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A beleza do inesperado

A promotora de saúde Lurdes Soares conta sobre sua experiência por 6 meses no Sudão do Sul
02/08/2019
A beleza do inesperado

Foto: Arquivo pessoal

Malakal não foi o meu primeiro projeto com MSF, mas foi sim o meu primeiro projeto de seis meses. Antes da partida, sentia uma enorme vontade de conhecer e trabalhar nesse novo contexto, ao mesmo tempo em que me percorria um constante nervosinho e inquietação sobre o que iria encontrar na missão. E pensar, seis meses? Passar o Natal e a passagem do ano longe de casa? Assustava um pouquinho...

À chegada a Juba encontrei um aeroporto bastante rudimentar, onde éramos recebidos em tendas de campanha e reinava a confusão (entretanto, com a conclusão do novo terminal internacional, melhorou bastante). Depois segue-se o de sempre, reuniões e mais reuniões, informação a pacotes, e a cabeça a pedir uma pausa porque já não aguenta mais! Um dia na capital e depois a viagem para o terreno – Malakal, no nordeste do Sudão do Sul, nas margens do Nilo Branco.

Desde 2013 que MSF está presente em Malakal e, apesar de ser um projeto regular há já longa data, não é somenos exigente nem intenso. Na altura, este projeto tinha duas áreas geográficas de atividades: o PoC (Protection of Civilians camp – campo de proteção de civis, em português) e a cidade de Malakal. Tal como nas demais valências do projeto, também na promoção da saúde havia muito a fazer.

Era uma grande equipa, dividida pelas duas áreas e trabalhávamos essencialmente na sensibilização e educação da comunidade para temas ligados à saúde: comportamentos básicos de higiene, prevenção da malária, calazar e outras doenças, sensibilização sobre violência sexual e como obter ajuda, entre outros. Juntamente com a educação sobre determinado tema, os nossos agentes comunitários de saúde também explicavam o que é MSF, como aceder às nossas instalações e que os cuidados de saúde prestados eram gratuitos e acessíveis a todos.

Depois havia uma mini equipa de mulheres que fazia o seguimento de todos os recém-nascidos nestas áreas e ensinavam às mamãs cuidados básicos com o bebé; estavam também formadas para identificar sinais de perigo e referenciar os recém-nascidos para o hospital. Era um trabalho muito exigente, mas também muito necessário e apreciado pela comunidade, e as colegas que o desempenhavam eram de uma dedicação e compromisso fora de série.

A equipa de promoção de saúde fazia mais coisas além dessas atividades e todos manifestavam grande interesse em aprender, sempre muito curiosos e ávidos por saber mais, para assim poderem desempenhar melhor o seu trabalho e ajudar a sua comunidade ainda mais.

E como foi o Natal e a passagem do ano? Diferente e… muito bom! O ambiente em MSF era bastante saudável e harmonioso, entre todos havia respeito, partilha e cooperação. Éramos uma família e juntos organizámos celebrações simples, mas cheias de alegria, carinho e muitas gargalhadas! Que me perdoe a minha família, mas o Natal em Malakal foi um dos mais especiais que alguma vez vivi. 

Se à partida seis meses parecia muito, na verdade passaram-se bem rápido. E quem imaginaria que em Malakal, essa terra de gente tão sofrida e vítima de violência e abusos inimagináveis, encontraria um povo tão resiliente, tão otimista e tão generoso? Pois é, a beleza está onde menos se espera, e eu sinto-me muito agradecida pela oportunidade de tê-los servido.

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