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Abs: a guerra como vizinha do lado

O médico João Cabo reflete sobre o impacto da guerra no Iémen através do contacto com os pacientes junto às linhas da frente
06/12/2019
Iémen Abs: a guerra como vizinha do lado

Foto: Arquivo pessoal

Um dos médicos no hospital de Abs em que estava a trabalhar, no Iémen, disse-me a certo dia que já desistiu de tentar perceber a guerra no país, que já deixou de ler o que se escreve.

Não é novidade nenhuma: a guerra no Iémen arrasta-se. O terreno ganho (ou perdido) mede-se em quilómetros expressos em algarismos isolados, dificilmente mais do que uma dezena de cada vez. É um conflito complexo, demasiado complexo para ser reduzido a um antagonismo bipolar de base religiosa, política ou cultural. Desenvolve-se em todos esses níveis, num acumular de camadas, que ora se sobrepõem ora se entrecruzam, tornando-o denso, impenetrável. Impenetrável para quem genuinamente lhe gostaria de colocar um fim, talvez. Mas talvez apetecível o suficiente para todas as partes – locais, regionais, internacionais – que nele tenham algum interesse, mais ou menos declarado.

A guerra no Iémen arrasta-se e duas frentes de combate estão próximas de onde nos encontramos – a que se situa a Norte, a apenas 15 km. Mas aqui em Abs não daria por ela, não fossem os feridos que chegam ao hospital e que são, para mim, a face mais imediata do conflito. Não são em número exagerado, mas vão pingando diariamente. Militares mas também civis, danos colaterais (ou não): mulheres e crianças.

São os primeiros, os militares, a minha janela para a frente de combate. Observo-os ali, deitados nas macas, fragilizados, alguns adolescentes imberbes, e o mais marcante, na minha opinião, é que não encontro nada no seu olhar. Não vejo a raiva que o ódio pelo inimigo incendiaria, não vejo a determinação de quem luta, sacrificando outros planos, por um objetivo bem definido, não vejo a esperança de que essa luta valha a pena. Não vejo nada, estão vazios de tudo isso. Combatem, provavelmente, porque as restantes alternativas são menos atrativas. Mas saberão tanto desta guerra e daquilo que a alimenta quanto os civis deitados na maca ao lado da sua.

Com o recente avançar da frente de combate a Norte e a consequente insegurança, milhares de deslocados internos colocaram a casa às costas (próprias ou das suas carrinhas de caixa aberta) e instalaram arraiais em Abs e pelos arredores, o que favorece a impressão de que este é um lugar tido como seguro – e também com cuidados de saúde gratuitos – pela população.

Muitos destes deslocados internos já o eram no local anterior e são obrigados a fugir mais uma vez. As crianças vão crescendo sem escola e só conhecem barracas improvisadas como casa: assim se começa a perder uma geração. O reflexo mais imediato deste fluxo é, claro, o aumento no número de pessoas a precisarem de cuidados de saúde. Por um lado, sobrecarregando ainda mais um hospital já a rebentar pelas costuras na sua capacidade de providenciar as atividades de rotina e cujos padrões de qualidade assistencial estão ainda abaixo do que desejaríamos. Por outro, levando a coordenação a instituir equipas móveis para avaliar as necessidades e dar apoio a estes novos aglomerados populacionais.

Estima-se que ultrapasse já o milhão de pessoas, aquelas para quem o hospital de Abs é a estrutura secundária de referência.

Ainda sobre os padrões de qualidade assistencial (quality of care, um dos temas recorrentes de conversa e discussão no seio da equipa), é verdade que não é fácil encontrar o ponto de equilíbrio entre a necessidade de fazer análises de mortalidade e a sua apresentação em sessões clínicas, ou atividades enquadradas num programa de promoção do uso apropriado de antibióticos, quando podemos ter de evacuar no dia seguinte.

Não deixa de ser algo bipolar, mas também compreendo que não podemos esperar por uma estabilidade que nunca vai existir para trabalhar na melhoria desses padrões de qualidade. Não, quando uma jovem de 25 anos, mãe de dois filhos, morre na terceira gravidez na sequência de uma avaliação médica insuficiente e num atraso na tomada de decisão.

Relembrar Abs será sempre relembrar trabalho sem fim e uma dedicação incondicional ao mesmo, alimentada pelo constante inconformismo perante a normalização da imprecisão, da desorganização, da falta de comunicação, do assim-assim, da morte que podia ter sido evitada.

O projecto/hospital em que a MSF trabalha em Abs é gigantesco e muito complexo. São cerca de 180 camas de internamento e uma média de 1 400 admissões semanais no Serviço de Urgência. Consome a energia de quem ali trabalha. E a pouca que resta é consumida pelo calor. Mas é um projecto pertinente por estar onde está. É certo que muito mais pessoas morreriam se a MSF não o apoiasse. Mais do que a média de 15 mortes por semana (somando todos os serviços do hospital) que tem actualmente.

Do ponto de vista clínico, a variedade de patologias é uma fonte de aprendizagem permanente: mordidas de serpente, difteria, sarampo, kala-azar, malária, dengue, desnutrição, e traumatologia e complicações obstétricas com fartura. E na componente mais administrativa, a responsabilidade de gerir uma equipa de 20 médicos e o laboratório é, no mínimo, um desafio. Valeu a pena.

Por isso, admito que houve uma certa nostalgia antecipada na última viagem de ida e volta para o hospital: para a direita à saída da base, direita para a rua principal, linha reta e finalmente direita para uma rua preenchida de lojas, antes de virar à esquerda para entrar no hospital. Indiferente à anarquia rodoviária e às nossas quatro passagens diárias, continua à beira da estrada o mesmo (?) camelo, de olhos vendados, caminhando em círculos, moendo preguiçosamente umas sementes similares ao sésamo para produzir óleo.

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