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Canoas artesanais e bicicletas levam equipe de MSF para Mussende, em Angola

12/02/2003
Os principais acessos para a região estavam inutilizados e as pontes destruídas pela guerra. Para chegar em Mussende, a equipe de MSF viajou de carro, depois usaram canoas para atravessar o Rio Cuanza e seguiram de bicicleta por mais 85 km até a cidade.

Atingir populações remotas normalmente apresenta dificuldades logísticas e as soluções usadas por MSF para chegar a tais comunidades normalmente são fora do comum. Quando equipes de MSF em Angola tentaram chegar até as pessoas em Mussende e arredores, veículos estavam fora de cogitação. Todas as pontes para a região tinham sido destruídas há muito tempo e trechos rodoviários alternativos eram muito distantes e longos. Ao invés destes, a equipe usou uma combinação de canoas de troncos de árvores e bicicletas para viajar os 85 km até a região isolada. Este contato seria a primeira forma de ajuda que chegaria a Mussende em anos.

Mussende é uma pequena e isolada cidade da província Cuanza Sul no norte de Angola, localizada 134 km de Malange, a capital da província de Malange. A população de Mussende é de aproximadamente 10 mil, enquanto que mais de 35 mil pessoas vive nos arredores. Mussende foi completamente destruída durante a guerra, seu isolamento é tão completo que a equipe de MSF conseguiu ter acesso à vila pela primeira vez usando uma combinação de carros, canoas e bicicletas. Os três principais acessos rodoviários para a região estão inutilizados, assim como as pontes ao longo das rotas que cruzam o imenso Rio Cuanza, que foram destruídas durante a guerra que durou 27 anos, impedindo o acesso de quase todos os veículos.

Carro, canoas, bicicletas

A primeira visita de MSF em setembro ocorreu após uma viagem de duas horas de carro de Malange até o rio Cuanza, então foram usadas canoas para atravessar o mesmo – em um trajeto de quase 250 metros – e, depois, seguir de bicicletas por mais 85 km até a cidade. Havia somente dois membros nacionais na equipe desta primeira viagem e levaram apenas utensílios pessoais como sacos de dormir e redes de proteção de mosquitos.

MSF levou dois dias para atingir Mussende de bicicleta, parando freqüentemente para avaliar as necessidades das populações que vivem nos quatro vilarejos ao longo da rota. Finalmente em Mussende, estavam aptos a atender a população e tentar arranjar algum modo de transporte para a entrada de uma equipe maior.

Sete meses após o cessar fogo ser declarado em 4 de abril, este seria o primeiro contato de uma organização internacional em anos e MSF permanece a única organização ativa no local. Mussende não é uma exceção em Angola, um local sem assistência internacional. Ainda existem muitas outras áreas ao longo do país que não foram assistidas – nem por MSF, nem por outras organizações – desde o fim da guerra.

Felizmente, as populações não estavam em condições tão ruins quanto a equipe havia previsto. O maior temor foi para com as pessoas nas Áreas de Recepção (anteriormente chamadas Áreas de Aquartelamento e de Famílias), onde os soldados da UNITA e suas famílias viviam, tendo em vista o que MSF constatou nas Áreas de Recepção em Malange. Entretanto, ainda que este grupo estivesse vulnerável e precisando de assistência, eles não estavam em condição miserável.

Fase crítica

No momento, a equipe de MSF tem um médico e uma enfermeira permanentemente acampados em Mussende. A população se sente muito isolada e somente o fato de MSF estar no local e visivelmente fazendo seu trabalho é tranqüilizador para as pessoas.

Este é um momento importante para MSF estar em locais como Mussende. A área está entrando em uma nova fase de transição para a paz e a população ainda permanece muito vulnerável. Após anos de instabilidade, pessoas que fugiram da guerra estão progressivamente retornando para a área de Mussende e reconstruindo suas comunidades. Nos próximos meses, a população irá crescer consideravelmente, o que deverá acarretar maiores problemas para o sistema de saúde e recursos alimentícios.

As crianças da Área de Recepção de Cambale estão também sob risco de uma crise nutricional se a intervenção não aumentar logo. MSF está realizando semanalmente distribuição de comida desidratada nesta Área onde 10 mil ex-soldados da UNITA ainda vivem com suas famílias, 7 km fora da cidade de Mussende. 141 crianças menores de cinco anos estão atualmente se beneficiando da ajuda de MSF em Cambale. Esta atividade é a única ajuda alimentar consistente e a única intervenção nutricional que chega às pessoas na Área de Recepção de Cambale. Esta é a única Área de Recepção em Angola que não está recebendo ajuda alimentar com regularidade.

Cada semana, as equipes levam cerca de 500 kg de carga de Malange para o rio. A ponte ainda está inutilizada e então são usadas canoas para transportar suprimentos e membros da equipe para o outro lado.

MSF também começou uma distribuição semanal de alimentos desidratados na cidade para assistir especialmente crianças vulneráveis com menos de 5 anos de idade. Ainda que a crise alimentar esteja de alguma forma estabilizada, alguns casos de desnutrição severa podem ainda ser achados na cidade. Estas crianças são enviadas ao Centro de Alimentação Terapêutica em Malange.

A viagem de avaliação inicial em setembro foi planejada previamente e MSF trouxe bicicletas de carro para a margem do rio. Lá já havia homens com canoas, oferecendo seus serviços de travessia de pessoas e mercadorias. As bicicletas e os dois membros da equipe atravessaram o rio nestas canoas artesanais.

Uma vez do outro lado, a estrada para Mussende estava praticamente perfeita. O demorado isolamento devido à destruição das pontes fez com que a estrada fosse ignorada pelas tropas e, logo, a viagem foi relativamente fácil.

Desde então, MSF enviou um veículo à região através da longa rota rodoviária alternativa – uma jornada de 18 horas – e o veículo está agora situado lá permanentemente. Toda semana, as equipes em cada lado da ponte aparecem, a carga é embarcada através do rio e depois levada a Mussende. Hoje, toda esta jornada, incluindo o trajeto das canoas, é de somente 4 horas.

Bicicletas são largamente utilizadas lá porque muitos dos caminhos não são grandes o suficiente para um carro. Além disso, há suspeitas de que as estradas estejam minadas, logo o acesso é normalmente feito a pé ou de bicicleta. MSF freqüentemente usa bicicletas em Malange para fazer vacinações em comunidades sem acesso por estradas.

Qualquer viagem em Angola tem seus perigos inerentes. No final de novembro de 2002, um veículo de MSF transportando equipes de saúde de MSF e do Ministério da Saúde foi destruído por uma mina, matando 7 pessoas e ferindo outras 6. Eles estavam viajando em uma estrada que tinha freqüentemente sido usada no passado.

Por Fabienne Huyghe