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Gravidez e parto seguros no Afeganistão

07/03/2017
O Afeganistão é um dos lugares mais perigosos do mundo para se dar à luz
Gravidez e parto seguros no Afeganistão

Foto: Aurelie Baumel/MSF

Enquanto se celebra o Dia Internacional da Mulher em 8 de março, mais de 2.900 mulheres darão à luz no Afeganistão nesse mesmo dia. Cerca de 11 delas vão morrer devido a uma complicação durante a gravidez ou durante o parto propriamente dito1.

Anualmente, 4.300 mulheres não sobrevivem ao parto. A taxa de mortalidade materna compara o número de mortes maternas a cada 100 mil bebês nascidos vivos. No Afeganistão, essa relação é de 396 mortes a cada 100 mil bebês nascidos vivos; no Brasil, em 2013, foram registradas 69 mortes a cada 100 mil nascidos vivos.

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) visa reduzir a mortalidade e a morbidade de mães e bebês por meio da oferta de cuidados de saúde maternos e neonatais de alta qualidade em quatro hospitais no Afeganistão. De todos os partos assistidos por MSF no mundo, um em cada quatro acontece no país; somente em 2016, nossas equipes ajudaram no nascimento de mais de 66 mil bebês.

O Afeganistão é um dos lugares mais perigosos do mundo para se dar à luz

Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)

Por décadas, mulheres afegãs não têm tido acesso à educação, o que causou uma escassez de profissionais do sexo feminino treinadas para ajudar nos partos. Ao mesmo tempo, muitas famílias vão buscar cuidados somente com médicas mulheres, devido às normas culturais afegãs. Esse dilema é uma das razões pelas quais dois terços dos bebês nascem em casa, sem qualquer assistência. Todos os projetos de MSF no Afeganistão concentram esforços no treinamento de equipes locais de mulheres.

Quase todos os obstetrizes nos projetos de MSF no Afeganistão são mulheres. Desde que o hospital-maternidade da organização exclusivo para mulheres foi inaugurado em Khost, em 2012, diversas médicas mulheres ganharam experiência no manejo de complicações relacionadas com partos. Elas foram treinadas por profissionais internacionais como a ginecologista-obstetra dra. Séverine Caluwaerts, que já trabalhou em Khost sete vezes. “Eu ensinei duas das nossas médicas nacionais, dra. Sadia e dra. Farida, suas primeiras cesáreas e, agora, tantos anos depois, elas são independentes”, conta ela.

Enquanto MSF oferece cuidados de saúde gratuitos, muitas outras clínicas pelo país cobram por seus serviços. “Muitas pessoas enfrentam problemas econômicos, o que quer dizer que elas não têm dinheiro para cuidados de pré-natal ou mesmo para ver um ginecologista”, conta Aqila, supervisora das obstetrizes do hospital de Dasht-e-Barchi. “As mulheres não têm motivação para ir a hospitais privados caros, então tentam dar à luz em casa. Muitas delas não sabem sobre as complicações da gravidez e do parto.”

“Vi muitas mulheres, ao longo de minha vida, morrerem durante o parto ou depois de darem à luz devido à hemorragia pós-parto ou a uma complicação. E vi muitas crianças crescendo sem suas mães. É uma coisa muito triste mesmo para mim.” – Aqila é supervisora das obstetrizes no hospital-maternidade de Dasht-e-Barchi em Cabul, administrado por MSF em parceria com o Ministério da Saúde.

 

Cuidados de pré-natal são cruciais para identificar e mitigar complicações, que podem ter um grande impacto na saúde do recém-nascido

Recentemente, Nadya deu à luz seu primeiro bebê no hospital de Ahmad Shah Baba, administrando por MSF em parceria com o Ministério da Saúde em Cabul. Mas, assim como muitas mulheres, ela teve acesso a um pré-natal bastante limitado. Na realidade, mais de 40% das mulheres afegãs não têm acesso a cuidados de pré-natal durante a gravidez, número que MSF está tentando ajudar a reduzir por meio de atividades de promoção de saúde e provisão de cuidados gratuitos. O bebê de Nadya nasceu com uma leve hidrocelafia, que é tratável, mas poderia ter sido identificada durante o pré-natal, o que teria preparado melhor a família.

MSF concentra esforços em mulheres com complicações obstétricas diretas, que podem se beneficiar muitíssimo de nossa experiência na área. Nossas equipes trabalham para melhorar os procedimentos de identificação dessas complicações por meio de atividades que incluem campanhas de rádio e reuniões com a comunidade. Também oferecemos apoio a clínicas comunitárias para fortalecer o manejo de partos naturais e garantir que mulheres que enfrentem complicações sejam rapidamente encaminhadas aos nossos hospitais. Mas ainda há muitos obstáculos para mulheres que buscam cuidados essenciais urgentes, sendo o mais comum deles as estradas perigosas e vagarosas.

Por meio do suporte a dezenas de milhares de partos, do treinamento de profissionais médicas mulheres e da melhoria no processo de reconhecimento de complicações obstétricas, bem como do desenvolvimento de centros de saúde comunitários, MSF está ajudando a fazer com que partos sejam mais seguros para mulheres afegãs.

“Dar à luz deveria ser um momento de alegria, e não de tristeza. Por isso que estamos aqui e esse é o trabalho que estamos fazendo. Nenhuma mulher deveria morrer em consequência do trabalho de parto”, ressalta a dra. Caluwaerts.

 

CUIDADOS DE SAÚDE MATERNA - A ABORDAGEM DE MSF

Considerando qualquer população, até 45% das gestantes enfrentarão uma complicação e até 15% delas enfrentarão uma condição que ameaçará suas vidas e demandará cuidados médicos urgentes.

MSF concentra esforços no período perinatal, que envolve cuidados pré-parto, durante o parto e uma semana após o nascimento. Essa abordagem combina tanto cuidados obstétricos quanto neonatais. Em muitos de nossos projetos, MSF investe no cuidado com mulheres que enfrentam complicações na medida em que tais condições demandam um alto nível de especialização, o qual nossas equipes são capazes de oferecer.

O momento de mais alto risco é o parto. Mundialmente, aproximadamente metade das mortes maternas ocorrem durante o parto, ou nas primeiras 24 horas após a mulher dar à luz. Cuidados qualificados no momento do parto podem prevenir a mortalidade e a morbidade de mulheres e crianças.

Ainda que as maternidades de MSF normalmente possam oferecer cuidados de alta qualidade, incluindo cesáreas, é essencial que também haja centros de saúde bem-capacitados que ofereçam cuidados básicos na comunidade.

Esses centros concentram esforços em partos de rotina, permitindo que MSF ofereça suporte a partos complicados, quando a nossa expertise é mais valiosa. Os dois níveis de cuidados precisam ser interligados, contando com um plano de encaminhamento fluido que garanta que todas as mulheres recebam os cuidados de que precisam.

 

1World Health Organization. (2015). Trends in Maternal Mortality: 1990 to 2015. Available from: http://www.who.int/reproductivehealth/publications/monitoring/maternal-mortality-2015/en/

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