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Seca e insegurança levam somalis à Etiópia

30/11/2016
MSF atende refugiados e população local em clínica na cidade fronteiriça de Dollo Ado
Seca e insegurança levam somalis à Etiópia

Foto: Samuel Hauenstein Swan

A seca persistente e os conflitos incessantes fizeram com que a vida se tornasse impossível para muitos somalis em seu próprio país. Para os que se encontram próximo à fronteira com a Etiópia, a cidade de Dollo Ado oferece segurança, alimentos e serviços sanitários, fatores ausentes em seu país de origem. A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) opera uma clínica de cuidados essenciais tanto para os que estão fugindo da crise e do caos como para a comunidade local.

Bebê é atendido por profissionais de MSF em Dollo Ado, na Etiópia. (Foto: MSF)Mohamed Shiniyey Mussa continua sorrindo apesar das lágrimas que correm no rosto do seu filho pequeno enquanto uma enfermeira de MSF o vacina. Juntamente à sua esposa e seus dez filhos, faz pouco tempo que ele terminou sua jornada exaustiva desde Kormay, sua cidade na Somália, e agora ele está no centro de acolhimento de refugiados de Dollo, cidade fronteiriça da Etiópia. Dollo é o principal ponto de entrada para os refugiados somalis que fogem da seca e da guerra civil em seu país.

“Nos vimos obrigados a enfrentar essa viagem”, explica Mohamed. “Não choveu muito na nossa região nos últimos anos e em nossa fazenda o cultivo é mínimo. Não é o suficiente para toda a família. Os homens armados de Al-Shabab não fazem nada além de agravar a situação, já que, frequentemente, entram em nossas casas e roubam nossa comida e nosso dinheiro”. 

Outras famílias que também cruzaram a fronteira contam histórias semelhantes. O grupo radical Al-Shabab, que vem lutando contra o governo durante a última década, controla parcialmente as três regiões afetadas pela seca: Gedol, Bakol e Bay, no leste do país. Os confrontos cortaram o abastecimento de alimentos na região e fizeram do medo e da fome armas da guerra.

“Muitos assistiram as suas famílias serem assassinadas por colaborarem com as ‘forças do governo’, às vezes por motivos simples, como oferecer água a um dos soldados ou tentar impedir o roubo de alguma de suas colheitas”, relata Mohamed. “Os que vão em busca de alimentos nas regiões vizinhas são obrigados a voltar e esperar sob a ameaça de tiros. De acordo com os líderes locais do Al-Shabab, a chuva só virá se Deus quiser. Se a chuva não cai, todos devem assumir as consequências.”

Para os que vão até a cidade fronteiriça de Dollo, a chegada é como uma última esperança. Ali eles podem encontrar aquilo que falta na Somália: segurança, atendimento médico e alimentos. Porém, a viagem tem um preço. De carro, a viagem pode durar dois dias e custar mais de 2 mil bihr etíopes (o equivalente a cerca de 50 dólares americanos). Para os que não podem arcar com esse custo, a única alternativa é caminhar. Os mais jovens e os mais velhos são os que mais sofrem nessas duras condições, e muitos chegam ao destino final com sintomas de desnutrição.

Os cinco campos de refugiados nos arredores de Dollo Ado se transformaram em um tipo de santuário para os somalis que fogem da violência em sua terra natal. No lado etíope da fronteira, há anos não acontecem ataques armados significativos. Ainda assim, a população fica alerta, já que há relatos de ataques armados do lado queniano da fronteira que tiraram a vida de muitas pessoas. 

A importância da cidade de Dollo fica clara quando observamos que há poucos centros de saúde em um raio de 150 quilômetros no lado somali da fronteira. Além dos refugiados que chegam ao centro de acolhimento, nos últimos dez anos, cerca de 240 mil refugiados foram assentados em um dos cinco acampamentos de Dollo e puderam receber assistência.

MSF conta com dois centros de saúde nos acampamentos e oferece serviços médicos essenciais em um centro de saúde de Dollo. A organização também realiza atividades no centro de recepção de refugiados, onde avalia o estado dos recém-chegados, para que depois as autoridades etíopes decidam quem pode ficar no país e quem deve voltar à Somália.

De acordo com Chris Eweillar, diretor de operações de MSF em Dollo, “enquanto muitos dos refugiados devem ficar permanentemente no campo, certamente muitos outros viajarão de novo para o outro lado da fronteira quando a seca acabar e houver mais segurança. Muito frequentemente, as mulheres atravessam a fronteira com os filhos enquanto os maridos ficam do outro lado e se ocupam de seus lares. Quando as coisas melhorarem, eles avisarão às suas famílias que elas devem voltar”.

O centro de saúde apoiado por MSF em Dollo é de suma importância para os refugiados e a comunidade local. Alguns dos que saem do outro lado da fronteira chegam muito cansados, desmoralizados e deprimidos. Kadar Muktar Moali, responsável pelas atividades de saúde mental de MSF, explica: “Damos uma atenção especial às crianças, já que elas podem estar sofrendo de ansiedade grave não só pela experiência que passaram em suas casas, mas também pela chegada a este novo ambiente”. 

“Na realidade, MSF faz parte da comunidade local de Dollo”, afirma Chris Eweillar. “A maioria dos nossos profissionais sanitários vem da região, e não só são competentes em sua especialidade de medicina, como também falam o idioma local e entendem bem a cultura da região”.

Entretanto, muitos estão preocupados com o futuro. Com ameaças de fechamento do campo de refugiados de Dadaab, no Quênia, que acolheu somalis durante décadas, Dollo pode vir a se tornar a única alternativa para asilo. 

Também existe o medo de que as eleições deste ano na Somália levem a mais violência, visto que o Al-Shabab já declarou que pretende impedi-las a todo custo. A equação é simples: o aumento da violência e a seca incessante fazem com que mais pessoas decidam assumir riscos para abandonar essa situação de instabilidade.

As relações entre refugiados e locais são boas. Apesar de ser etíope, a população local também tem herança somali e segue as mesmas tradições que os recém-chegados. Os idosos da comunidade se esforçam muito para manter vínculos fortes. Muitos locais percebem que também se beneficiaram dos serviços gratuitos de saúde que o governo e diversas organizações não governamentais internacionais estabeleceram na região graças à população refugiada.