Para não esquecer o Haiti

 

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Aconteceu em 4 de outubro passado e as consequências, assim como as de todas as catástrofes naturais que assolam países pobres, perduram até os dias de hoje, agravando as condições de vida já frágeis da população afetada. O furacão Matthew foi a primeira tempestade de categoria 4 – a máxima categoria é 5 na escala Saffir-Simpson – a atingir o Haiti em 52 anos, e gerou a pior crise humanitária no país desde o terremoto de 2010. Ao menos 546 pessoas morreram, mais de 2 milhões foram diretamente afetadas e estima-se que 90% das casas nas áreas atingidas tenham sido destruídas, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Isso sem falar na perda de lavouras inteiras, que garantiriam a subsistência de milhares de famílias. Três meses depois do desastre, algumas das regiões mais afetadas do país ainda precisam de ajuda para terem acesso a cuidados e serviços básicos. E o mundo, há muito, já deixou de falar do Haiti.

Poucos dias após a chegada do furacão, quatro equipes da organização internacional humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) já avaliavam as necessidades nas instalações médicas e comunidades afetadas em cinco departamentos do país: Grand'Anse, Sud, Nippes, Artibonite e Nord-Ouest. No dia 10, os profissionais já faziam atendimentos e distribuíam itens essenciais. Três dos cinco centros operacionais de MSF, que são as unidades responsáveis pelos projetos em campo, participaram dessa mobilização – França, Holanda e Bélgica. Dos cerca de 40 profissionais internacionais que trabalharam com os belgas no início da resposta, quatro eram brasileiros, enviados a campo por MSF-Brasil. Brasileiras, na realidade: Ananda King, promotora de saúde, Karina Teixeira, administradora, Nubia Aguiar, enfermeira, e Aline Studart, médica. Elas chegaram ao Haiti na segunda semana de outubro e, depois de uma escala em Porto Príncipe, foram enviadas para a cidade de Jérémie, no departamento de Grand’Anse.

"Eu já tinha um vínculo estabelecido com o Haiti desde 2010, quando trabalhei com MSF pela primeira vez, depois do terremoto. Quando soube do furacão e recebi a proposta, não via a hora de chegar ao país e trabalhar novamente com promoção de saúde por lá", conta Ananda. Karina, que também já teve passagem pelo Haiti trabalhando com a organização em 2015, sentiu sua memória reacender assim que chegou à capital, Porto Príncipe. "A sensação mais presente e forte era a de lembrar dos lugares que conheci, da cultura, das pessoas, da instabilidade. No dia em que cheguei, 13 de outubro, choveu muito e me impressionei com o impacto da água na capital. Pensei logo que nas comunidades mais remotas, onde o furacão tinha tido maior impacto, a situação estaria ainda pior. Ao chegar a Jérémie e ver as árvores cortadas e caídas e as muitas casas e estruturas destruídas, me bateu uma tristeza imensa", conta a administradora.

Normalmente, em situações onde predomina a devastação causada por catástrofes naturais como um furacão, o acesso às pessoas nas áreas mais isoladas e afastadas dos centros urbanos fica comprometido, e MSF investe na condução de clínicas móveis para atender essas populações. Aline e Nubia, as duas profissionais da área médica, estiveram envolvidas com essas atividades. "Minha primeira impressão superou o pior cenário que eu tinha imaginado. Percebi que as pessoas estavam passando fome e que seria difícil oferecer tratamento médico àqueles que tinham carência do básico", afirma Aline, que relata que casos de desnutrição começaram a surgir entre as crianças. "Para mim, o mais desafiador naquele cenário foi tentar fazer transferências de pacientes mais graves para serem tratados em um hospital, uma vez que o centro de saúde do governo mais próximo dali carecia de recursos humanos, materiais, medicamentos, etc. Isso preocupa demais a gente no cuidado com o paciente", conta Nubia. Para Ananda, o desafio seria recrutar e formar educadores em saúde humanitária em tempo recorde, para que fosse possível aprofundar o conhecimento acerca das condições de saúde da população de Jérémie e arredores, bem como sensibilizar sobre os riscos de doenças vinculadas às condições de higiene pós-furacão.

Nas primeiras semanas, as necessidades mais urgentes estiveram relacionadas com a disponibilidade de água própria para o consumo, comida e abrigo. A vigilância acerca da cólera foi bastante intensificada, dado o histórico do país depois do terremoto de 2010. De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), na semana de 12 a 18 de outubro, houve 167 casos suspeitos notificados no departamento de Grand' Anse, 464 no departamento Sul, 73 em Artibonite (ao norte da capital, Porto Príncipe) e 1 em Nippes. Até o final de outubro, MSF havia tratado 190 pacientes com casos suspeitos de cólera em seu Centro de Tratamento de Cólera (CTC) com 73 leitos na cidade de Port-à-Piment, no departamento Sud.

Entre os ferimentos, predominavam as fraturas e feridas profundas, além daquelas emocionais, que afetaram a saúde mental das pessoas. "Mas a capacidade de sobrevivência, e até a capacidade de recuperação de alguns pacientes, me surpreendeu positivamente", diz a médica Aline. Ananda ficou sensibilizada, também, com a motivação da equipe, que contribuía com boas sugestões e foi capaz de construir um verdadeiro espírito de grupo. Havia, segundo ela, uma necessidade de atenção: "Reunir gente, falar em grupo, mesmo que perguntando sobre o estado de saúde de alguém, deixava ali um pouco de carinho. Muita gente ainda estava na inércia da catástrofe, mas muitos também já tinham reunido forças para seguir", explica a promotora de saúde.

© Andrew McConnell/Panos Pictures

Com 10,4 milhões de habitantes, o Haiti é um dos países mais pobres do mundo e apresenta um índice de desenvolvimento humano (IDH) baixíssimo — 0,483. O Produto Interno Bruto (PIB) da nação caribenha é estimado em cerca de 9 bilhões de dólares, valor que é aproximadamente 250 vezes menor que o PIB brasileiro e 1,8 mil vezes menor que o norte-americano.*

*PNUD, dezembro de 2016

Na área administrativa do projeto em Jérémie, Karina vivenciava a rotina de recrutamentos inerente à abertura de um projeto. Era sua a responsabilidade de contratar mão de obra local e pagar seus salários, além de acompanhar a contabilidade e fazer prestações de contas. A resiliência das pessoas também foi pontuada por ela: "Confesso que já esperava a destruição que vi, mas fiquei surpresa com a quantidade de pessoas que nos procuravam diariamente buscando alguma ocupação, pedindo ajuda", conta.

O contato com algumas das histórias desses milhões de pessoas vivendo intensamente uma catástrofe marca. Aline lembra de um paciente seu, que precisou ser encaminhado de helicóptero para Porto Príncipe: "Atendi um menino de oito anos que tinha uma fratura completa na perna esquerda havia 15 dias – desde o furacão. A família tinha improvisado uma imobilização, mas ele não tinha recebido qualquer cuidado, nem analgésicos. Foi difícil imaginar a dor que sofrida até então, e foi um alívio saber que, depois de tudo, ele se recuperou bem", relembra. Uma enfermeira haitiana que estava trabalhando durante e após o furacão foi quem deixou marcas em Nubia: "Ela estava em um centro de saúde numa região bem distante quando tudo aconteceu. Então, disse que o telhado foi subitamente arrancado e os pacientes começaram a gritar. Ela confessou que mesmo ela e o outro enfermeiro se desesperaram, e que a sensação de impotência foi muito grande. Depois de o centro ter sido fechado sem possibilidade de atendimento, ela foi procurar emprego em Jérémie, onde encontrou a casa de sua família parcialmente destruída. Empregada, ela estava feliz com a possibilidade de recomeçar quando nos falamos".

“A vida ali parece mesmo ser vista como menos válida do que em outros lugares. É como se o haitiano, acostumado às catástrofes, lidasse com o sofrimento de forma mais natural e ordinária. Estando ali, você sente tanto a beleza quanto a crueldade dessa realidade.”

Ananda King, promotora de saúde.

Três meses depois

Aline, Karina e Ananda deixaram o país depois de um mês. Nubia ficou um mês mais, tendo regressado em meados de dezembro. Todas elas, no entanto, compartilham de um sentimento semelhante: style="deixaram o Haiti f"elizes por terem contribuído para melhorar a vida daquelas pessoas, que já começavam a reconstruir, mais uma vez, sua existência. “A natureza reagiu e a vegetação começava a ficar verde de novo, sobrepondo-se, pouco a pouco, ao cinza pós-furacão”, conta Nubia. MSF se concentra, no momento do fechamento desta edição*, na distribuição de materiais de construção, para ajudar as famílias das áreas montanhosas do departamento de Sud a se reerguerem. Kits de higiene e utensílios para armazenamento de água e tabletes de purificação de água também estão sendo entregues por helicóptero, visto que essa é a única forma de chegar a essas regiões, e a organização prevê manter clínicas móveis até, pelo menos, o início de fevereiro. As atividades, portanto, foram reduzidas, bem como as equipes em campo. Apenas a seção belga de MSF continua na ativa em resposta ao furacão, com 39 profissionais internacionais e 250 nacionais. "Estamos repassando boa parte de nossas atividades, mas a proposta é mantermos presença regular no centro comunitário de Port-à-Piment para reforçar a oferta de serviços de saúde", afirma Lily Caldwell, coordenadora da equipe de emergência. A presença de MSF no país, no entanto, continua robusta em Porto Príncipe, com a administração de seis hospitais na região metropolitana da capital.

Da esquerda para a direita: Karina, Aline, Nubia e Ananda no Haiti.


© Arquivo pessoal

Resposta de MSF ao furacão Matthew

(até 20/01/2017)

• 832 pacientes feridos tratados

• 6.341 pacientes atendidos

• 458 pacientes com cólera tratados

• 10.092.500 litros de água distribuídos

• 13.800 pessoas vacinadas contra a cólera

© Andrew McConnell/Panos Pictures

País foi mais uma vez vítima de uma catástrofe natural e a resiliência da população, que volta a se levantar, impressiona

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