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Até onde conseguimos cuidar

28/05/2021
Até onde conseguimos cuidar

Foto: Diego Baravelli

"Intubaram a paciente”, me conta a recém amiga enfermeira. O medo e a ansiedade que acompanham essa frase tem proporções assustadoras aqui, mesmo ela já sendo tristemente corriqueira na pandemia de COVID-19.

O aqui é São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas, na região conhecida como cabeça do cachorro pelo seu formato no mapa. É a cidade com maior proporção de população indígena do Brasil - cerca de 90% - e que tem uma diversidade étnica composta por 23 grupos. Esses são fatos que enriqueceram e ampliaram meu olhar sobre nossa história e nosso povo durante minha atividade como médica do projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF) focado na COVID-19 e reaberto no início de dezembro de 2020.

Esse foi meu terceiro trabalho em saúde indígena, o segundo através de MSF. A cada contato percebo nossa ignorância sobre os povos originários do Brasil, fruto dessa (nossa) história que nos é negada, omitida e alterada quando nos contam sobre nosso país.

Essa ignorância não fica restrita ao desconhecimento histórico: ela se manifesta também na maneira como Estado e sociedade enxergam essas pessoas e cuidam delas; no desconhecimento da diversidade e na percepção apenas de estereótipos; na falta de respeito à cultura e aos seus direitos. Um desses direitos é o acesso a um sistema de saúde que considere as particularidades da sua população, que saiba quando, onde e como intervir, e que trabalhe em íntima relação e com participação da comunidade. A pandemia expôs, entre tantas outras fragilidades e desigualdades, como esse direito não é uma realidade em muitos locais.

Se muitas capitais já estiveram em risco de falta de oxigênio, medicamentos e outros suprimentos, com seus profissionais sobrecarregados e muitas vezes sem o treinamento adequado para exercer suas funções, pode-se imaginar a situação alarmante em áreas remotas com menos recursos e habitadas por populações mais vulneráveis e de diferentes culturas.

São Gabriel da Cachoeira é um desses lugares; há apenas um hospital para atender toda a população. Sendo responsável pelo atendimento de todos os pacientes graves, ele ficou sobrecarregado pelo aumento de casos de COVID-19 na região. Assim, uma das Unidades de Pronto Atendimento foi transformada em um Centro de Referência para COVID-19 para atendimento e internação de casos leves e moderados, inclusive com mudança para uma estrutura maior devido ao aumento de admissões hospitalares. MSF atuou junto à prefeitura na coordenação desse serviço na assistência clínica, saúde mental, supervisão laboratorial e promoção em saúde.

Atendíamos pacientes de diversas etnias. A maioria morava na cidade e já estava em contato com não-indígenas há muitos anos, mas alguns vinham de comunidades mais distantes e não falavam português. Estes geralmente eram tidos como mais hostis, que não gostavam de ficar no hospital e que poderiam ir embora a qualquer instante antes do término do tratamento. Eles eram constantemente questionados por seus hábitos diferentes daqueles que moravam na cidade, como sentar no chão, dormir em rede e querer utilizar medicações da floresta. Não consigo imaginar reação mais normal do que a fuga frente a procedimentos e tratamentos hospitalares pouco ou nada explicados, sem cuidado na aproximação e no toque. Muitas vezes essas práticas podem ser invasivas e violentas para certas etnias, mesmo que elas já sejam habituais para a população não-indígena.

É preciso olhar o outro para além das suas próprias concepções de certo e errado para conseguir oferecer o cuidado necessário.

Volto agora à paciente do início do texto. Sua história é um triste exemplo das dificuldades enfrentadas na assistência à saúde indígena, intensificadas durante a pandemia. Ela tinha 36 anos, era uma indígena da etnia yanomami e de uma comunidade distante. Ela tinha história de emagrecimento progressivo havia mais de um ano, com diversas vindas à cidade por essa queixa. Pouca investigação do quadro foi feita em São Gabriel da Cachoeira e não houve encaminhamento a Manaus. Era nítida a sua piora a cada visita descrita nos relatórios, chegando no último mês ao peso de 27 kg, já com complicações sistêmicas desse emagrecimento inexplicado. Na sua última vinda, com aumento do abdome e dores insuportáveis, acabou contraindo COVID-19, quando então foi encaminhada ao Centro de Referência. Já muito debilitada e sem perspectiva de melhora, os outros serviços de saúde não queriam mantê-la internada.

Após os cuidados possíveis em nosso centro e melhora da COVID-19, com esforço coletivo da família, do órgão de saúde responsável pela saúde indígena yanomami e de nossa equipe, decidimos por encaminhá-la a Manaus na esperança de que houvesse esclarecimento diagnóstico e início de tratamento. Depois da decisão ainda lutamos contra entraves burocráticos. A cada dia as crises de dor ficavam mais intensas e sua condição clínica mais instável, aumentando a incerteza sobre a possibilidade de ser transferida. Até que finalmente ela foi para Manaus, sendo internada em um hospital com estrutura para investigação do quadro, mas também sobrecarregado pela COVID-19. Foi intubada numa das crises de dor, que eram acompanhadas de desconforto respiratório. Ela melhorou e pôde ser extubada. Após alguns dias, sem ter prosseguido em sua investigação, faleceu. Sem diagnóstico.

A nova luta foi então para conseguir trazer seu corpo de volta para que ela fosse devidamente velada na cultura yanomami, que realiza rituais  funerários essenciais para a comunidade seguir em frente.

Guardo recordações lindas e emocionantes de recuperação de pacientes e de agradecimento pelos nossos cuidados, mas sinto que compartilhar nossas limitações ao cuidar me ajuda a fazer o luto dessa perda e a gritar por socorro para que histórias como essa não se repitam.

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