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Nigéria: os desafios de viver entre violência e deslocamentos

11/07/2017
Pacientes e profissionais de MSF no nordeste da Nigéria falam dos desafios de viver em deslocamento e em meio à violência
Nigéria: os desafios de viver entre violência e deslocamentos

Foto: Igor Barbero/MSF

Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas pelo conflito entre o Boko Haram e forças do exército da Nigéria na região nordeste do país. Algumas delas já vivem há anos em lares temporários. Outras estão se deslocando de um lugar a outro. Todas elas relatam uma história de vida cheia de sofrimento em busca de algum lampejo de esperança. Aqui estão algumas das histórias que escutamos nas cidades de Pulka e Banisheikh, ambas no estado de Borno.

“Quando fomos embora, sofremos muito. Estávamos com muito medo. Levamos dois dias para chegar até aqui andando. Passamos noites dormindo na floresta. Algumas pessoas com quem viajamos faleceram durante a jornada. Algumas de nossas crianças morreram de sede, porque não tínhamos água nenhuma”. Falmata é uma mulher de 35 anos da cidade de Shetimari, no estado nigeriano de Borno. Ela relembra, com um suspiro, do início da jornada que a trouxe de seu vilarejo até aqui. Isso aconteceu há quatro anos, em meio a um conflito entre forças do exército nigeriano e o Boko Haram, que deixou, recentemente, aproximadamente 2 milhões de pessoas deslocadas pelo país e centenas de milhares de refugiados em países vizinhos na região do Lago Chade, como Níger, Camarões e Chade.

Falmata é uma das pessoas que perdeu quase tudo, mas ela ainda tem esperança de um futuro melhor. A jornada a trouxe à cidade de Banisheikh, a cerca de uma hora e meia de carro da parte oeste da capital do estado, Maiduguri. “Nos instalamos aqui porque pensamos que seria um lugar mais seguro”. Muitas pessoas foram mortas em seu vilarejo, entre elas três familiares. Algumas mulheres foram submetidas a casamento forçados; algumas meninas despareceram. “Ainda não achamos que seja seguro voltar para lá”.

Longe das colheitas que mantinha, Falmata vem se deslocando de um acampamento para outro com seu marido e seus sete filhos. O número de pessoas deslocadas aumentou significativamente com o tempo e a maioria delas vive agora em cinco assentamentos, que contam apenas com casas feitas de lonas de plástico às vezes reforçadas por pedaços de madeira ou caules. Esses pequenos espaços, onde as pessoas cozinham, dormem e passam a maior parte de seu tempo, se tornaram terrivelmente quentes com as altas temperaturas do verão de Borno. Quando chove, as lonas de plástico vazam. Ventos fortes também podem formar buracos nas lonas. Às vezes a madeira fica infestada de cupins e isso danifica a estrutura, causando o desmoronamento das tendas. “Não há muito o que fazer aqui. Há pessoas de regiões diferentes. Quase todos nós já fomos deslocados há muito tempo. Ainda assim, a situação é melhor que antes, quando não conseguíamos sequer dormir devido à falta de segurança”.

Diferentemente de muitas estradas do estado de Borno, onde deslocamentos só podem ser realizados sob escola militar, o tráfego na via que leva de Banisheikh a Maiduguri foi reestabelecido, mas a quantidade numerosa de postos de checagem é um lembrete da volatilidade de um lugar que é recorrentemente o ponto de cruzamento de insurgentes que vêm da floresta de Sambisa, na parte sul do estado de Borno, em direção ao norte do Níger.

Nos últimos meses, após a intensificação da ofensiva, o exército da Nigéria tomou controle de algumas cidades no estado de Borno. Os confrontos entre o exército e o Boko Haram estão criando, constantemente, novas ondas de deslocamento entre as pessoas em todas as direções. Frequentemente, as pessoas não têm escolha além de fugirem de seus vilarejos nas áreas rurais – muitas vezes se separando de seus familiares – e irem para cidades maiores, onde há uma concentração de organizações humanitária. A assistência não está chegando a algumas regiões inacessíveis e pouca informação está vindo desses locais. Uma das cidades que se tornou um destino recorrente estre a população deslocada é Pulka, próximo à fronteira com Camarões. Abrigando entre 60 mil e 70 mil residentes hoje, a cidade de Pulka viu sua população crescer consideravelmente desde o início do ano, com chegadas diárias e semanais de novas pessoas, chegando a um ponto que fez com que organizações humanitárias temessem que o local não pudesse mais abrigar pessoas, especialmente devido à falta de água potável e à escassez de abrigo.

“Quando as pessoas chegam, elas têm pouquíssimos pertences. A grande maioria é de mulheres e crianças de até 15 anos de idade, assim como de pessoas idosas”, diz Sabina Mutindi, coordenadora de programa médico da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Pulka. “A nova geração de homens está desparecendo”, adiciona Mutindi. Alguns deles morreram no conflito, outros se juntaram às fileiras do Boko Haram. “Recebemos todos os casos médicos possíveis. Os pacientes têm hipoglicemia e são expostos a ambientes hostis, de modo que desenvolvem infecções no trato respiratório, úlceras e problemas de pressão alta”. Uma vez em Pulka, a luta é por sobrevivência.   
“Antes do conflito, eu tinha uma vida boa, mas agora vivo sem saber se amanhã vai haver algum ataque a bomba. Estou apenas sobrevivendo. Não posso trabalhar, não posso me locomover... tudo o que posso fazer é dormir”. Musa, um homem de 75 anos da cidade de Kirawa, fala com pesar após ter perdido a maior parte de seu estoque de alimento, seu dinheiro e seus pertences devido à violência. Há cinco meses, os militares trouxeram Musa e sua família de Kirawa para Pulka. Essa, de acordo com ele, foi “a única opção disponível”. “Mas que tipo de vida é esta?”, questiona Musa, enquanto aponta para o pedaço de plástico estendido no chão em que dorme todos os dias.

Apesar de todas as dificuldades, para outras pessoas ir até Pulka significou um grande alívio. Algumas delas saíram da cidade quando o Boko Haram tomou controle da região e foram até Camarões, país vizinho, onde ficaram nos últimos anos. Desde maio, o retorno de refugiados nigerianos de Camarões para Nigéria se intensificou e as pessoas relacionam suas partidas à deterioração das condições de vida nos acampamentos em que encontraram refúgio. Contudo, essas pessoas estão indo a outros lugares onde os serviços também são limitados. “Soubemos que seríamos trazidos de volta para a Nigéria, então decidimos vir por conta própria. Decidi vir a Pulka porque é minha cidade natal”, diz Adama, uma mulher de 25 anos que tem quatro filhos e que viveu no campo de refugiados de Minawao, em Camarões, durante os últimos dois anos.  

Contudo, o retorno de Adama à Nigéria não foi isento de problemas. Durante a jornada, ela teve de cruzar um rio e algumas pessoas que viajavam com ela morreram quando a canoa que usavam virou. “Em Minawao a vida não era fácil. Dormíamos em um espaço aberto. Nem sempre havia alimento disponível e ter o que comer todos os dias era uma sorte. A informação que recebemos foi de que as coisas em Pulka estavam melhorando”. Ao chegar, Adama descobriu que a reserva de alimento e o estoque de gado que ela deixara na casa que alugava em Pulka haviam desaparecido, assim como seus demais pertences. Por esse motivo, ela se mudou para o complexo de um centro de saúde onde MSF mantém um hospital e que hoje abriga cerca de 2 mil deslocados e pessoas que retornam à Nigéria e ainda não conseguiram uma tenda. “As pessoas precisam nos ajudar com alguma assistência”, diz Adama.

MSF trabalha em Maiduguri, no estado de Borno, desde agosto de 2014. Hoje, a organização mantém 11 instalações médicas em seis cidades de Borno – Maiduguri, Ngala, Monguno, Gwoza, Pulka e Banisheikh) e faz visitas regulares a outras cinco cidades: Bama, Banki, Dikwa, Damasak e Rann.