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Síria: “Todos estão cansados do medo e das mortes”

Médico apoiado por MSF fala sobre situação no subúrbio de Damasco

Me formei em 1995 e abri uma clínica em 10 de outubro daquele ano. Em 2001, me especializei em urologia. Havia cerca de 40 mil habitantes na região antes dos eventos (levantes sírios de 2011). Atualmente, a população daqui inclui os deslocados, que são cerca de 15 mil indivíduos.

Trabalho principalmente em duas clínicas. Uma delas vivenciou diversos ataques, foi fechada, e nós fomos transferidos a segunda clínica improvisada, que também foi bastante atingida. O último ataque a essa segunda clínica foi em 28 de setembro de 2015. Quatro pessoas foram mortas, inclusive um amigo meu, que era o diretor. Aquele ataque foi muito violento.

Nós reconstruímos a clínica, como geralmente fazemos. Ainda falta a sala de fisioterapia e o ambulatório é atualmente uma grande sala dividida por gênero, mas a clínica ainda oferece todos os tipos de serviços médicos, desde emergências, ambulatório, cirurgias e laboratório a raio-x e fisioterapia. É uma clínica essencial para a região de Ghouta.

Os pacientes estão com medo de vir por causa dos ataques. Eles sempre me falam para não os levar às clínicas; eles preferem ir aos centros, que são postos de saúde menores, porque as clínicas e hospitais da região são mais passíveis de serem alvos de ataques.

Um dos pacientes pode ser um membro da família
Você vê todos os tipos de vítimas. Hoje, na medida em que os pacientes chegavam, eles me diziam o quanto evoluí nesse período; eu respondi que deve ser por conta dos ferimentos que tenho visto. Porque você vê pacientes que perderam pernas, tiveram suas cabeças decapitadas, suas mãos arrancadas.

No futuro, os médicos de regiões como Ghouta serão considerados os mais famosos do mundo devido às coisas extraordinárias que tiveram de fazer. O número limitado de médicos em Ghouta Oriental, e, principalmente, em qualquer das áreas sitiadas, faz com que qualquer médico que tenha permanecido ali seja obrigado a desempenhar diversos papéis. Sou urologista e ginecologista e fiz mais de 200 cesáreas, fiz cirurgias gerais e sou pediatra. Tenho que fazer de tudo.

O momento mais difícil de enfrentar é aquele no qual você tem a estranha sensação de que um dos pacientes trazidos até você pode ser um membro de sua família. Mais do que isso, você vê um paciente, alguém com quem você falou por apenas cinco ou dez minutos, ser trazido sem o rosto ou a cabeça. Esse é realmente o momento mais difícil para mim.

O pior dos momentos
Hoje as coisas estão um pouco melhores, mas o período entre 2013 e 2105 foi o pior dos tempos. A situação no que tange recursos tem melhorado nos últimos quatro meses por causa da facilitação dos bloqueios. Chegou ajuda há cerca de dez dias com cerca de 53 kg em itens cada família (15 kg de farinha, 10 kg de arroz, 4 kg de birghul, 5 kg de açúcar, 6 kg de grão de bico e 1 kg de espaguete). Havia também alguns suprimentos médicos. A ajuda foi trazida pelo Crescente Vermelho Sírio.

Antes da chegada desse comboio, um quilo de açúcar estava custando 1 mil liras (moeda síria), o equivalente a 4,8 euros e 5,3 dólares. Agora, o pão, por exemplo, está custando entre 300 e 350 liras (entre 1,44 e 1,68 euros e 1,6 e 1,85 dólares). Há comida, há frutas! Frutas! Ano passado, lembro de ter trazido quatro laranjas por 3 mil liras (14,4 euros ou 15,9 dólares) para meus filhos.

Os suprimentos médicos ainda são limitados, mas não como antes. Pode-se dizer que atualmente temos uma reserva de entre 50 e 60% dos suprimentos médicos de que precisamos. Há dois anos, para comparação, medicamentos custavam entre 2 mil e 2.500 liras (entre 9,6 e 12 euros e 10,6 e 13,25 dólares) e hoje custam 900 liras (4,32 euros ou 1,77 dólares).

Eles simplesmente querem o fim da violência
Mas, no contexto dessa guerra, as coisas ainda estão muito ruins. Há sempre aviões, sempre ferimentos, vítimas e mortos.

Todos estão cansados do medo e das mortes. As pessoas queriam sua liberdade, queriam que a revolução persistisse, mas agora chegaram num ponto em que simplesmente querem o fim da violência. Todos os dias alguém se despede de um parente. Todos os dias há medo. Eu fui dos poucos a pegar meu carro para trabalhar em clínicas improvisadas em outras áreas. Todas as vezes que vou, rezo porque não tenho certeza se voltarei para meus filhos. Mas há cerca de cinco ou seis dias, não estou com medo de sair. Essa é a primeira vez, em três anos, que me sinto seguro e sem medo de ataques.

Ainda assim, ouvimos o som de tiros. Próximo daqui, há batalhas que estão se aproximando. A cessação da violência não existe, mas houve uma diminuição. Pode-se dizer que o nível de violência está em cerca de 15 a 20% do que era. As pessoas ainda têm medo do que vai acontecer após a cessação da violência, principalmente porque um dia antes da efetiva cessação das hostilidades, tivemos cerca de 50 ataques a Ghouta. Era como se as pessoas que estão nos bombardeando quisessem dar um rápido adeus. Estamos preocupados que, com o fim da cessação, a resposta seja dura.

Depoimento de março/2016