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Tanzânia: aumento de assistência para refugiados do Burundi é urgente

16/11/2016
Com cerca de 10 mil burundineses chegando ao país todo mês, a Tanzânia enfrenta uma das maiores crises de refugiados da África
Tanzânia: aumento de assistência para refugiados do Burundi é urgente

Foto: Louise Annaud/MSF

Uma situação crítica está se desdobrando para as centenas de milhares de refugiados na Tanzânia, com os campos chegando, agora, à sua capacidade máxima. Com milhares de pessoas fugindo da crise no Burundi, o número de chegadas de refugiados aumentou em quase cinco vezes nos últimos quatro meses. Cerca de 250 mil refugiados burundineses e congoleses estão amontoados em três acampamentos sobrecarregados enquanto discussões acerca da inauguração de um quarto espaço para abrigar os que cruzam a fronteira continuam sendo adiadas.

Mães e filhos esperam por atendimento no campo de Nduta, onde MSF é a única organização a oferecer cuidados de saúde (Foto: Louise Annaud / MSF)“Com os números totais de refugiados nos três acampamentos chegando a mais de 280 mil até o fim de 2016, esta já está se tornando uma das maiores crises de refugiados da África”, diz David Nash, coordenador de projeto da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Porém, apesar dos alertas por parte de MSF em maio deste ano, pouco foi feito para intensificar a assistência. O campo de Nduta, para onde os refugiados recém-chegados estão sendo enviados, já está cheio. Mais de 10 mil refugiados do Burundi estão chegando à Tanzânia a cada mês, e cerca de 850 da República Democrática do Congo chegaram ao país no mês de outubro.

“A atual resposta humanitária – especialmente no que diz respeito a abrigo, água e higiene – não vai conseguir lidar com os grandes números de pessoas que estão chegando”, diz Nash. “A instabilidade no Burundi não demonstra sinais de arrefecimento, então, é crucial que a assistência internacional ao trabalho humanitário na Tanzânia seja rapidamente intensificada”. 

Durante os últimos meses, a distribuição de alimentos foi ameaçada por cortes devido à falta de financiamento. Em outubro, o Programa Alimentar Mundial anunciou oficialmente um corte nas porções de comida a 60% da ingestão nutricional diária recomendada, medida que só foi evitada devido a uma doação de última hora. Com o número de refugiados aumentando, o risco de cortes em um futuro próximo é uma preocupação premente.

Riscos de saúde: malária

Na região oeste da Tanzânia, onde a malária é endêmica, os refugiados burundineses estão extremamente vulneráveis a contraírem a doença transmitida pelo mosquito. Novos chegados a Nduta são temporariamente alojados em abrigos comunitários e superlotados, normalmente com mais de 200 pessoas, onde o risco de transmissão é ainda maior. Se atualmente essas pessoas estão sendo transferidas para tendas familiares menores em poucos dias, não há garantias de que haverá abrigo suficiente para os grandes números de refugiados que continuam cruzando a fronteira.

“Com a aproximação da temporada de chuvas, esperamos outro pico da doença entre os refugiados”, diz Nash. “Como vimos no ano passado em Nyarugusu, superlotação e condições de vida insalubres, em meio as quais a água parada cria um ambiente propício para a reprodução do mosquito, somente potencializam o problema. Enfraquecidas pela jornada, mulheres grávidas e crianças são particularmente vulneráveis.”

Entre janeiro e agosto de 2016, equipes de MSF em Nyarugusu e Nduta trataram 72.644 casos de malária, dos quais um grande número correspondeu a casos com complicações. Antecipando a temporada de picos da doença, as equipes se preparam novamente para outro grande fluxo de pacientes.

MSF, mais uma vez, faz um apelo por um avanço nas medidas de ajuda internacional. “O governo tanzaniano – que manteve as fronteiras abertas para responder a essa crise – não deveria assumir essa responsabilidade sozinho. Um aumento imediato da assistência é necessário.”

O primeiro influxo de refugiados burundeses chegando a Tanzânia começou em maio de 2015. Eles se estabeleceram no campo de Nyarugusu, que já servia de abrigo para cerca de 60 mil refugiados congoleses. Nyarugusu rapidamente ficou superlotado, e outros dois acampamentos foram abertos: Nduta, em outubro de 2015, e Mtendeli, em janeiro de 2016. Um quarto local para abrigar os refugiados que continuam chegando ainda não foi identificado.

MSF trabalha na Tanzânia desde maio de 2015. Atualmente, as equipes atuam nos campos de Nyarugusu e Nduta. Em Nyarugusu, MSF mantém uma sala de emergência com 60 leitos, três clínicas de malária e oferece consultas de saúde mental. MSF também distribui 180 mil litros de água por dia. Em Nduta, MSF é a principal provedora de cuidados médicos, mantendo um hospital de 110 leitos e quatro postos de saúde e oferecendo serviços de apoio psicossocial.

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