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Iraque: cuidando de pessoas deslocadas de Hawija

16/02/2017
Depoimento tocante de enfermeira de MSF descreve realidade de população internamente deslocada
Iraque: cuidando de pessoas deslocadas de Hawija

Foto: Baudouin Nach/MSF

Mariko Miller é uma enfermeira de emergência canadense que trabalha com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Kirkuk, no norte do Iraque, onde equipes oferecem cuidados de saúde às pessoas que foram forçadas a deixar suas casas para fugir de conflitos armados. Profissionais de MSF também apoiam o serviço de emergência de dois hospitais da região.

Muitas das pessoas deslocadas vêm de Hawija, distrito ao sudoeste de Kirkuk, que ficou sob controle de grupos armados por mais de dois anos. Desde a intensificação das operações militares para a retomada da região, em agosto do ano passado, mais de 80 mil iraquianos fugiram de Hawija, de acordo com a Agência da ONU Para Refugiados (Acnur). Muitas famílias falam sobre a falta de alimento e combustível na região, e também sobre a perigosa jornada em busca de segurança. Apesar do aumento das necessidades da população, a assistência humanitária no local ainda é amplamente insuficiente.

Mariko Miller – Foto: Acervo pessoal A enfermeira Mariko compartilha sua experiência atendendo pessoas deslocadas que chegavam a Kirkuk:
“Há olhares de uma multidão me observando, de uma forma demasiado vigilante, que eu nunca havia visto antes. Vejo um menino pequeno nos braços de sua mãe. Suas mãos agarram o ar desesperadamente, com uma fome aguda dolorosa de ver. Há um pacote de biscoitos em uma caixa, em frente a ele, e eu vejo seus olhos fixos naquilo. Ele agarra os biscoitos, e então luta com o pacote de plástico. Essa imagem fica congelada em minha mente. Ele é novo demais para sentir tanta fome; novo demais para entender as decisões que sua família precisou tomar para sobreviver; novo demais para saber o quanto essa jornada é decisiva para seu futuro. Perto dele, algumas pessoas estão espalhadas em grupos pelo chão, amontoadas ao redor de caixas de alimento, comendo desesperadamente após seis dias de fome e dois anos sofrendo sob controle de grupos armados.

Esse menino está entre as 647 pessoas que chegaram de Hawija de forma segura, um lugar já sufocado pelo sofrimento. Todos os recém-chegados escolheram deixar o local e começar uma jornada a qual nem todos sobrevivem. Quem é visto tentando fugir pode ser executado, e os que conseguem sair da cidade têm de percorrer cerca de 7 quilômetros durante a noite através de um deserto repleto de minas e artefatos explosivos improvisados, onde atiradores, muitas vezes, atingem seus alvos. Uma noite, muitas famílias foram executadas após serem vistas tentando fugir. Foi um risco calculado o que elas correram: para sobreviver, elas podem morrer. Mas os que se encontram aqui, em minha frente, conseguiram. Eles estão vivos.

Muitas mulheres que vieram até mim choravam quando falavam das famílias que deixaram para trás – em uma região continuamente atingida por bombardeios aéreos e onde uma possível ofensiva é esperada. Há alguns dias, uma jovem mulher perdeu todos os seus familiares quando eles pisaram em uma mina terrestre no escuro. Seu luto é tão palpável, tão assustador. Há muitas outras pessoas que se sentam silenciosamente, se protegendo, olhar perdido, olhos que já viram muito mais do que deveria ser visto, em um estado de choque que parece impenetrável, porque essas pessoas ainda não estão livres. Elas ainda precisam sobreviver.  

Há um homem idoso sentado sozinho; sua respiração é ofegante e ruidosa. Eu lhe dou um pouco de Ventolin para que ele possa respirar, mas em vez de respirar melhor, ele começa a chorar, e as lágrimas não param de escorrer de seus olhos. Seu filho está em Hawija. Isso foi tudo que ele precisou dizer.  

Às vezes, o mais difícil é ouvir essas histórias e manter a compostura profissional, mesmo quando sinto as lágrimas chegando aos meus olhos, paralisadas, mas querendo cair como a chuva. Eu não tenho outra ideia do que dizer que não seja “Inshallah (se Deus quiser), seu filho vai chegar em segurança”. Ele olha para mim com olhos vidrados e repete, “Inshallah”, e então olha para o céu. Duas crianças pequenas também perderam a mãe em uma explosão de mina terrestre durante a jornada. O ar que eu respiro está coberto de sofrimento, que cai em camadas sobre a terra.
Há um pequeno menino de oito anos que me confronta porque sua irmã caçula está doente. Ele diz que não dorme há dias porque à noite as mulheres dormem e os meninos ficam de guarda. Ele é sério e forte; suas emoções são estáveis. Eu vejo crianças escondendo comida em seus bolsos, e essa imagem me dói, porque eles estão apenas tentando sobreviver.

Durante a semana passada, recebemos muitas crianças com ferimentos de bombardeios e nosso médico teve que remover estilhaços e pedaços de metal dos pequenos membros. Posteriormente, a equipe transferiu as crianças com segurança para o hospital de emergência de Kirkuk, apoiado por MSF. Nós só recebemos aqui os que conseguem chegar; os que sobreviveram a uma jornada perigosa e chegaram aos pontos de entrada entre as frentes de batalha, e nós sabemos que muitos outros foram deixados para trás.

Em outro ponto de entrada, vejo um homem desmaiando na chegada, ao sair do caminhão. Ele está inconsciente e pálido, mas vivo. Ele é levado para nossa clínica e, enquanto pressiono seu esterno para que ele volte à consciência, vejo lágrimas escorrendo no canto de seus olhos. Ele fica deitado no chão, paralisado, lamentando, até que consegue se sentar. Ele me conta que seus pais foram mortos recentemente e que seu irmão ainda está em Hawija. Sua mulher está grávida do primeiro filho e ele se sente sobrecarregado de incertezas. Nos sentamos no chão da clínica até que sua esposa grávida se junta a nós. Eles choram juntos. Ele acredita que eu salvei sua vida e, com as mãos fechadas, diz que vai rezar por mim todas as noites. A coragem dele me impressiona.

Estamos estruturando aos poucos nosso projeto e nos preparando para os próximos dias. Começamos a treinar os profissionais dos principais hospitais de emergência, e estamos ganhando acesso aos pontos de entrada para oferecer uma resposta de emergência aos feridos recém-chegados. Nossas equipes médicas estão crescendo rapidamente para oferecermos capacitação, e o espírito de solidariedade do pessoal torna tudo mais fácil. A combinação do humanitarismo com a medicina por aqui nos faz lembrar sempre da identidade de MSF. A necessidade da nossa presença é óbvia. A gratidão por parte de nossos pacientes é impressionante e, por mais pesado que seja o clima por aqui, todos nós estamos exatamente onde precisamos estar”.