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Sudão do Sul: “Espero que algum dia tenhamos paz”

20/04/2017
Depoimento de Nyathol, moradora de Payak de 27 anos, mostra a realidade enfrentada pelas famílias que fogem da violência do país
Sudão do Sul: “Espero que algum dia tenhamos paz”

Foto: Siegfried Modola

Meu nome é Nyathol*. Tenho 27 anos e nasci em Payak, onde vivi por toda a minha vida. Eu, meu marido e nossos três filhos vivíamos em nosso tukul (cabana). Plantávamos milho e massabala (cereal da região) em nossa terra e tínhamos gado, cabras e galinhas. Agora, vivemos em um pequeno abrigo feito de galhos e plástico, deslocados na ilha de Bahr.

Em outubro e novembro de 2016, fomos forçados três vezes a fugir de nosso vilarejo para nos escondermos na floresta. Aprendemos a ouvir de longe o som de carros e tanques, e pegávamos tudo o que podíamos antes de fugir. Homens armados podiam atirar contra nós e saquear nossa casa. Eu corria carregando meus filhos gêmeos nos braços enquanto minha filha de quatro anos corria ao meu lado. Às vezes, víamos pessoas caindo no chão enquanto fugiam após serem baleadas, ou pessoas que deixavam seus pertences para trás porque não conseguiam correr rápido o suficiente. Nós nos escondíamos na floresta até anoitecer, e voltávamos para nossas casas quando os soldados já haviam saído. Cada vez que isso acontecia, voltávamos para casa e encontrávamos menos do que antes. Nossas galinhas, cabras e gado não estavam mais ali; nossas casas e plantações haviam sido saqueadas e queimadas.

Durante o último ataque em Payak, a população decidiu que não era seguro retornar, e precisamos sair da floresta e achar outro lugar. Eu estava sozinha, já que meu marido estava fora da cidade. Eu, meus três filhos e a população de Payak iniciamos uma longa jornada da floresta até a ilha de Bahr. Tínhamos a esperança de que a ilha fosse nos oferecer segurança e avisos prévios de ataques. Foi muito difícil atravessar pântanos com três crianças pequenas e uma pequena quantidade de alimento que eu havia conseguido antes de fugir. Precisei fazer um pequeno bote de plástico a partir de lonas para que os gêmeos pudessem atravessar o pântano, já que a água era muito profunda para eu atravessar carregando-os. Foi uma jornada longa de 17 horas. Bebemos água do pântano e comemos o pouco alimento que havíamos levado.

Não conhecia ninguém na ilha de Bhar. Eu não tinha familiares ou mesmo uma casa para dormir. Nas primeiras noites, dormíamos a céu aberto sem qualquer abrigo, até que usei alguns galhos, grama e folhas de palmeira para nos cobrirmos. Na ilha, havia pessoas de vilarejos de todas as partes fugindo e se escondendo de ataques. Fazia muito frio em comparação a Payak, e nós não tínhamos roupas adequadas para nos aquecermos. Eu temia que os homens armados tivessem nos seguido até ali. Alguns dias depois, eles chegaram. Sabíamos que eles estavam chegando porque os ouvíamos atirando em pessoas no pântano enquanto atravessavam para chegar à ilha. Todos se dispersaram, e então fomos até o pântano e andamos até outra ilha chamada Dhorkeen, a poucos quilômetros dali. Esperamos em Dhorkeen até que os homens armados tivessem deixado Bahr. Quando retornamos, nossos últimos pertences haviam sido levados. Agora, não temos nada. Para sobreviver, comemos lírios aquáticos e melões, e dependemos de distribuições de alimentos.  

Espero que algum dia tenhamos paz, e que eu possa retornar a Payak com minha família.

Nyathol levou seus filhos gêmeos a uma clínica móvel de MSF quando eles estavam gravemente desnutridos.

*Nome alterado

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