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MSF mantém projetos na Somália mesmo com insegurança política

30/06/2006
Chefe de missão da organização conta como está a situação no país depois dos recentes confrontos pela tomada de poder

Josep Prior é chefe de missão de Médicos Sem Fronteiras na Somália, um dos países mais pobres e instáveis da África. Ele testemunhou a recente chegada da União de Cortes Islâmicas ao poder na capital, Mogadíscio, que durante mais de 15 anos foi controlada pelos chamados warlords (senhores de guerra). Nesta entrevista, Prior descreve como os acontecimentos recentes afetaram os civis e como ficam os projetos de MSF no país.

Você esperava esta mudança? Como a população da Somália reagiu à nova situação?

Tudo foi bastante inesperado. Por 15 anos a Somália viveu sob controle dos chamados senhores de guerra e nunca ninguém imaginou que a situação mudaria da noite para o dia. Como todos foram pegos de surpresa, ainda é cedo para traçar qualquer panorama de como o país ficará agora ao ser controlado pelas Cortes Islâmicas. Mas uma coisa é certa: as pessoas estavam cansadas dos anos de caos e anarquia enquanto estavam sob o poder dos senhores de guerra.

Na Somália, nada funciona: água, eletricidade e escolas não estão à disposição da população. O acesso a itens como saúde, sistema de coleta de lixo, sistemas jurídicos ou policiamento é inexistente. Não há empregos e as pessoas vivem com uma sensação de que não têm futuro. A população implora por mudanças. Muitas pessoas parecem estar apoiando as cortes por as verem como uma outra saída ao sistema dos senhores de guerra.

Como você avalia a situação depois de quatro meses de confrontos entre os envolvidos na situação política da Somália?

Felizmente os lados da disputa respeitaram, de uma maneira geral, a população civil. Não houve um grande deslocamento de pessoas, saques, estupro ou ataques diretos contra civis. O incidente mais sério foi a tomada por milícias de um hospital em Kisani, que conta com o apoio da Cruz Vermelha Internacional. Alguns civis ficaram no meio do fogo cruzado e foram feridos.

Como a instabilidade afetou os projetos de MSF?

Somente dois de nossos oito hospitais foram afetados. Um deles no distrito de Yaqshid, em Mogadíscio, onde estávamos prestes a realizar uma campanha de vacinação contra o sarampo em mais de 150 mil crianças. Tivemos que atrasar a campanha por tempo indefinido e isso é muito ruim, já que a população da capital não é alvo de uma campanha de vacinação há mais de 10 anos. Mas, apesar dos confrontos, ainda podemos realizar alguns atendimentos clínicos.

Também tivemos que evacuar equipes internacionais de Jowhar (no centro da Somália), onde damos apoio a seis clínicas, e tivemos também que suspender campanhas de vacinação na região. Primeiramente equipes locais que trabalham com MSF conseguiram manter as atividades no local. Mas por causa dos confrontos a operação foi suspensa por alguns dias. Estamos numa tentativa de retomá-las agora.

Quais são as principais preocupações humanitárias de MSF na Somália?

A principal é a negligência. A Somália saiu do radar internacional há 15 anos e vem sendo negligenciada desde então. Nós ouvimos sobre os islâmicos tomando o controle do país, mas ninguém menciona o sofrimento da população da Somália. O país está em ruínas e nada funciona. A insegurança impede que uma boa parte de ajuda externa chegue ao país. Há por exemplo muito poucas ONGs trabalhando na Somália atualmente.

As pessoas morrem de doenças curáveis simplesmente porque não têm acesso ao sistema de saúde. A mortalidade infantil é extremamente alta: uma em cada dez crianças nasce morta e, entre as que conseguem sobreviver, quatro morrem antes de completar cinco anos. Epidemias como sarampo, malária e cólera são comuns e devastadoras. As famílias ainda têm que enfrentar problemas como fome e seca.

A Somália tem as taxas de tuberculose mais elevadas do mundo. A pólio, que foi erradicada em quase todos os países do mundo, assola o país. A expectativa de vida é de 47 anos. Nossa prioridade é poder operar a plena capacidade na Somália.

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