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Casa de Pedra

O encantamento do logístico brasileiro Pedro Armelin com o Zimbábue em seu primeiro projeto com MSF
01/07/2016
Casa de Pedra

Foto: Arquivo Pessoal

Em Shona, idioma nativo do país, Zimbábue significa “casa de pedra”. Não há nada mais preciso e sutil para descrever como o povo do Zimbábue é resistente como pedra no modo com o qual enfrenta as dificuldades colocadas em seu caminho: notadamente a situação econômica difícil enfrentada pelo país, que resultou em alta taxa de desemprego.

De certa forma, identifico-me com o sentimento, já que também tive de desenvolver um certo grau de resiliência para tomar as decisões que me trouxeram até aqui. Deixar um emprego gratificante, uma rotina segura e repleta de confortos em uma metrópole para enfrentar o desconhecido foi uma escolha no mínimo complicada. Acontece que, às vezes, para a vida fazer sentido, precisamos arriscar tudo. E hoje desfruto da certeza de que fiz a escolha correta.

O Zimbábue me acolheu de braços abertos em maneiras as quais nunca pude imaginar. Aqui é comum que pessoas estranhas umas às outras se cumprimentem ao se cruzarem nas ruas. “Bom Dia”, “Boa Tarde” são usados constantemente independentemente do contexto. Inicialmente, estava convencido sobre segundas intenções por trás desse comportamento. Acreditava que me abordavam para oferecer algo, ou ainda pedir alguma coisa. Mas não era nada disso. O povo do Zimbábue é simplesmente educado, agradável e muito cortês.

Foram muitas as primeiras impressões que tive a oportunidade de experimentar desde que cheguei: dormir com mosquiteiro (o meu local de trabalho apresenta altos índices de malária), comer com as mãos, falar as primeiras palavras em Shona (Mamuka Sei, Maskwera Sei, Makadini), olhar o céu maravilhosamente estrelado, conhecer pessoas de muitas origens diferentes. Aliás, esse é um capítulo a parte por aqui.

A diversidade de profissionais locais e internacionais cria condições para intercâmbio de ideias e conhecimentos. Por exemplo, em meu tempo livre, uma colega, médica sueca, me dá aulas de ukelele (um instrumento musical). Em troca, eu ensino Excel, para que ela tenha mais êxito analisando o histórico médico de seus pacientes. Minha supervisora, a coordenadora do projeto, passou seis anos anteriormente em Moçambique, também com Médicos sem Fronteiras, e falamos português uma vez ou outra para que ela não perca o costume.

Em minha primeira missão com Médicos Sem Fronteiras, sou responsável pela logística do projeto que iniciamos no distrito de Chipinge, no leste do país, muito próximo à fronteira com Moçambique. Dessa forma, não é estranho ouvir ocasionalmente alguém falando português nas redondezas. Meu trabalho é gratificante e desafiador. Entre muitas outras coisas, precisamos facilitar reformas e melhorias em hospitais e clínicas do distrito, de forma a auxiliar o Ministério da Saúde. Geralmente, nossos projetos no Zimbábue estão voltados para o HIV/Aids. Também tratamos tuberculose (uma das infeccções oportunistas que podem acompanhar indivíduos com HIV) e estamos às vésperas de iniciar um programa para diabetes, hipertensão e asma.

Apesar de não ter contato direto com os pacientes, sempre me atento aos relatos dos meus colegas médicos. Semana passada, um colega do Quênia, também médico, esteve com uma pessoa de 17 anos pesando aproximadamente 23 quilos. Era soropositivo e tinha tuberculose. Em outros casos, crianças soropositivas também passam pelos hospitais e clínicas auxiliados pelo nosso programa.

Tenho certeza de que estou no lugar certo, no momento certo. Trabalhar com MSF é gratificante em todos os sentidos, e é maravilhoso pensar que faço a diferença na vida de muitas pessoas.