecer o desespero de ideias impraticáveis... Em pouco mais de três horas, pessoas pediram socorro às duplas, as duplas pediram um jeito de poder responder. Ideias impraticáveis e desesperadas que duraram pouco mais de três horas de um coro silencioso de fins. As pontes caíram sob as duplas de pessoas. Uma a uma. Cada fim é um acontecimento grandioso.  

Quando você vir um acontecimento grandioso, lembra que ele pede silêncio. Olha, ouve, sente. Em silêncio. Uma bomba explodiu no lado de dentro das portas. Explodiu o desentendimento entre ideias e pessoas em forma de falta de ar e silêncio. Avançou arrebentando tudo. As duplas de pessoas, as famílias, a cidade inteira que voou em pedaços espalhados pelo mundo em forma de notícia.

Quatorze é um número meio esquisito. Ali, entre o 13 e o 15, nunca me disse muita coisa. Mas no dia 14 de janeiro de 2021, na cidade de Manaus, no coração da Amazônia, pulmão do mundo, faltou oxigênio. E de tudo que se possa chamar de confusão, caos e desespero, haviam 14 duplas à ambusar silenciosamente 14 pessoas que precisavam de oxigênio. Assistir a morte de 14 pessoas dentro de uma sala com palavras e olhares de “me ajuda, enfermeira” é um grandioso acontecimento. Então, por favor, silêncio.

Respira mana, respira. Respira fundo e fica sabendo que esse dia aconteceu. Espero que dos próximos cinismos, faltem lápis. O que aconteceu aqui não é coisa de esquecer.

Os nomes? Não. Não cabem aqui. São enormes, com letras que atravessam as muitas salas como essa que existiram nesse dia quatorze. Respira mana, respira e me desculpa por abrir essa porta. É que do silêncio daqui eu precisava te contar essa história. ”

*Ambusar é o termo utilizado quando é aplicada ventilação com ambu ou bolsa autoinflável, bolsa de reanimação. O ato de apertar a bolsa ventila o paciente pelo nariz e pela boca.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) iniciou seu trabalho no Brasil em 1991, na Amazônia, região com inúmeras dificuldades históricas no acesso à saúde e à educação. Trinta anos depois, retornamos ao mesmo Norte, mas em outro contexto: uma pandemia sem direcionamento efetivo e técnico-científico que já matou mais de 500 mil pessoas no Brasil.


 

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