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RCA: principal campo de deslocados é fechado

27/01/2017
No auge da crise no país, o aeroporto internacional de Mpoko, em Bangui, chegou a abrigar 100 mil pessoas. Ali, em três anos de projeto, MSF ofereceu mais de 400 mil consultas
RCA: principal campo de deslocados é fechado

Foto: Luca Sola

A crise brutal na República Centro-Africana (RCA) vem sendo passando amplamente despercebida a nível internacional, exceto, talvez, por uma imagem icônica: um mar de pessoas deslocadas e amontoadas nos cascos de aviões enferrujados e abandonados. Esse era o aeroporto internacional de Mpoko, na capital do país, Bangui. Em seu auge, 100 mil pessoas vivem no acampamento. Os que não conseguiam se abrigar nas ruínas dos aviões abandonados se amontoavam em armazéns vazios ou construíram pequenos telhados para se cobrir com restos de qualquer coisa que encontrassem.

Depois de três anos, porém, os voos internacionais que chegam a Bangui o fazem próximo a terras vazias. Após o trabalho de escavadores, a maioria das 20 mil pessoas que ainda viviam ali retornaram para seus lugares de origem. Este mês, o campo de Mpoko foi oficialmente fechado.   

Otimismo cauteloso

Sonia, paciente de MSF de 21 anos, teve seu bebê no campo de Mpoko (Foto: Laurence Geai / MSF)O fechamento do campo de Mpoko é uma boa notícia: é sinal de alguma estabilização na RCA, um país onde nem os cidadãos mais idosos lembram de longos períodos de relativa estabilidade. Esse fechamento, porém, é significativamente simbólico. As pessoas internamente deslocadas têm poucos lugares para onde podem voltar; elas enfrentam problemas como insegurança, infraestrutura precária ou inexistente, casas destruídas e ainda repletas de balas. Além disso, cada família de seis pessoas conta com apenas 150 euros em dinheiro para recomeçar a vida do zero. Em todo país, um em cada quatro habitantes é deslocado, tanto fora como dentro das fronteiras nacionais.

O fechamento do acampamento havia sendo oficialmente uma prioridade há cerca de três anos. Por exemplo: em setembro de 2015, depois de um ano de relativa calma em Bangui, a população de Mpoko diminuiu para 6 mil pessoas, e MSF já se preparava para encerrar seu hospital e suas clínicas no local. Porém, poucos dias antes da redução programada das atividades, o conflito reacendeu. Mais uma vez, milhares de pessoas fugiram rumo à relativa segurança do aeroporto, e nosso hospital recebeu um grande influxo de pessoas: o número de consultas aumentou de 250 para 400 por dia.

Desse modo, ao mesmo tempo em que há algumas razões para um otimismo cauteloso, a história do campo de Mpoko nos mostra que, com certeza, o dia de amanhã é incerto para a República Centro-Africana.

Um alento em meio ao pavor

O conflito da RCA que impulsionou a criação do acampamento atingiu níveis pavorosos de violência, com atrocidades sendo cometidas por ambos lados. Equipes de MSF, que começaram a oferecer assistência médica em Mpoko apenas um dia após as primeiras famílias chegarem, testemunharam atos terríveis, como esquartejamentos.

As condições de vida eram difíceis para os milhares de pessoas traumatizadas que procuravam refúgio ali. Porém, como em qualquer parte do mundo, a vida e a morte estavam lado a lado. Por três anos, as famílias que viviam no local fizeram tudo o que podiam para manter um mínimo de dignidade apesar de tudo; 5.807 bebês nasceram no hospital de campanha de MSF em Mpoko.

Além disso, a existência do acampamento significou a provisão de alguns serviços que beneficiavam para além da população deslocada que vivia ali. No momento do fechamento do campo, dois terços dos pacientes do hospital de MSF em Mpoko vinham de fora do acampamento; alguns andaram por horas até chegar ao hospital porque não havia outros serviços médicos confiáveis e gratuitos na região. Agora que o hospital foi fechado, porém, essas pessoas terão de confiar nos serviços públicos precários oferecidos em Bangui. Na verdade, a RCA ainda não resolveu seus problemas mais profundos, difíceis e enraizados.  

A mínima mobilização internacional

No dia 4 de dezembro de 2013, o Conselho de Segurança da ONU, e, separadamente e algumas horas depois, a França prometeram uma intervenção para deter os níveis intoleráveis de violência durante a onda de conflitos que começou em 2012. Um dia depois, Bangui, onde alguns confrontos já aconteciam, estava mergulhada em guerra, e as primeiras pessoas começaram a fugir para Mpoko buscando proteção da ONU e das tropas francesas baseadas no aeroporto. Tropas internacionais tiveram grande importância na história recente da RCA, para o bem e para o mal: há acusações ainda não resolvidas de abuso sexual cometido por tropas francesas e da ONU no país, manchas inefáveis em sua reputação.

Fora a mobilização de recursos militares, contudo, a RCA continua no topo da lista de prioridades internacionais. Apesar das necessidades enormes e gritantes da população que vive em sofrimento, não há muito empenho em oferecer serviços básicos em um ambiente tão perigoso e tenso. Por três anos, exceto pela presença permanente de MSF, poucos serviços foram oferecidos no acampamento, e Mpoko se tornou um lugar degradante para se viver. Tanto Mpoko como a própria RCA nunca mobilizaram a assistência internacional na mesma intensidade que outros acampamentos de deslocados internos e refugiados no mundo.   

Imagem icônica da crise

Apesar de esquálido e esquecido, o campo de Mpoko foi o ponto de entrada para a cobertura da terrível crise humanitária na RCA. As pessoas viviam ao longo da pista do aeroporto internacional do país, que não tem saída para o mar. Era, quase que literalmente, a primeira coisa que se via ao chegar ao país. Viajar pela RCA é difícil até em tempos de tranquilidade, com suas preciosas e escassas estradas decentes, altamente perigosas durante a crise. Então, para os jornalistas que visitaram o país e seus leitores, Mpoko se tornou a imagem central da crise quase não anunciada da RCA, que talvez tivesse sido totalmente ignorada sem essa imagem icônica.

Esta semana, Mpoko foi fechado. O símbolo das grandes necessidades do povo centro-africano desapareceu, mas os problemas do país não. Sem isso, como mobilizar a boa vontade de doadores públicos e privados para que ajudem a metade da população do país que ainda conta exclusivamente com ajuda humanitária para sobreviver?

O projeto de Mpoko foi especial para MSF. Todas as equipes ainda se lembram do desafio extraordinário de construir um hospital de campanha de 60 leitos em poucos dias, em um pedaço de terra onde não havia nada e em meio ao pico de um conflito extremamente brutal. Nossas equipes trabalharam ali todos os dias, durante mil dias, com profissionais internacionais trabalhando com a corajosa equipe local. Todos os nossos colegas centro-africanos sofreram juntamente a seus entes queridos o pior do conflito. Alguns deles, mesmo vivendo no acampamento de pessoas internamente deslocadas, perderam tudo. Juntos, os profissionais de MSF realizaram mais de 440 mil consultas, 46 mil intervenções médicas na sala de emergência e 11 mil internações na estrutura temporária, feita de lona e placas de madeira.

A crise na RCA ainda não terminou. MSF continua sendo um de seus principais agentes de saúde, mantendo 17 projetos no país, entre eles um programa de cirurgia e uma maternidade em Bangui.