Você está aqui

Grécia: “Frequentemente, vejo pessoas que consideram recorrer ao suicídio”

14/03/2017
Um ano após acordo entre a União Europeia e a Turquia, as condições de vida de refugiados e solicitantes de asilo são desesperadoras
Grécia: “Frequentemente, vejo pessoas que consideram recorrer ao suicídio”

Foto: Mohammad Ghannam/MSF

Um ano após assinatura do acordo entre a União Europeia (EU) e a Turquia, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou, hoje, um relatório para denunciar os altos custos humanos decorrentes de falhas políticas na Grécia e nos Bálcãs. MSF faz um apelo à União Europeia e aos líderes de seus Estados-membros para que mudem radicalmente sua abordagem e garantam um fim imediato ao sofrimento desnecessário de milhares de pessoas afetadas pelas consequências de seu acordo com a Turquia.

O Conselho Europeu declarou que o acordo, que recompensa a Turquia por “conter o fluxo” de imigrantes e refugiados e por aceitar os que retornaram forçadamente da costa grega, ofereceria aos migrantes “uma alternativa a colocarem suas vidas em risco”. Um ano depois, milhares de homens, mulheres e crianças se encontram presos em áreas inseguras fora da Europa sem poder fugir - sendo forçados a recorrer a traficantes e rotas cada vez mais perigosas para chegar ao continente – ou encurralados em assentamentos superlotados nas ilhas gregas.  
 
“O acordo está tendo um impacto direto na saúde de nossos pacientes, e muitos deles estão cada vez mais vulneráveis”, diz Jayne Grimes, psicóloga de MSF em Samos. “Essas pessoas fugiram de violência extrema, tortura e guerra e sobreviveram a uma jornada extremamente perigosa. Hoje, a ansiedade e a depressão se agravam devido à falta de informações sobre seu status legal e às condições de vida precárias. Elas estão perdendo a esperança de encontrar uma realidade melhor e mais segura que a de onde fugiram. Frequentemente, vejo pessoas que consideram recorrer ao suicídio ou à automutilação. ”

De acordo com o relatório “One Year on From the EU-Turkey Deal: Challenging the EU’s Alternative Facts” (“Um ano de acordo entre União Europeia e Turquia: desafiando as alternativas da União Europeia”, em tradução livre para o português), psicólogos de MSF em Lesbos perceberam que os sintomas de ansiedade e depressão aumentaram 2,5 vezes entre os pacientes, e que o número de pessoas com transtorno de estresse pós-traumático triplicou. Os sintomas de psicose também aumentaram, o que explica o fato de nossas equipes receberem casos de traumas graves e tentativas de suicídio ou automutilação. Em Samos, onde equipes de MSF conduziram cerca de 300 consultas de saúde mental, uma deterioração semelhante foi percebida nos últimos meses, assim como um aumento nos casos de automutilação e tentativas de suicídio.
    
Ao longo da rota dos Bálcãs na Sérvia e na Hungria, equipes de MSF notaram um aumento no número de pacientes que relatam traumas decorrentes da violência a que foram expostos desde o fechamento da rota, decidido poucos dias antes de firmado o acordo entre a União Europeia e a Turquia.

“Os líderes europeus continuam acreditando que, por meio da construção de cercas e da punição aos que tentam atravessá-las, vão impedir outros milhares de pessoas de fugir para salvar suas vidas”, diz Aurelie Ponthieu, especialista no deslocamento de populações de MSF. “Todos os dias tratamos as feridas, tanto físicas como psicológicas, causadas por essas políticas de dissuasão. Essas medidas não só se mostraram desumanas e inaceitáveis: elas são completamente ineficazes”, conclui Ponthieu.

MSF, que decidiu não mais aceitar recursos financeiros da União Europeia e seus Estados-membros em oposição ao acordo com a Turquia, reitera que o respeito integral ao direito de solicitar asilo e a abertura de alternativas legais e seguras para o deslocamento – como reassentamento, relocação, concessão de vistos humanitários, de estudo e de trabalho e reunificação de famílias – são as únicas soluções humanas e eficazes para acabar com as mortes e o sofrimento nas fronteiras europeias, tanto no mar como em terra.


MSF NA GRÉCIA E NA SÉRVIA
Na Grécia, MSF oferece assistência médica e humanitária a migrantes e solicitantes de asilo desde 1996. Em 2015, iniciamos uma reposta de emergência quando milhares de pessoas começaram a chegar por dia da Turquia às ilhas gregas na intenção de cruzar a rota dos Bálcãs para chegar ao norte da Europa. Equipes de MSF trabalham, atualmente, em mais de 20 localidades na Grécia, concentrando-se principalmente em oferecer assistência de saúde mental, cuidados de saúde sexual e reprodutiva e tratamentos para pacientes com doenças crônicas.

Em 2016, equipes médicas de MSF na Grécia realizaram 72.740 consultas, entre elas 8.027 consultas de saúde mental, 3.195 de saúde sexual e reprodutiva e 61.338 atendimentos médicos que abrangem cuidados primários de saúde, fisioterapia, tratamento de doenças crônicas e mais.

MSF trabalha na Sérvia desde o fim de 2014 oferecendo cuidados médicos e de saúde mental e instalando abrigos e postos de água e saneamento nos locais onde há pessoas entrando e saindo do país, assim como na capital, Belgrado. Desde o início de 2016, nossas equipes mantêm uma clínica fixa e uma móvel em Belgrado, onde oferecem cuidados médicos gerais e de saúde mental. Ao longo de 2016, equipes de MSF distribuíram itens de primeira necessidade e auxiliaram pessoas vulneráveis retidas na Sérvia a terem um acesso maior a cuidados de saúde, proteção e abrigo adequado.