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Sudão do Sul: medicina humanitária em movimento

13/04/2017
Fotógrafo Siegfried Modola fala sobre a provisão de cuidados de saúde às populações deslocadas e em perigo na província de Leer, no norte do país
Sudão do Sul: medicina humanitária em movimento

Foto: Siegfried Modola

O Sudão do Sul, país que se separou do Sudão em 2011 após décadas de conflito, está atualmente mergulhado em uma guerra civil entre os grupos étnicos dinka e nuer após tensões políticas entre o presidente Salva Kiir e seu antigo vice, Riek Machar.

O país é a nação mais nova do mundo. É uma região rica em óleo, mas, após anos de guerra, também é um dos lugares menos desenvolvidos no planeta.

Os confrontos dos últimos três anos forçaram milhões de pessoas a fugirem de suas casas, dividiram a população entre grupos étnicos e paralisaram as atividades de agricultura, deixando o país exposto à fome, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Ainda segundo a organização, ao menos um quarto dos sul-sudaneses deixaram suas casas.

A parte sul do antigo estado de Unity, região de origem de Riek Machar, foi gravemente afetada pela violência contínua e pelos confrontos duradouros entre o Exército do Governo pela Libertação da População Sudanesa (SPLA, na sigla em inglês) e pelo exército de oposição (SPLA-IO, na sigla em inglês).

Os civis estão pagando o preço mais alto, já que se encontram na frente de batalha do conflito. A população local não consegue ter acesso sequer aos serviços mais básicos e necessários à sobrevivência. Alimento e cuidados médicos são quase inexistentes, à exceção do que é oferecido por organizações humanitárias, quando há segurança o suficiente para realizarem seu trabalho.

Vilarejos inteiros foram incendiados durante confrontos contínuos. Há relatos constantes de violações graves dos direitos humanos perpetradas por diversos grupos armados que atuam na região.  

As pessoas foram deslocadas de seus lares diversas vezes, ou fugiram por completo de algumas regiões. Atualmente, há cerca de 120 mil pessoas no Complexo de Proteção aos Civis da ONU (PoC, na sigla em inglês) de Bentiu, e muitas delas vieram do antigo estado de Unity.

Após o recomeço do conflito em julho de 2016, a população teve que fugir mais uma vez, enquanto a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) teve de evacuar suas equipes internacionais que estavam em Leer e Thoynor. Em setembro, MSF iniciou um programa de cuidados básicos de saúde para continuar chegando à população necessitada.

Por meio de uma rede de agentes comunitários de saúde, promotores de saúde e promotores de saúde da mulher – cujos membros são parte da população afetada pelo conflito – MSF conseguiu oferecer cuidados de saúde na região.

Agentes comunitários de saúde são treinados para tratar os problemas de saúde mais comuns (como doenças de pele, infecções no trato respiratório, doenças provenientes de água contaminada e malária). Eles ficam na comunidade e, caso a população dali precise fugir, eles vão junto, de modo a continuar oferecendo cuidados. MSF reabastece os grupos de profissionais locais com suprimentos médicos e oferece supervisão e treinamento por meio de suas equipes internacionais.

Decolamos no início da manhã do aeroporto internacional de Juba, capital do país, em um voo de MSF. O aeroporto de Juba é um núcleo de atividade humanitária: diversas organizações de assistência estão tentando mandar suprimentos para a população do país, que carece urgentemente até dos serviços mais básicos.

Estou em um avião de oito lugares com a médica de MSF, dra. Philippa Pet, e um responsável pela segurança, também de MSF, Georg Geyer, líder da nossa equipe. Fazemos um voo de quase duas horas até Thaker, na província de Leer, no norte do país. O avião está cheio de suprimentos médicos e outros equipamentos necessários para nossa estadia de oito dias na floresta.

Aterrissamos em uma parte ventosa e empoeirada da floresta. A cena é desoladora. A certa distância vemos muitos tukuls (cabanas de barro), mas há poucas pessoas por ali.

Duas semanas antes de nossa chegada, Thaker foi palco de confrontos entre diferentes grupos armados. Fomos informados de que muitos homens jovens fugiram com seu gado para outras regiões por razões de segurança.

Alguns minutos depois de nossa chegada, encontramos James*, supervisor de MSF que diz à dra. Philippa que há uma mulher com sérias complicações decorrentes de sua gravidez esperando por tratamento dentro de uma cabana próximo dali. O avião decola para partir sem nós enquanto nos aproximamos da mulher doente.
MSF tem poucos aviões em operação dentro do país, então eles voam com horários restritos. Cada minuto a mais em solo é um minuto desperdiçado em uma localidade diferente.  

A dra. Philippa examina a mulher, cuja gravidez está em estágio avançado. Ela ficou em trabalho de parto durante dois dias, mas o bebê ficou preso e há mais de 24 horas ela não sente nenhum movimento da criança. “Ela precisa ser transferida para nosso hospital de Bentiu”, diz a médica.

O avião que havia decolado há poucos minutos é chamado de volta pelo rádio após a dra. Philippa receber autorização para encaminhar a paciente à equipe de MSF em Juba. A jovem e uma acompanhante são levadas ao hospital de MSF que fica dentro da base da Missão da ONU para o Sudão do Sul (UNMISS, na sigla em inglês) em Bentiu, na província de Rubkona, para receber tratamento de emergência.

Na noite do mesmo dia, a equipe recebe a notícia maravilhosa de que a mãe está bem e de que o bebê nasceu frágil, mas vivo.

Poucas horas após nossa chegada em Thaker, a equipe estrutura sua clínica móvel ao ar livre.

Há uma área de espera, onde os pacientes recebem um cartão médico e as crianças são pesadas e avaliadas para febre e sintomas de desnutrição. Depois, os pacientes seguem para a área de consulta, onde são mandados para exames de urina, testes de malária ou diretamente para o ambulatório, onde podem receber medicamentos.

Pouco depois de meio-dia, já há dezenas de pessoas esperando ser atendidas sob a sombra de algumas árvores de acácia. São, em sua maioria, mulheres e crianças que vieram receber cuidados médicos. Há alguns homens idosos, mas, durante todos os dias em que estive aqui, vi pouquíssimos homens jovens. Ouvi dizer que a maioria deles partiu para os campos de gado.

O lugar é quente e inóspito. Ao meio-dia, a temperatura deve superar os 35 graus Celsius. A sensação é de secura. O vento queima a pele. Sinto sede constantemente. Não é um lugar em que as pessoas podem se dar ao luxo de adoecer. Eu me pergunto como essas mães e crianças sobrevivem em um ambiente tão hostil.  

Vejo uma mulher que não consegue andar direito se aproximando da clínica com o apoio de familiares. Tento entender o que aconteceu com ela.

Nyalolah*, de 16 anos, chega à clínica com a ajuda de seus familiares, que relatam uma série de episódios de colapso que testemunhamos pouco antes de sua chegada. Durante essas crises, ela fica sem reação e seu corpo inteiro fica tenso.    

A dra. Philippa me diz que a causa do problema não é clara, já que o exame físico não revelou qualquer anormalidade, que as crises não mostram qualquer característica de epilepsia e os exames feitos, ainda que limitados, tiveram resultado negativo. Nesse contexto, é difícil lidar com esse tipo de caso.  

Outra mulher chega com sua filha, que apresenta sinais de desnutrição grave. O bebê parece muito mais novo do que realmente é.

Uma idosa chega acompanhada de um parente – ela anda devagar, apoiando-se na outra mulher. Muitas das pessoas que conheci aqui percorreram longas distâncias para receber tratamento médico.

Vejo outra mulher deitada no chão, ao lado da fila para ser atendida. Ela está muito fraca para ficar sentada.

Uma mulher gravida é estabilizada após ficar inconsciente.

Nos meus três primeiros dias em Thaker, a equipe de MSF tratou mais de 600 pacientes.

Nyareat*, de 24 anos, chega acompanhada de sua filhinha de quatro meses, Nyakueka*, que tem febre. Ela andou durante uma hora para chegar até a clínica.

Há dignidade entre as pessoas que conheci, que enfrentam um grande sofrimento diário para sobreviver.

No fim da tarde, uma mulher com suspeita de meningite chega à clínica acompanhada de um grupo de familiares.

“Essa história deveria ser sobre os profissionais locais de MSF no projeto. Eles são os que enfrentam boa parte dos perigos em suas profissões. Eles são alvejados por gangues armadas que acham que eles têm dinheiro, visto que trabalham para uma organização internacional. Meu trabalho aqui é treiná-los, e garantir que eles saibam diagnosticar e tratar pacientes. Eles que ficam para trás quando vamos embora”, diz a dra. Philippa.

James*, de 33 anos, é supervisor de MSF. Ele trabalha para a organização há um ano e é o líder da equipe nesta região. Ele explica os perigos de seu trabalho.  

“Como agentes de saúde, fazemos um trabalho perigoso. Seguimos a população em qualquer localidade onde esteja ou para onde quer que vá. Uma vez, passei oito horas no pântano com outras pessoas para que pudéssemos nos esconder de homens armados. Cinco pessoas foram baleadas e morreram ao meu lado nesse dia. Também me lembro de ver uma mãe segurando o filho, tentando amamentá-lo, sem saber que ele havia morrido. Contudo, eu amo esse trabalho. Amo servir a minha comunidade, porque as pessoas precisam de assistência médica. Elas precisam que nós estejamos aqui para ajudá-las. Muitas delas morrem porque não conseguem chegar a tempo ao hospital. Muitas crianças morrem de desnutrição, e também pela falta de vacinas”, diz James.

Richard*, de 34 anos, é agente comunitário de saúde de MSF. Ele trabalha para a organização desde 2013. Nesse mesmo ano, o projeto de MSF nessa região foi interrompido por questões de segurança.

“Trabalhamos em uma região de muita insegurança. Por isso, o maior problema para a população local é a falta de alimento e cuidados médicos. Temos que nos concentrar e usar da melhor forma possível os suprimentos que MSF nos manda semanalmente”, diz Richard.

Nyasunday*, de 25 anos, é mãe de quatro filhos: Nyapal*, de um ano, Nyakuoth*, de 5, Nyabora*, de 9 e Nyanhial*, de 8. Ela explica sua situação enquanto espera sua consulta médica:

“Todos estamos sofrendo aqui. Os confrontos destruíram nossas casas e agora temos que ficar na floresta. Precisamos nos esconder o tempo todo, porque tememos por nossas vidas. Meu marido está em Juba e não consegue voltar porque a estrada não é segura para uma viagem. Ele não está aqui para me ajudar, e eu estou lutando para cuidar de meus filhos. Não temos alimento e eu me preocupo muito com o futuro. Muitas vezes nos alimentamos de lírios aquáticos para sobreviver. Essa não é uma boa vida para meus filhos. Torço por um amanhã melhor”, diz Nyasunday.

A situação pode mudar de um minuto para o outro, e as equipes de MSF precisam estar preparadas para agir adequadamente. A prioridade é minimizar os riscos do perigo de grupos armados. Normalmente, equipes de MSF não são alvejados nesse tipo de contexto. Contudo, a imprevisibilidade da situação significa que as coisas podem dar errado de repente.

Na tarde do dia 22 de março, já há cinco dias no projeto, ouvimos relatos da população local sobre movimentos de tropas na região, além de rumores sobre a possibilidade de um ataque na vizinhança.

O coordenador de projeto de MSF em Juba toma a decisão de evacuar os profissionais internacionais no dia seguinte, a fim de evitar que eles sejam pegos em meio ao fogo cruzado do conflito.

Na manhã do dia 23 de março, depois de estruturarmos nossa segunda clínica em Gier, a poucos quilômetros de Thaker, voltamos ao ponto inicial para esperar o mesmo avião de MSF que nos trouxe para nos tirar da região.

Georg Geyer, ponto focal da segurança de MSF e nosso líder de equipe neste projeto, explica as dificuldades de trabalhar no Sudão do Sul:

“Trabalhei para MSF em mais de oito países, mas o Sudão do Sul se mostrou um lugar muito difícil para. Posso enxergar claramente as enormes necessidades da população aqui. Eles precisam de alimento e medicamentos. O acesso a áreas como essa de grande insegurança pode ser desafiador. Sou responsável pela minha equipe, e preciso mantê-la em segurança”, diz Georg.

* Por razões de segurança, todos os nomes foram alterados.

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