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Ucrânia: “Seu universo inteiro desmorona”

13/01/2017
Psicóloga de MSF fala sobre trabalho de saúde mental com as vítimas do conflito no país; estima-se que mais de 1,7 milhão de pessoas já tenham fugido de casa em decorrência da violência
Ucrânia: “Seu universo inteiro desmorona”

Foto: Maurice Ressel

Apesar do cessar-fogo da volta às aulas – acordo assinado em setembro de 2016 que garante um ambiente seguro para as crianças que voltaram à escola após o verão –, bombardeios continuam acontecendo em muitos vilarejos de regiões próximas à linha de frente de batalha do leste da Ucrânia. Depois de quase três anos de conflito, a população civil segue enfrentando a violência contínua, que já forçou mais de 1,7 milhão¹ de pessoas a saírem de suas casas.

A psicóloga Elena Pylaeva, da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), explica os efeitos desse longo conflito na saúde mental da população.

Como o conflito está afetando a vida das pessoas?
O conflito está destruindo comunidades e famílias inteiras. Isso é bem visível nas regiões que visitamos todos os dias: a maioria dos nossos pacientes são mulheres idosas, muitas vezes viúvas, cujos filhos e netos fugiram para encontrar um local mais seguro para viver ou buscar algum trabalho. Há pessoas que foram abandonadas em seus vilarejos, próximas à linha de contato, onde vivem com medo de bombardeios ou de serem privadas de serviços básicos, entre eles os cuidados de saúde. Também há pessoas que fugiram para esses lugares, tendo de se adaptar a um novo ambiente e começar tudo do zero.  

Em muitos casos, as pessoas que decidiram ficar perderam seus empregos. Elas trabalhavam em locais como escolas, supermercados ou jardins de infância, que tiveram de fechar em decorrência do conflito. Como uma escola pode funcionar com bombas caindo ao seu redor? Por isso, há pessoas com idades entre 40 e 50 anos que foram obrigadas a se aposentar. A ética de trabalho no leste da Ucrânia é muito forte, então, essa inatividade repentina é perturbadora para muitas pessoas.

Há algum impacto em particular para as mulheres?
Na sociedade ucraniana, as mulheres trabalhar muito, ao mesmo tempo em que desempenham um papel central na família, cuidando dos filhos, tomando conta da casa e reunindo familiares. Assim, não sobre muito tempo para elas cuidarem de si mesmas. A família tem um papel essencial, sendo um dos primeiros ambientes em que se pode encontrar apoio.

Porém, quando seus filhos fugiram e você repentinamente fica desempregada, seu universo inteiro desmorona. Além disso, em alguns casos, o conflito provocou um aumento no consumo de álcool, especialmente entre os homens. A pressão sobre as mulheres, portanto, fica ainda maior e muitas vezes elas precisam ocupar o lugar dos maridos e sustentar a família.

Uma parte importante do nosso trabalho de saúde mental é mostrar meios para que as pessoas possam começar a endereçar suas próprias necessidades. Isso é especialmente importante quando estamos em uma situação tão instável e insegura: enquanto não é possível mudar a realidade diária do conflito, há algumas mudanças que as mulheres podem fazer em sua saúde física e mental.

Elena Pylaeva com a paciente ucraniana Tatiana Ivanovna (Foto: Maurice Ressel / MSF)Quais os principais sintomas observados entre os pacientes de saúde mental?
As principais questões que recebemos são relativas ao estresse, tanto agudo quanto crônico. Aproximadamente metade dos pacientes sofrem com sintomas de ansiedade. Obviamente, isso está diretamente relacionado com o conflito: as pessoas perderam parentes e amigos por causa da guerra, ou tiveram que fugir porque suas casas foram destruídas. Elas vivem com o medo de bombardeios e ataques, e isso afeta sua saúde física e mental.

Como vocês apoiam pessoas deslocadas e as que vivem próximo da linha de contato?
Por meio de nossas clínicas móveis, oferecemos consultas individuais de saúde mental. Também fazemos apresentações para promover a conscientização sobre a saúde mental, informando as pessoas sobre sintomas de estresse e ansiedade, e sobre como lidar com eles na vida diária.

Além disso, começamos sessões em grupo para a população idosa de Mariupol. Esses grupos incluem pessoas que fugiram para Mariupol e pessoas que são da cidade. Ter os dois grupos – pessoas deslocadas e comunidades anfitriãs – facilita a integração a um novo ambiente e cria espaço para o compartilhamento de experiências e sentimentos ligados ao conflito. Nosso objetivo é oferecer aos participantes mecanismos para lidar com as emoções que terão efeitos positivos em sua saúde mental e em seu bem-estar psicológico.

Vir às clínicas móveis também é uma forma de incentivar trocas e romper com o isolamento?
De fato, vir à clínica é o primeiro passo dos pacientes para acabar com o isolamento. Muitas pessoas idosas que sofrem de doenças crônicas vêm à clínica para que nossos enfermeiros e médicos examinem sua condição de saúde e ofereçam tratamento. Enquanto esperam por suas consultas, esses pacientes conversam entre si.

O que parece apenas ser um momento rotineiro é, na verdade, uma oportunidade real para ouvir e apoiar os outros, e também para compartilhar sentimentos sobre experiências semelhantes. Isso é uma forma de as pessoas entenderem que não estão sozinhas e que não são as únicas que experimentam os sentimentos desesperadores decorrentes do conflito.

Que conselho você daria para que as pessoas cuidem de si mesmas?
A prioridade deve ser tomar um tempo para avaliar a sua saúde e seu bem-estar, e tentar ao máximo ter uma vida saudável. Também é bom manter algumas atividades ‘normais’, como cozinhar ou fazer jardinagem.

Temos visto um aumento da violência nas últimas semanas, bem como violações do cessar-fogo durante o dia. Como isso impacta seu trabalho?
Nos lugares em que houve um aumento no número de bombardeios nas últimas semanas, estamos recebendo mais pessoas buscando apoio. Casas continuam sendo destruídas; as pessoas precisam se esconder em porões e muitas famílias continuam deixando tudo que têm para ir para lugares mais seguros. As pessoas estão assustadas e exaustas.

Qual o impacto sobre a população após quase três anos de violência?
A vida nos vilarejos mais remotos é difícil. Então, quando o conflito começou, muitas pessoas já levavam uma vida desafiadora e sabiam como lidar com isso. Porém, lidar com um ambiente tão volátil por tanto tempo não é a mesma coisa.

Nas últimas semanas, recebi famílias que simplesmente não podem mais lidar com a situação. Há pessoas que dormiram em seus porões por mais de dois anos e que, com a continuidade dos bombardeios, precisam de apoio para enfrentar essa nova realidade.

As pessoas estão cansadas do conflito. Muitas vezes elas me perguntam: “quando isso vai acabar? ”. A energia que elas têm para enfrentar a situação vem de sua esperança. A esperança pela volta de uma vida pacífica. Porém, depois de tanto tempo lidando com incertezas e insegurança, parece que estamos falando das últimas gotas de energia que restam.
 

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