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Grécia: “A polícia nos empurrou como se fôssemos animais"

22/12/2016
O depoimento de uma família afegã que vive há sete meses num acampamento improvisado em Atenas
Grécia: “A polícia nos empurrou como se fôssemos animais"

Foto: Aspasia Kakari/MSF

Safiullah, sua esposa Farahnaz e seus dois filhos estavam dormindo em uma tenda na linha do trem do vilarejo de Idomeni, próximo à fronteira com a Ex-República Iugoslava da Macedônia, quando foram retirados à força pela polícia e mandados de volta para Atenas. “A polícia nos empurrou para dentro do ônibus como se fôssemos animais”, diz Safiullah. “Eles não permitiam que fôssemos a lugar algum e nos acompanhavam até para irmos ao banheiro. Nos trouxeram ao acampamento de Elliniko, e nos disseram que poderíamos retornar quando a fronteira estivesse aberta novamente. ” Quase sete meses depois, Safiullah, que tem 26 anos, ainda vive em uma tenda em Elliniko. Antes, ele era um vendedor de frutas no Afeganistão.

Quando decidiu levar sua mulher e seus dois filhos pequenos (uma menina de 2 anos e um menino de 3) para a Europa, Safiullah não podia imaginar o quanto isso seria difícil. “Viajamos por nove meses. Quando começou a entrar água no nosso bote, disse às pessoas que sabiam nadar para que apenas salvassem as crianças. Mas o pior momento da jornada foi não poder atravessar a fronteira [da Grécia com o restante da Europa] e ter de voltar”.  

Nos últimos sete meses, Safiullah e sua esposa, Farahnaz, passaram a viver em uma tenda no campo de refugiados não oficial de Elliniko – um estádio de baseball na área do antigo aeroporto –, onde há cerca de 800 pessoas do Afeganistão. “O mais difícil é não fazermos nada o dia inteiro e não sabermos o que acontecerá conosco”, diz ele. “Não há atividades aqui, então só conversamos entre nós e os problemas de outras pessoas estão começando a nos afetar também. Estamos sob muito estresse.”

Farahnaz frequentemente se consulta com o psicólogo da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) no campo, que a ajuda a superar seus problemas e a se sentir mais calma. “Sem um psicólogo, não sei o que aconteceria conosco. Precisamos encontrar algo para fazer, se não vamos começar a nos desentender. Mas aqui nós não podemos decidir nada. Outros estão decidindo tudo por nós”, diz ela.

Safiullah e Farahnaz, como todas as outras famílias do acampamento, enfrentam muitos problemas para atender às necessidades diárias de seus filhos. Sua maior preocupação é a educação. “Queremos que nossas crianças estudem, que se tornem úteis para a sociedade. Eles precisam estudar. Eles vão ser a nova geração que pode levar a democracia de volta ao Afeganistão.”