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Síria: “Não tenho alternativa além de ser forte”

11/05/2017
Depoimento de Majida, de 58 anos, reflete a difícil realidade enfrentada por mães e famílias que vivem em contextos de guerra
Síria: “Não tenho alternativa além de ser forte”

Foto: Maya Abu Ata

Majida*, 58 anos de idade, cidade de Dara’a, Síria

Eu tive que deixar a Síria devido aos ataques aéreos e bombardeios pesados. Meu marido disse: “Fuja; eu vou te encontrar no mês que vem”. Meu filho queria concluir seus estudos fora da Síria. Pagamos 24 mil libras sírias pelos documentos oficiais necessários e também para viajar até a Jordânia, mas só conseguimos dois certificados de ensino médio, e nenhum de universidade. Estou vivendo na Jordânia com meu filho e minha filha já faz três anos.

Depois de anos aqui, sinto falta do vilarejo onde está minha família. Quando cheguei, ficamos morando por três meses em uma tenda, e ficar ali era difícil para nós. Posteriormente, nos mobilizamos para comprar uma caravana para ficarmos por um ano, mas uma chuva forte caiu, e a água inundou o veículo.

Quanto ao meu marido, que está na Síria, ele se casou com outra mulher e se recusa a nos mandar dinheiro. Meu filho decidiu sair do acampamento e conseguiu se registrar na Universidade de Ciência e Tecnologia da Jordânia com a ajuda de um estrangeiro. Ele aplicou para a universidade com outros 60 estudantes e começou a estudar farmácia mais uma vez, apesar de todas as dificuldades que enfrentou no processo de matrícula. Ele deve se formar este ano, depois do fim do mês do Ramadan. Eu sempre o apoio a continuar seus estudos, diferentemente do restante dos familiares.

Também encorajei minha filha a continuar seus estudos na escola e, por esse motivo, eu a matriculei no equivalente ao segundo ano do ensino médio, e também em dois cursos para estudar inglês, ambos fora do campo de Zaatari. Depois disso, meu filho decidiu deixar o acampamento após um ano e três meses aqui. Eu estava sempre encorajando minha filha a superar as dificuldades e continuar seus estudos, apesar da dor física e psicológica pelas quais ela e meu filho estavam passando. Os dois sofreram demais, e eu tive que levá-los diversas vezes ao hospital por causa das dores. Para que minha filha pudesse continuar seus estudos, meu filho começou a trabalhar por um salário baixo, e nós enfrentamos um momento difícil. Eu acompanhava minha filha para estudar para as provas até ela terminar o ensino médio, e depois a registrei em uma universidade. Agora, ela está quase se formando como assistente de farmácia.

Eu vejo que cheguei a um espaço de sentir muito respeito por meus filhos em decorrência de uma forte fé e confiança em Deus, e também com a ajuda de muitas pessoas que ficaram ao meu lado e me apoiaram em meus momentos de dificuldade. Ainda que houvesse muitas pessoas me pressionando para que eu forçasse meus filhos e se casarem, eu não cedi a esses comentários, e fiz tudo o que pude para apoiá-los enquanto eles terminavam seus estudos.

Antes, eu comprava medicamentos no campo de Zaatari até que cheguei à região de Rahabah, onde descobri que Médicos Sem Fronteiras (MSF) estava presente já há mais de um ano e meio. Desde então, comecei a ter acesso gratuito a meus medicamentos. Há algum tempo, sofro de uma condição cardíaca e de hipertensão, e, mais recentemente, descobri que tenho diabetes e triglicerídeos altos. Antes de receber a medicação grátis, eu comprava uma cartela de 30 comprimidos para os triglicerídeos pelo preço de 30 dinares jordanianos, e, quase sempre, não conseguia encontrar essa quantidade nas farmácias. Minha condição de saúde se estabilizou agora, devido ao tratamento médico regular.

Meu sofrimento era enorme, e isso teve impactos extremamente negativos para minha condição física e mental. As sessões de suporte psicossocial realmente me ajudaram, mas ainda não posso receber nenhum apoio financeiro, nem buscar oportunidades de trabalho. Eu ainda enfrento condições de vida difíceis, e não consigo pagar o aluguel dentro do prazo. Eu tenho sido paciente há muito tempo, já que não tenho alternativa além de ser forte e enfrentar esse fardo tão grande pela segurança de meus filhos, que estão em exílio e só tem a mim, visto que o pai os abandonou.

Eu demandei paciência de meus filhos, e os encorajei a ter fé de que tudo ficaria bem logo. Nossa situação foi dura demais por muito tempo, a ponto de um dia parecer um ano para nós. Também sofremos com o frio agressivo do inverno e com a escassez de dinheiro e recursos. Sequer tínhamos dinheiro para comprar um aquecedor.

Eu esperarei ansiosamente pelo dia em que meus filhos terminarão os estudos, de modo que eles possam trabalhar com dignidade, sem depender da ajuda de ninguém. Estou orgulhosa deles, mas tenho medo que meu filho não encontre uma oportunidade de trabalhar, casar e se estabelecer. Eu continuarei ao lado de meus filhos, dando-lhes todo o apoio. Agora, estamos procurando migrar para fora da Jordânia. Não queremos voltar à Síria de modo algum.

* Nome alterado para preservar a privacidade da paciente.
 

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