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De volta a Porto Príncipe, no Haiti

22/07/2014

Quando pensamos em Porto Príncipe, normalmente nos vêm à mente o terremoto de 2010. Naquela época, fui escalado para um projeto de emergência, para trabalhar com pacientes ortopédicos, amputados e com problemas neurológicos provocados pelos soterramentos, pois grande parte da cidade foi ao chão. Entre os sobreviventes, são comuns sequelas que perdurarão pelo resto de suas vidas.


No ano passado, estive por seis meses no Haiti, entre temporadas que passei em países árabes (Iêmen e Síria). Algumas semanas atrás, regressei ao país para, mais uma vez,  atender especificamente pacientes queimados.
A distinção entre as regiões árabes nas quais estive e o Haiti é evidente (cultural, social e política), mas elas possuem um ponto em comum: somente MSF presta assistência aos pacientes queimados.
Em nosso projeto, atuamos com cirurgia de ponta com queimados, com leitos de UTI, pediatria e área de isolamento de infecção somente para esses tipos de pacientes.

O diesel em combustão é a principal causa da maioria dos acidentes. As queimaduras profundas em bebês com menos de um ano de idade são recorrentes. Muitos acidentes são domésticos, devido ao derramamento de óleo quente nos braços, nas pernas, na face e nos órgãos genitais.

O trabalho de fisioterapia com queimados vai além do suporte de reabilitação física e envolve toda a paramedicina relacionada com os cuidados vitais do paciente: do sistema respiratório na UTI ao sistema locomotor. Atuamos intensamente desde a fabricação manual de órteses moldáveis e vestimentas compressivas, tanto na fase hospitalar quanto no pós-hospitalar em ambulatório. É em nosso ambulatório que temos o maior orgulho e o privilégio de presenciar a evolução daquele paciente que deu entrada com queimaduras de terceiro grau (último estágio de profundidade de uma queimadura) na UTI até regressarem para suas vidas cotidianas – como crianças voltando para escolas e chefes de família, a trabalhar. Isso realmente é algo inenarrável.

O trabalho no setor de queimados é altamente dependente e interligado com toda a equipe multidisciplinar. Ao voltar para o Haiti e rever os pacientes em evolução menos de um ano depois, observo que tivemos muito progresso com a nossa assistência aos pacientes queimados.

Não há faculdade de formação de fisioterapeutas no Haiti. Existem menos de 30 fisioterapeutas haitianos, os quais completaram seus estudos na República Dominicana, em Cuba e mesmo no Brasil, para a surpresa de muitos. Por isso, capacitamos esses profissionais com a nossa experiência técnica, para que, no futuro, esse conhecimento possa ser repassado a outras gerações. Creio que uma semente boa está sendo plantada. Estou certo de que nossos frutos não serão de curto prazo. Iniciamos essa especialidade no Haiti com muito sacrifício, mas as recompensas já são muitas, com diversas pessoas sendo salvas e reabilitadas para uma vida ativa. Vejo muitos pacientes que, antes acamados, agora estão trabalhando, estudando e dando mais valor à vida.

Regressei ao Haiti antes de a Copa do Mundo começar. Os haitianos são fanáticos pelo Brasil, sobretudo por brasileiros. Ver todo o país repleto de bandeiras brasileiras e vestido de verde e amarelo me deu a sensação de estar em casa. Durante um dos jogos do Brasil, estava dentro da sala de isolamento com um bebê com queimaduras severas pelo corpo. Ao terminar a partida com vitória do Brasil, ao sair da sala de isolamento, os pacientes vieram até mim cantando no dialeto local e vibraram intensamente. Muitos me abraçaram, mesmo aqueles mais acamados, seja na cadeira de rodas ou no leito. Todos estavam felizes porque eu estava ali entre eles, e eu mais ainda.

As derrotas nos jogos do Brasil deixaram muitos perplexos, com um ar de profunda tristeza. Entretanto, nada se compara à dor dos pacientes de um setor de queimados, onde o que está em jogo não é somente as deformações físicas que se refletem em problemas psíquicos quando voltam à sociedade, mas a vida.