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Ásia: profissional de MSF fala sobre o que viu depois de retornar de Banda Aceh

03/02/2005
Ibrahim Younis, da equipe de emergência de MSF, foi o primeiro profissional estrangeiro da organização a chegar em Banda Aceh, na Indonésia, após as tsunamis que atingiram a região. Ele conta o que viu durante todo o mês de janeiro em que esteve na área

Por coincidência, Ibrahim Younis estava na região fazendo levantamentos para futuros projetos no sul da Tailândia e na Indonésia, e estava em Jacarta naquele período.

Em 72 horas, após a permissão ter sido concedida para MSF entrar na província de Banda Aceh, de acesso restrito, Ibrahim chegou com uma equipe de 12 profissionais locais e 3,5 toneladas de material de ajuda humanitária.

“Nós chegamos em 28 de dezembro, de tarde, e no outro dia estabelecemos duas clínicas móveis em Banda Aceh para visitar as áreas afetadas e oferecer cuidados de saúde nos locais onde estava a maior parte dos desabrigados”, disse Ibrahim.

“Havia 108 campos de desabrigados até aquele momento. As pessoas estavam se agrupando em qualquer lugar onde houvesse uma construção vazia que pudesse abrigá-los. Escolas, fábricas, em todos os lugares. Havia entre 50 e 2.000 famílias em cada um dos campos”.

“Outros profissionais da equipe de MSF estavam analisando questões logísticas e avaliando outras necessidades”.

“Em Banda Aceh, toda a região norte foi inundada e demolida e a água tinha penetrado bastante dentro da cidade. Ainda havia corpos enterrados sobre os escombros e a lama. Os corpos estavam mais concentrados no centro da cidade, onde a água tinha entrado bastante. A água então recuou e deixou os escombros e os corpos para trás”.

Até 30 de dezembro, MSF tinha enviado outros profissionais para a região do desastre e a equipe inicial pôde aumentar o alvo do seu trabalho e alcançar áreas mais remotas, particularmente na devastada costa oeste da província.

“Em 31 de dezembro, nós tínhamos um helicóptero e voamos pela costa oeste para avaliar os danos. O vôo foi mantido a apenas 300 ou 400 pés acima do solo para que pudéssemos ver claramente a amplitude da tragédia. Toda a costa oeste havia sido arrastada uns três quilômetros pra dentro da cidade. Estava perdida. Tudo perdido. Você podia ver bolsões de pessoas, talvez 20 ou 25 pessoas de cada vez, e muitas tinham mudado para outros vilarejos do interior, algumas vezes a 10 km de distância”.

“No primeiro vôo, nós pousamos somente duas vezes. No primeiro local, já havia profissionais de saúde e deixamos, então, alguns medicamentos. No outro, deixamos biscoitos com alto teor de proteína”.

“No segundo dia, nós levamos equipes móveis, produtos não alimentícios e arroz”.

“As visitas de helicóptero, inicialmente, foram visitas rápidas. Nós pousávamos e mantínhamos o motor funcionando, então perguntávamos a eles cinco questões básicas: se havia um centro de saúde, profissionais de saúde, alimentos, feridos, ou alguém precisando de transporte para um hospital”.

“No mesmo dia, ou no dia seguinte, retornávamos com mais itens e profissionais para atendê-los”.

“Nas primeiras visitas, ficamos somente por um dia por causa das questões de segurança. O profissional ficava por alguns dias e nós reforçávamos os suprimentos”.

“Na primeira semana estávamos concentrando nossos esforços na costa oeste e somente por helicóptero. E trabalhávamos até Meulaboh. 20 km adiante não havia mais devastação e a zona de crise terminava”.

“Inicialmente, para chegarmos a Meulaboh, tínhamos que ir à costa leste, Sigli, para então chegarmos a Meulaboh, na costa oeste. Porém, nas primeiras duas vezes nós não pudemos pousar porque a chuva estava forte. A visibilidade era de apenas dez metros na chuva e não pudemos pousar”.

Com a ajuda finalmente estabelecida, os reforços chegaram a Meulaboh pelo mar por meio do navio Rainbow Warrior do Greenpeace.

“Hoje temos quatro bases onde concentramos os profissionais e os suprimentos de MSF. Banda Aceh, na ponta norte. Sigli, na costa leste. Lamno e Meulaboh, na costa oeste. E temos sete ou oito pontos na costa leste que visitamos com freqüência”.

“Nós observamos ferimentos leves e graves e algumas necessidades cirúrgicas. Mas também há necessidade de atendimento de saúde mental na medida em que as pessoas estão muito traumatizadas. Há muitas crianças desacompanhadas e há destruição de estruturas de saúde, morte de muitos profissionais locais de saúde, falta de recursos e de infra-estrutura”.

“O atendimento médico primário já estava funcionando mal antes das tsunamis, mas agora muitos dos profissionais de saúde estão mortos e os centros de saúde perdidos”.

“Agora, um mês depois, a prioridade é o atendimento básico de saúde e psicológico, porém o estabelecimento psiquiátrico de Banda Aceh foi destruído e não há outra estrutura para encaminhar as pessoas. Os problemas de saúde mental estão sendo atendidos em quaisquer centros de saúde disponíveis. E agora há uma superlotação nos serviços ambulatoriais”.