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“Sofrendo por dentro”

Juliana Nhamburo, uma enfermeira conselheira que atua no projeto de violência sexual da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Mbare, no Zimbábue, admite que seu papel não é fácil.

Advertência: essa história contém informações sobre abuso e/ou violência sexual que podem ser perturbadoras para pessoas que enfrentaram ou enfrentam experiências similares.

“Ver vítimas de violência sexual chorando em uma sessão não é fácil. É preciso uma pessoa com coração forte. Não é preciso alguém que tenha o coração de um soldado ou de leão, mas um coração humanitário.

Quando você as vê falando com um sorriso no rosto, pode até concluir que tudo está bem com elas, mas elas estarão sofrendo por dentro e fingindo ser fortes. Suas vidas serão um inferno até que compartilhem suas experiências com alguém em quem confiem plenamente.

Minha experiência atuando como uma enfermeira conselheira, oferecendo cuidados médicos integrais e serviços psicológicos a vítimas de violência sexual na clínica de Mbare, não tem sido fácil. Você vê pessoas que são amargas e perderam a esperança de um futuro melhor. Você vê pessoas cujos egos foram feridos, que foram traídas por pessoas próximas a elas, e que perderam o sentido de ser e sua autoconfiança.

A maioria delas lamenta as oportunidades perdidas na vida por conta do que terão de enfrentar. A maioria sofre os efeitos da violência sexual, que incluem a infecção por HIV, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada, etc. Oportunidades perdidas acontecem quando, por exemplo, uma menina é forçada a deixar a escola por causa de gravidez, ferimentos físicos, psicológicos, trauma emocional e social.

Para alguém poder interagir com as vítimas, essa pessoa precisa ter a capacidade de ouvi-las, ter um coração compassivo e humanitário. Se uma vítima percebe que pode confiar em você, ele ou ela pode lhe dar informações subjacentes que podem ajudar a entender profundamente seus problemas.”