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Sudão do Sul: desnutrição e cólera ameaçam população deslocada

02/06/2017
Milhares de pessoas estão expostas às doenças após fugirem da violência nas regiões de Yuai e Waat
Sudão do Sul: desnutrição e cólera ameaçam população deslocada

Foto: Amandine Colin

Juba, 2 de junho de 2017 – A desnutrição e os casos suspeitos de cólera estão se intensificando entre as pessoas que encontraram abrigo na floresta próxima a Pieri, no Sudão do Sul. A situação atual coloca em risco a saúde de milhares de indivíduos, segundo a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Mais de 27 mil pessoas fugiram de seus lares nas regiões de Yuai e Waat desde meados de fevereiro, após confrontos entre o Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA, na sigla em inglês) e grupos de oposição. Os que fugiram para Pieri relataram às equipes de MSF que civis estavam sendo baleados, estuprados e mortos e que suas casas foram totalmente incendiadas. Agora, com uma grande falta de alimento, água e abrigo, muitos dos refugiados estão vivendo sob árvores e comendo folhas para sobreviver.

Equipes de MSF estão oferecendo cuidados básicos de saúde e tratamento para cólera e desnutrição. Porém, a menos que as condições de vida no local sejam melhoradas e que as pessoas recebam assistência humanitária regularmente, a situação possivelmente vai se deteriorar com o tempo, alerta MSF.

“Eu fugi correndo – não tive tempo de levar nada”, diz William, de 41 anos, pai de cinco filhos que fugiu de Yuai no dia 15 de fevereiro. “Eles estavam disparando com suas armas na cidade. Eles mataram as mulheres, as meninas, todos na cidade, e também estupraram as mulheres. Eles queimaram alguns dos tukuls (cabanas de barro), levaram os rebanhos e destruíram até os poços”.

William e sua família fugiram da cidade de Yuai, mas, temendo que Pieri também viesse a ser atingida por ataques, eles estão vivendo sob uma árvore em um vilarejo a duas horas de caminhada de Pieri, sobrevivendo de folhas e uma pequena quantidade de alimento distribuída por organizações de ajuda. Na semana passada, seu filho de cinco anos faleceu – provavelmente de cólera.

Os primeiros casos suspeitos de cólera foram relatados no dia 9 de maio depois de um aumento geral no número de pacientes com diarreia aquosa. MSF abriu uma unidade de tratamento em Pieri, onde as equipes trataram mais de 30 pacientes até agora e instalaram  sete postos de reidratação e alguns postos de água clorada.  
Profissionais sul sudaneses de MSF do hospital de Yuai, que fugiram com a população da cidade, agora mantêm três clínicas de cuidados médicos primários nos arredores de Pieri.

Em meados de maio, as equipes relataram um aumento nos índices de desnutrição entre crianças com menos de 5 anos, com 32% delas sofrendo de desnutrição aguda geral e 12% com desnutrição aguda grave, que é fatal. MSF distribuiu porções de alimento para as crianças desnutridas, mas é urgente que mais alimento seja oferecido, tanto à população como aos deslocados da região de Pieri.

“Conseguimos um pouco de alimento há duas semanas”, diz Elisabeth, 45 anos, de Yuai, “mas isso não é suficiente. Além disso, estamos dividindo tudo com pessoas que não estão registradas na distribuição de alimento. Quando não há comida, comemos as folhas das árvores”.

A insegurança na região é um desafio para que organizações de ajuda alcancem a população, mas a atual falta de assistência torna a necessidade dessa ajuda  ainda mais urgente.

“Isso está acontecendo em uma área de assistência limitada, com uma rede precária de centros de cuidados básicos de saúde e onde a situação humanitária já era desastrosa”, diz Michael Keizer, coordenador adjunto de MSF no Sudão do Sul. “Considerando as condições de vida dessas pessoas e seu acesso limitado a água, tememos que a situação se torne ainda pior. Com a proximidade da estação de chuvas, a prestação de assistência humanitária fica cada vez mais complicada, mas as necessidades dessas pessoas só vão ficar maiores”.