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Iraque: “As pessoas vivem em tendas e dormem no chão”

11/04/2017
Condições de vida são precárias na região de Al Alam, onde MSF oferece cuidados médicos gerais e de saúde mental
Iraque: “As pessoas vivem em tendas e dormem no chão”

Foto: Karin Ekholm/MSF

O acampamento de Al Alam, próximo à cidade de Tikrit, no Iraque, serve de abrigo para cerca de 8 mil homens, mulheres e crianças que foram deslocados de suas casas para o norte do país em decorrência do conflito contínuo. As famílias chegaram a Al Alam em busca de segurança e apoio, e saíram de cidades e vilarejos assolados pelo conflito e com escassez de alimentos, combustível e medicamentos.

O acampamento tem duas áreas, cada uma delas rodeada por grades altas de metal. Em meio ao vento forte, as tendas parecem se curvar sob um céu cinzento. Crianças de roupas claras e sandálias correm e brincam entre as tendas. Uma família está parada do lado de fora dos portões, carregando nos braços seus poucos pertences. Eles acabaram de chegar e estão esperando serem registrados e alocados em uma tenda.

“As pessoas só trazem o que conseguem carregar”

Na clínica do acampamento, mantida pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), uma fila começa a se formar no início da manhã. A área de espera rapidamente fica repleta de crianças e suas mães.

“As pessoas aqui estão extremamente vulneráveis e dependem de assistência humanitária”, diz Géraldine Duc, coordenadora médica de MSF. “Elas fugiram do conflito e muitas chegaram até aqui trazendo somente o que podiam carregar. Além disso, o clima aqui é extremo – no inverno as temperaturas chegam a zero e no verão o sol é escaldante. As pessoas vivem em tendas, e dormem no chão ou em colchonetes finos”.

“Peguei um objeto do chão que explodiu em minha mão”

Khalid, de 19 anos, veio de Hawija, ao norte do país, para Al Alam com sua família em outubro. “Andamos durante uma noite inteira, sempre mantendo distância das estradas por medo de sermos pegos”, diz ele. “Durante a caminhada, peguei um objeto do chão que explodiu em minha mão”. A explosão causou ferimentos graves nos braços e na cabeça de Khalid, e ele foi submetido a muitas rodadas de cirurgia em hospitais da região. Agora ele vem à clínica de MSF para que suas feridas sejam higienizadas e protegidas.   

O distrito de Hawija esteve sob controle do grupo Estado Islâmico (EI) por mais de dois anos. Desde que as operações militares se intensificaram em agosto, dezenas de milhares de pessoas fugiram dali. Muitas famílias que fugiram descrevem a escassez de alimento e combustível na região, além de uma jornada extremamente perigosa em busca de segurança.

Mais de três milhões de iraquianos foram deslocados de seus lares desde o início de 2014 em decorrência da violência. O conflito também prejudicou o sistema de saúde do país, e aumentou as necessidades gerais de serviços médicos.

Vivendo em prédios inacabados

MSF também está oferecendo cuidados de saúde e também de saúde mental em Al Hajjaj Silo, um acampamento de trânsito, e em Samad, um bairro em Al Alam onde algumas famílias deslocadas se instalaram em prédios inacabados.

Em Al Hajjah Silo, três mulheres que chegaram recentemente e vieram a pé de Hawija estão esperando do lado de fora da clínica móvel de MSF com dois bebês. As duas crianças nasceram na mesma noite há seis meses, mas uma delas é muito menor que a outra.

“Ela tem um problema no coração”, diz a mãe. “Andamos a noite toda pelas montanhas para chegar até aqui porque não há alimento suficiente em Hawija. Não há médicos e tudo – de combustíveis a medicamentos e sabonetes – é extremamente caro por lá.”

Inúmeros eventos traumáticos

Na região de Tikrit, a maioria das pessoas deslocadas vem de Hawija, nordeste do país, ou de Shirqat e Baiji, no noroeste. Quase todas elas testemunharam ou sofreram atos de violência brutal, o que pode desencadear problemas psicológicos. Além disso, o trauma do deslocamento e a separação dos entes queridos, além do acesso limitado a medicamentos, agravam condições de saúde mental já existentes entre essas pessoas. As condições precárias de vida e a incerteza em relação ao futuro também geram estresse, e por esse motivo as atividades de saúde mental de MSF são de suma importância na região.

“Vemos muitos pacientes chegando com sintomas de estresse e trauma”, diz Ana Martins, coordenadora de atividades de saúde mental de MSF. “Eles não viveram apenas um ou dois eventos traumáticos, mas foram expostos continuamente a esse tipo de situação e à violência constante. Isso se manifesta agora por meio de sintomas como ataques de pânico, síndrome de estresse pós-traumático, problemas para dormir e dores generalizadas no corpo”.

Com a ajuda de conselheiros psicossociais, MSF oferece apoio para evitar que esses sintomas se tornem mais graves. Porém, para algumas pessoas, a gravidade surge já desde o início e é preciso cuidados psiquiátricos especializados, o que, no entanto, pode ser um desafio, de acordo com Martins.

“Alguns de nossos pacientes precisam ser transferidos para outros hospitais para cuidados médicos especializados", diz a coordenadora. “Mas há apenas um psiquiatra no hospital-geral de Salaheddin, e o medicamento psicotrópico necessário nem sempre está disponível. O encaminhamento para outros hospitais também pode ser complicado, porque os pacientes precisam de um despacho de segurança para passar por postos de checagem e conseguir chegar ao hospital”.

A população deslocada no Iraque está sem alternativas: as condições de vidas nas zonas mais seguras para as quais as famílias estão indo estão longe de serem ideais, e a volta para casa se torna difícil devido à instabilidade e à ausência de itens essenciais para a sobrevivência.

MSF mantém clínicas móveis em acampamentos e assentamentos informais na região de Tikrit desde agosto de 2016, e nelas oferecem consultas gerais de saúde, tratamento para doenças crônicas e apoio psicossocial. Em janeiro de 2017, MSF abriu uma clínica permanente com uma unidade de estabilização no campo de deslocados de Al Alam.

MSF trabalha continuamente no Iraque desde 2006. A fim de garantir sua independência, MSF não aceita doações de qualquer governo, grupo religioso ou agência internacional para seus projetos no Iraque, e conta somente com doações privadas do público geral do mundo para realizar seu trabalho. Atualmente, MSF conta mais de 1.600 profissionais no Iraque.