Você está aqui

“Não posso abandonar meu povo”, diz cirurgião sírio

Profissional apoiado por MSF em zona rural no norte da província de Homs fala sobre o medo da ameaça permanente de ataques aéreos, mas também do seu comprometimento em ficar ali para fazer cirurgias

Sou o único cirurgião-geral atendendo uma população de 100 mil pessoas nas cidades de Ar-Rastan e Al-Zafaranah, no norte da área rural da província de Homs. A maioria dos demais cirurgiões deixou a região. A situação é difícil, tanto pessoal quanto emocionalmente. Não posso partir e abandonar todas essas pessoas em um momento em que outros cirurgiões não conseguirão vir até aqui. Mas não sou feliz aqui; minha mulher e meus filhos vivem em meio ao medo constante. Certamente, minha situação me deixa infeliz, mas sei também que as pessoas precisam desesperadamente de nós.

As condições médicas são catastróficas. Quando a campanha aérea se intensificou em outubro, nos primeiros dias, mais de 1 mil pessoas morreram em consequência dos bombardeios e centenas ficaram feridas aqui na Homs rural. Para os que se deslocaram, as opções são limitadas; Homs rural está sitiada desde meados de 2012. A população está fugindo dos pesados bombardeios em áreas como Deir Maalle e Al-Ghanto para outras regiões também sitiadas, mas relativamente mais seguras, como Ar-Rastan e Al-Zafaranah. Com a onda de deslocamentos, ambas as regiões registraram aumento de sua população, com mais de 100 mil pessoas agora vivendo nessas duas pequenas cidades.

No hospital de Al-Zafaranah, por exemplo, onde a média diária de consultas no ambulatório variava entre 100 e 150, o número atualmente é 1,5 vezes superior devido ao óbvio aumento da população.

Tratar crianças feridas é doloroso
Não é preciso dizer que a média do número de cirurgias realizadas em hospitais localizados em regiões relativamente mais calmas é superior à quantidade de intervenções feitas em áreas sob bombardeios. Os dois hospitais em Deir Maale e Al-Ghanto estão sob tremenda pressão, mas, pelo menos, estão equipados. Algumas vezes, conseguimos entregar equipamentos de outros hospitais para esses dois, que estão em meio a confrontos mais intensos. A evacuação de feridos também tem se mostrado uma aventura perigosa e, por isso, os casos graves são imediatamente tratados, independentemente dos perigos.

Tratar crianças feridas é sempre muito doloroso. A sensação de impotência que se abate sobre você é excruciante.

Um dos ataques aéreos matou oito pessoas, cinco da mesma família – o pai e quatro filhos. Uma das crianças tinha menos de 1 ano e meio e ainda estava viva quando chegou ao hospital. Seu pequeno corpo foi gravemente mutilado por estilhaços resultantes do ataque. O problema é que sou pai de uma criança de um ano de idade. Embora estejamos habituados a lidar com casos trágicos, como amputações e crânios esmagados, quando você se depara com uma criança em sofrimento, não há como conter a agonia.

Rotas de suprimento interrompidas
Há um bom tempo a aquisição de medicamentos tem sido extremamente difícil. Atualmente, é praticamente impossível conseguir medicamentos. As rotas que eram normalmente utilizadas para a entrega de medicamentos, como uma que nos conectava a Homs, foram completamente suspensas. Hoje, dependemos de uma rota que nos liga ao norte. Não é fácil, claro, mas as pessoas estão começando a utilizá-la. Esperamos, por meio dessa rota, obter medicamentos. Ainda assim, o desafio é imenso.

Por causa das numerosas cirurgias sendo realizadas, nossos anestésicos estão acabando, além de gaze, desinfetantes, antibióticos e medicamentos anti-inflamatórios. Hospitais em áreas sitiadas têm desenvolvido alternativas para situações de emergência quando não conseguem assegurar os medicamentos, mas eles têm exaurido nossos estoques estratégicos e de back-up.

Situação alimentar terrível
Diversos hospitais no norte de Homs rural dependem completamente de Médicos Sem Fronteiras (MSF) para seus suprimentos médicos. Sem esse tipo de apoio, a situação teria sido muito pior. No que tange às condições médicas, o suporte oferecido por MSF fica no limite do suficiente; no entanto, quando se trata de outros aspectos da ajuda, como alimentos e leite para crianças, é preciso fazer muito mais. A situação alimentar é terrível. As associações que estão trabalhando em campo são incapazes de responder a todas as necessidades.

As taxas de pobreza estão se elevando incessantemente, e quando se é pobre, você é impotente. As pessoas não têm alternativa que não enfrentar tudo isso. Aqueles que têm dinheiro puderam fugir. Aqueles que não têm recursos não fugiram. Outras razões para ficar envolvem a crença de que algumas pessoas jamais abandonarão sua terra natal. E a minha razão para ficar é o fato de que não posso abandonar meu povo.

Depoimento de outubro/2015