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Profissional de MSF detido no Iraque conta sua experiência durante nove dias de prisão

24/04/2003
François Calas, chefe de missão de MSF no Iraque, Ibrahin Younis, coordenador logístico da missão, e Munir Mohammad, tradutor e motorista de MSF passaram 9 dias em prisões iraquianas acusados de espionagem. François Calas conta sua experiência.

323. Este foi o número que identificou o francês François Calas, chefe de missão de MSF no Iraque, durante sua detenção em três prisões iraquianas. Ele foi preso, junto com o sudanês Ibrahin Younis, coordenador logístico da missão, e com o iraquiano Munir Faiz Mohammad, tradutor e motorista contratado por MSF alguns dias antes. Eles e outros colegas de cela foram acusados de espionagem e foram mantidos por nove dias em condições precárias. François Calas conta sua estória...

“Eram 10 e meia da noite de quarta-feira, 2 de abril. Eu estava com Ibrahim no Hotel Al Abraj, onde nós estávamos hospedados desde que chegamos. Pessoas que se diziam da Mukhabarat, a agência iraquiana de inteligência, acordaram o Ibrahim. Eles bateram na minha porta. Eu rapidamente desliguei o meu computador mas eles puderam ver o equipamento, junto com o telefone satélite, porque eu estava tentando fazer uma conexão naquele momento. Eles entraram no quarto e pediram que os seguisse. Eles não nos ameaçaram com suas armas. Quando chegamos à rua, eles ficaram uns cinco minutos conversando com Ibrahim em árabe sobre equipamentos proibidos, espionagem e interrogatórios. Fomos algemados e obrigados a subir na caçamba de uma pick-up. Nós tínhamos que manter as cabeças abaixadas para não vermos o caminho que eles tomavam. Chegamos a um complexo da inteligência iraquiana. Nós aguardamos no caminhão por cerca de uma hora e então pudemos descer. Estávamos em Abu Ghraib, a principal prisão, cerca de 15 km de Bagdá. Na manhã seguinte, Munir Faiz Mohammed juntou-se a nós.

. “Nós fomos colocados em celas diferentes no mesmo prédio. Os guardas começavam a apagar as luzes às 4 da tarde e se abrigavam num bunker. Naquele momento, Ibrahim e eu podíamos conversar através das 4 celas que nos separavam. Nós éramos 2 em cada cela. As celas não tinham luz e mediam 1.8m por 2.5m. Eu estava com um curdo iraquiano e Ibrahim com um prisioneiro iraquiano. Nós podíamos sair da cela duas vezes ao dia para ir ao banheiro e para beber água.”

“Nós estávamos exatamente no centro do conflito. Uma artilharia de defesa antiaérea estava no teto da prisão e os mísseis iraquianos eram disparados por detrás do prédio. Estávamos sob uma chuva contínua de bombardeio. Durante os três dias que ficamos lá, podíamos ouvir a artilharia americana chegando cada vez mais perto. Podíamos ouvir o som do avanço dos americanos e a da batalha pelo aeroporto de Bagdá.”

“Os carcereiros estavam preocupados com a segurança deles e, talvez, devido a deterioração da situação, com o que poderia acontecer com eles ferissem um estrangeiro. Depois de três dias, eles nos transferiram para uma outra prisão. Foi assim que chegamos a Al Faluja, a terrível e conhecida penitenciária localizada a 20 km a oeste de Bagdá. Ao invés de celas separadas, a prisão tem um salão único com um pátio no centro. Nós ficamos aliviados de não mais ouvir o bombardeio incessante. Aprisionados como ratos numa gaiola, no final este confinamento conjunto nos pareceu mais interessante, em relação à sociabilidade. Havia uma troca de experiência entre os prisioneiros que vieram de muitos cantos da terra: estrangeiros como nós, presos com base em alegações frágeis - egípcios, um jornalista japonês – criminosos comuns, espiões verdadeiros e alguns pobres infelizes, vítimas das rondas policiais antes do início da guerra. De certa forma, eles foram vítimas do fato de os agentes do serviço secreto terem que mostrar serviço. Os mais ‘antigos’ do grupo estavam lá por três ou quatro meses. As suas acusações eram tão fracas quanto as que nos levaram a ser presos. Antes da guerra, os carcereiros tinham que evitar conspirações e perseguir inimigos internos...As condições de saúde eram terríveis. Havia entre 175 e 200 prisioneiros para um único banheiro e uma torneira de onde, apenas ocasionalmente, saiam algumas gotas de água. A comida era revoltante. Nós não tínhamos que lidar mais com o terror dos bombardeios, mas agora estávamos com medo de ficar doentes...Se eu pudesse, eu teria implantado um programa anticólera!

Depois de três ou quarto dias, os americanos avançaram e nós começamos a ouvir tiros. Nós tentamos, o melhor que pudemos, estar a par dos acontecimentos. Muitos prisioneiros tinham radinhos de pilha, então éramos capazes de contrapor a propaganda iraquiana que ouvíamos dos guardas.

No quarto dia, eles nos mudaram para Al-Ramadi, mais a oeste, às margens da rodovia para Jordânia. Lá, 175 pessoas foram postas em dois quartos com menos de 50 metros quadrados. Nós ficamos lá por dois dias e meio, e nunca recebemos permissão para sair dos quartos. Nós nem podíamos nos esticar para dormir sem que os corpos se emaranhassem. Essa falta de privacidade e a incapacidade de sair provocaram um clima de tensão entre os prisioneiros. Eles se pisavam, levantavam as vozes muito rapidamente e aconteciam brigas. Nós conseguíamos ficar fora disso.

Nós nunca sabíamos o que aconteceria e nessas circunstâncias, a sua imaginação corre solta. “Nunca ninguém sai vivo desse tipo de lugar”, diziam os prisioneiros. Um dia em Al Faluja, eles nos disseram que nós estávamos livres. Eles começaram a dar roupas aos prisioneiros – exceto a mim já que eu mantive meu uniforme listrado de azul e branco. O grupo ficou muito entusiasmado. Quando nós estávamos para entrar no ônibus, eles nos disseram para trazer nossos cobertores. Então, soubemos que estávamos sendo transferidos e não libertados.

Eu fui interrogado duas vezes. A primeira vez, um homem educado falando um inglês mediano me sabatinou – por meio de um intérprete que também falava um inglês mediano – perguntando as coisas de sempre: porque nós tínhamos tanto dinheiro vivo, quando você deveria abrir uma conta bancária? É verdade que essa é a primeira coisa que vem na cabeça numa guerra e, é claro, porque nós tínhamos os equipamentos de comunicação. Eles suspeitaram que eu estivesse reunindo informações para o governo francês. No final das perguntas, eles me fizeram assinar uma declaração. Eu não sei o que dizia. Depois, fomos submetidos ao clássico joguinho policial: “Nós sabemos que um de vocês três é espião. Queremos ajudá-los a sair daqui...” Particularmente, durante o segundo interrogatório eu tive a impressão de que o homem que me interrogava estava bastante desconfortável. Eu reclamei – sem sucesso, é claro – das péssimas condições de saúde. Ibrahim, Munir Faiz Mohammad e eu não fomos maltratados, mas vimos homens fazendo interrogatórios utilizando métodos terríveis, desde surras até choques elétricos. Outros detentos nos falaram em tortura. Nós nunca sabíamos o que nos aguardava.

Finalmente, assim que eu deixei de acreditar que seríamos libertados, eles nos puseram para fora da prisão e, novamente, nós estávamos livres. Nós tínhamos a sensação de que sem ordens de superiores eles não sabiam o que fazer conosco. Estava fora de questão que eles assumiriam a responsabilidade de nos deixar partir. Anos de ditadura desencorajaram iniciativas como esta. Eles estavam paralisados. Nós sentimos que o regime estava caindo: das prisões nós ouvíamos as tropas americanas avançando. E à medida que os dias passavam, os guardas ficavam menos rudes, embora ainda igualmente mentirosos.

Duas horas depois, eles abriram as portas e nos colocaram nos ônibus. Nós pedimos nossos pertences pessoais. “Vocês os encontrarão no escritório central em Bagdá,” eles disseram. De fato, essas prisões – cujas intenções eram de proteger a segurança governamental – acabaram em saques. O que mostra o quão absurda é esta estória!

Eles nos levaram para o meio de Al Ramadi. Nós estávamos livres. Alguns dos detentos tinham um pouco de dinheiro e portanto fomos capazes de chegar a Bagdá. Ficamos felizes de encontrar com os nossos outros 4 companheiros e encontramos uma cidade transformada pelo que tinha acontecido em poucos dias. Embora nós estejamos fisicamente fracos e tenhamos passado por momentos de muito estresse e ansiedade, está tudo acabado agora. Eu vou ficar até o fim do mês para que possamos iniciar o que nós viemos aqui fazer. Eu ficaria terrivelmente desapontado se tivesse que voltar pra casa agora.”

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