Ucrânia: “Estar vivo é o mais básico e a maior conquista para todos”

Em Histórias de MSF, Katsa Juliana Shea, coordenadora de promoção de saúde, compartilha as contradições e o horror de viver e trabalhar em tempos de guerra

Centro de trânsito para pessoas deslocadas em Dnipropetrovsk, leste da Ucrânia. Equipes de MSF examinam pacientes com doenças crônicas e ferimentos de guerra. © Julien Dewarichet

Katsa Juliana Shea começou a trabalhar com Médicos Sem Fronteiras (MSF) em 2022. Desde então, já atuou em projetos no Sudão do Sul, Bangladesh e Haiti. Na Ucrânia, Katsa está no escritório de coordenação em Kiev, mas gerencia três equipes de promotores de saúde nas regiões de Dnipropetrovsk, Cherkasy, Donetsk, Mykolaiv e Kherson. 

O absurdo desta guerra reside em suas contradições: a forma como a vida continua em paralelo com a inacreditável destruição. Há a coragem e a determinação do povo ucraniano, mas também a dor, o cansaço dos meus colegas e o peso das histórias dos pacientes. Há o número de vezes que se cruza com jovens todos os dias, com bengalas nas mãos e membros amputados. É impossível compreender a dimensão e o custo de tudo isso. E, no entanto, de alguma forma, em meio a esse absurdo — os alarmes, os bombardeios, os drones ameaçando o céu. 

É impossível não carregar essa tensão como uma pequena pedra no bolso, o dia todo, todos os dias, tentando entender como tudo pode ser assim, como tudo isso é capaz de se encaixar.

Os bombardeios são ao mesmo tempo aterrorizantes e estranhamente banais. […] Na manhã seguinte, há esse estranho retorno à normalidade, quase um desafio disfarçado de rotina.”

Katsa Juliana Shea, coordenadora de promoção de saúde de MSF na Ucrânia

Essas contradições não existem no abstrato, elas se manifestam em danos reais. No verão passado, mais de 300 drones e várias dezenas de mísseis de longo alcance foram lançados contra Kiev em uma única noite. Foguetes e veículos aéreos não tripulados atingiram prédios residenciais, hospitais, transportes públicos, escolas e creches.  

De acordo com a Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas na Ucrânia, somente em julho de 2025, 286 civis foram mortos e 1.388 ficaram feridos. Aquele foi o mês mais mortal desde maio de 2022 no país. 

Mesmo assim, o impacto é desigual, filtrado por diferentes vidas. A verdade é que eu sinto isso, mas não da mesma forma que meus queridos amigos e colegas na Ucrânia. Estou aqui, estou sob o mesmo céu, ouço as mesmas explosões, vejo as mesmas janelas tremerem. Mas não é meu irmão na linha de frente do conflito, não é minha casa reduzida a escombros, não é toda a minha comunidade e infância, educação e bens familiares apagados. Não é a minha história ou a minha cultura que está sendo defendida.  

E, assim, há esta constante duplicidade — por um lado, estou passando por isso com eles, bebendo as mesmas quatro xícaras de café na manhã seguinte, cuidando dos mesmos pacientes e, por outro lado, sei que há uma espécie de barreira entre a dor deles e a minha, o risco deles e o meu.  

Isso me deixa com a sensação de fazer parte dessa experiência e, ao mesmo tempo, de estar muito fora dela — como se estivesse habitando a tragédia de outra pessoa, mas apenas como um convidado, sem nunca assumir totalmente a dor ou o legado dessa guerra. 

Parque infantil destruído pelas forças russas em Pokrovsk, região de Donetsk, em 7 de agosto de 2023. Neste dia, dez pessoas morreram no ataque e mais de 80 ficaram feridas. © Yuliia Trofimova/MSF

Desde o início da intensificação da guerra, em 24 de fevereiro de 2022, até o final de agosto de 2025, mais de 64 mil alertas aéreos foram registrados na Ucrânia, dos quais 44.685 foram ameaçados por bombardeios de artilharia, de acordo com o site air-alarms.in.uaA maioria dos bombardeios ocorre de madrugada, entre 1h e 5h, quando as pessoas estão mais vulneráveis, cansadas, sonolentas e desorientadas. 

Os bombardeios são ao mesmo tempo aterrorizantes e estranhamente banais. A noite é marcada por causa do zumbido assustador dos drones, seguido por explosões altas que nos acordam com um sobressalto, sem mencionar o modo como o nosso telefone apita a cada poucos minutos com algum alerta aéreo ou informação de segurança.  

No entanto, na manhã seguinte, há esse estranho retorno à normalidade, quase um desafio disfarçado de rotina. Ao caminhar para o trabalho na manhã seguinte, todas as pessoas com quem você cruza estão cansadas como você; isso está escrito em todos os nossos rostos. É possível sentir uma espécie de solidariedade com todos, sabendo que ninguém conseguiu dormir na noite anterior.  

E quando vejo meus colegas ucranianos e pergunto como estão, eles costumam responder: “Estou vivo”. Isso não é dito de forma irônica ou melodramática, é apenas a verdade crua e objetiva da situação. E percebo que “estar vivo” é ao mesmo tempo o mínimo e o máximo, o nível mais básico e a maior conquista agora para todos que vivem na Ucrânia. 

Essas experiências refletem uma realidade mais ampla enfrentada por muitos. A linha de frente de conflito na Ucrânia muda rapidamente — recentemente, em 10 km em uma noite. Com isso, tem havido um aumento no número de pessoas chegando aos centros de evacuação instalados a alguma distância das áreas de conflito.  

Ao passar por centenas de camas lado a lado em um antigo ginásio escolar, é possível ver muitos casais idosos, entre os 80 e 90 anos, sentados em silêncio sob as luzes fracas, forçados a terminar suas vidas nessas circunstâncias extremas.  

Recentemente, conversei com um homem que caminhou quilômetros para chegar ao centro de evacuação com dois cães e dois gatos ao seu lado. Enquanto conversávamos, ele ficou ali com os pets dormindo por perto. “Esses animais salvaram minha vida”, ele nos conta. “Havia drones acima da minha cabeça, mas não me atacaram porque viram que havia animais comigo.”  

A verdade é que há tantas histórias de partir o coração, mas às vezes são os momentos aparentemente comuns que realmente me tocam, aqueles que parecem pequenos até você perceber que carregam o peso de tudo.  

Uma tarde, ao sair do meu apartamento, olhei para cima e vi meus vizinhos, um casal jovem e bonito, parado na janela. Acenei, e o homem me fez sinal para esperar. Ele desapareceu por um instante e voltou com um bebê recém-nascido bem pequeno. Ele segurou o bebê na janela para que eu pudesse vê-lo, radiante de orgulho. Acenei de volta. Essa imagem ficou gravada na minha mente: uma família, vivendo sob drones que sobrevoavam o local, tão merecedora de paz. É apenas um dos inúmeros pequenos milagres que persistem. Meu amigo me disse que a expressão ucraniana “бути у надії”, usada para dizer que alguém está grávida, significa “estar na esperança”. E, com certeza, essa esperança, esse investimento no futuro, é a resiliência que nos leva adiante. 

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