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Nigéria: “Não sobrou nada em Banki”

12/08/2016
Equipes de MSF encaminharam pacientes nigerianos de Banki para o hospital de Mora, em Camarões; na Nigéria, a situação é degradante e muito perigosa
Nigéria: “Não sobrou nada em Banki”

Foto: Hugues Robert/MSF

Dayo, de 31 anos, foi encaminhada para o hospital de Mora, em Camarões, no fim de julho, por equipes da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Banki, na Nigéria. Ela estava acompanhando o seu filho de 4 anos, Barine, que estava doente. O menino precisava ser admitido no hospital urgentemente, já que estava sofrendo de desnutrição aguda grave.

“Minha fome era tão grande que às vezes eu sentia que estava enlouquecendo. Quando alguém falava comigo, eu não conseguia nem saber se era um homem ou uma mulher”, contou Dayo. Ela se recusou a tomar um medicamento prescrito pela equipe médica da região de Banki depois de uma consulta. Num estômago vazio, esses comprimidos causam efeitos colaterais insuportáveis. 

(Foto: Naoufel Dridi/MSF)Nove dias depois de Barine, o filho de Dayo, ser hospitalizado, sua saúde melhorou significativamente, embora ele ainda não consiga engolir as doses de alimento terapêutico necessárias para tratar a desnutrição. Infelizmente, duas das cinco crianças que MSF encaminhou para o hospital na mesma época que Barine vieram a falecer. Apesar de terem sido admitidas no hospital, o estado delas era grave demais.

Assim como Barine e sua mãe, mais de 15 mil nigerianos deslocados estão vivendo em condições catastróficas há quase cinco meses em Banki. Desprovida de qualquer atividade, Banki agora parece uma cidade fantasma, da qual é impossível sair.

Abaixo, o relato de Dayo:

“Sou de um vilarejo que fica a 15 quilômetros de Banki. Um dia, homens armados chegaram ali e nos proibiram de trabalhar ou viajar. Eles eram violentos e nos aterrorizaram. Meu marido, meus filhos e eu fugimos para o mato, armados somente com machetes e varas. Foi quando a fome começou. Cozinhávamos o painço e os feijões secos que conseguíamos. Só podíamos cozinhar durante o dia, já que à noite o fogo poderia chamar a atenção das pessoas de quem estávamos tentando nos esconder. Então, o nosso vilarejo foi incendiado. Em meio à violência, perdi minha mãe, meu pai e minha sogra.

Chegamos a Banki sem nada, nem sequer um prato ou uma panela, e eu só tinha a roupa que estava vestindo. Não podíamos sair da cidade e não havia nada a ser feito além de esperar a entrega de suprimentos, dos quais estávamos totalmente dependentes. Por sorte, as autoridades estão distribuindo alimentos à população, mas a quantidade não é suficiente. Recebemos apenas dois quilos de arroz e milho por semana, e às vezes isso precisa durar duas semanas. Se precisamos de combustível, tiramos madeira das cabanas para queimar e muitos objetos e utensílios são encontrados nas casas abandonadas.

Em todo o tempo em que estive em Banki, não vi nenhum sabonete. Além disso, temos que ser muito cuidadosos com a água, já que a pequena quantidade que recebemos a cada dia deve ser usada para beber, lavar roupas e para a higiene pessoal.

Medo de voltar

Ainda que Banki seja o meu lar, estamos com muito medo de voltar. Ouvi dizer que em uma noite três crianças e duas mulheres foram sequestradas juntamente com tudo o que tinham para comer. Estou muito preocupada com os meus filhos que estão lá. Eu sei que meu irmão mais novo está cuidando deles, mas um dos meus filhos está doente. Toda vez que recebo uma refeição no hospital, penso nas pessoas que ainda estão lá.

Eu quero que toda a minha família se junte a mim aqui. Eu ficaria feliz em viver com eles até debaixo de uma árvore, contanto que fosse aqui. Não quero voltar para a Nigéria. Não há mais nada em Banki.”

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