Entrevista

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© Juan Carlos Tomasi

Entrevista

Guerra síria reduziu espaço da ação humanitária

 

Para coordenadora da Unidade de Emergência da organização para Aleppo, é frustrante não ter a capacidade de atender às crescentes demandas da população em sofrimento

Às vésperas de completar seis anos em março deste ano, a guerra na Síria ainda imprime imenso sofrimento à população que, sem alternativa, permanece no país e aos milhões de refugiados que a crise continua produzindo pelo mundo. Além disso, a complexidade do contexto desafia constantemente equipes de emergência de Médicos Sem Fronteiras que, mesmo diante de crescentes restrições, buscam adaptar sua atuação para levar ajuda humanitária às pessoas. Teresa Sancristóval, coordenadora da Unidade de Emergência de MSF para Aleppo, afirma que, em seus mais de 25 anos trabalhando com guerras, foi a primeira vez que teve de concentrar tantos esforços em proteger hospitais de bombardeios.

Desde o início da guerra, MSF enfrentou desafios para oferecer ajuda humanitária à população síria. Você poderia comentar como eles foram mudando ao longo desses quase seis anos?

 

Para começar, nunca obtivemos permissão do governo sírio para atuar por todo o país, e esse é um desafio que se mantém até hoje, e representa uma enorme dificuldade para nós, uma vez que não temos uma visão ampla das necessidades das pessoas. No segundo ano da guerra, passamos a ser bombardeados. Naquele momento, atores armados que controlavam a região onde estávamos queriam que nos concentrássemos em atender feridos de guerra, mas pressionamos para investir em cuidados maternos e pediatria, porque sabemos, por experiência, que a guerra demanda esses serviços. Depois, passamos a observar as consequências do deslocamento forçado, as necessidades não médicas das pessoas e o esgotamento dos estoques de medicamentos no país. E então, o número de atores armados começou a crescer exponencialmente – hoje, são mais de 300 grupos diferentes no caminho entre Kilis, na Turquia, e Aleppo, na Síria. Como manter o espaço humanitário e suas equipes em campo? Para nós, a interface com toda essa gente funcionou até não funcionar mais, quando tivemos nossos colegas sequestrados no início de 2014. Desde então, não contamos mais com a presença de profissionais internacionais no país.

 

Foi então que MSF fortaleceu o vínculo com as redes de médicos sírios? Como funciona essa relação?

 

Já mantínhamos relações profissionais com esses médicos mesmo antes de precisarmos retirar nossos profissionais internacionais de campo. Optamos por fortalecer a comunicação com esses médicos, que queriam fazer algo pela população. Pedimos para que eles fossem nossos principais interlocutores em campo, e passamos a manter contato semanalmente por Skype, para discutir temas médicos. Em termos de comunicação, se não tivermos ferramentas para checar o que nos é dito, não repercutimos.

Atualmente, quais são os desafios cruciais para MSF em campo?

 

Mais e mais limitações para trabalhar para as pessoas: não podemos atuar em áreas controladas pelo governo e nem pelo Estado Islâmico, este último por nossa própria determinação. Não estávamos acostumados a sermos alvo; nossas instalações estavam em risco não porque estávamos próximo da linha de frente, mas porque eram hospitais. Isso faz você pensar muito, e é uma realidade. É devastador para nós conhecer o nível de violência a que a população está exposta e, em diversos casos, como o cerco imposto a Aleppo, não poder fazer nada além de esperar e oferecer apoio psicológico.

 

E como se planejar para o futuro?

 

Não temos como prever o andamento dessa guerra. As negociações com o governo, infelizmente, não avançaram, e ainda somos vistos como inimigos. Investimos em ter um bom plano de emergência, e seguiremos tentando ampliar nossa atuação.

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