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“A gama de necessidades médicas não atendidas só cresce”

01/08/2017
Robert Onus, coordenador de MSF para Raqqa, responde às principais perguntas sobre a atuação da organização na crise de violência pela qual passa a cidade síria.
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Foto: MSF

Onde MSF está trabalhando na província de Raqqa?

MSF está trabalhando no hospital Tal Abyad apoiando os cuidados de trauma, cirurgias e a manutenção geral do hospital em parceria com as autoridades locais de saúde. Temos oito ambulâncias fazendo transferências no entorno da cidade de Raqqa. Elas atendem qualquer pessoa que esteja ferida ou que precise de cuidados médicos de emergência antes de ir para instalações médicas de cuidados secundários que MSF apoia em Kobane, Menbij ou Tal Abyad. Também temos um posto médico avançado em Hazima, ao norte da cidade de Raqqa, para os pacientes do interior do norte de Raqqa que precisam de cuidados médicos de emergência. Temos ainda cinco equipes de vacinação trabalhando em toda a província. Também apoiamos uma clínica de cuidados de saúde primária e uma equipe de vacinação no campo de Ain Issa que cuida de pessoas que saíram de Raqqa.

Quais são os principais desafios enfrentados pela população que foge de Raqqa?

Como Raqqa é uma cidade sitiada, temos muito pouca informação sobre o que está acontecendo lá dentro. Sabemos que há pessoas feridas e pessoas que precisam de cuidados médicos, mas devido à intensidade do conflito não conseguimos ter acesso aos pacientes. Não há passagens seguras por onde essas pessoas possam sair da cidade.

Pacientes com ferimentos de guerra que estamos tratando nos contam que ainda há um grande número de doentes e feridos de guerra presos na cidade de Raqqa com acesso muito limitado a cuidados médicos e muito poucas possibilidades de sair da cidade. Estamos extremamente preocupados com o bem-estar daqueles que foram deixados para trás sem acesso suficiente a cuidados de saúde.

Por outro lado, muitas pessoas dos arredores de Raqqa estão retornando para seus vilarejos, mas ainda enfrentam o impacto residual do conflito. Os vilarejos e cidades estão infestados de explosivos remanescentes da guerra, incluindo aparatos explosivos improvisados, armadilhas e munições não detonadas. Estamos recebendo muitos pacientes em nossas ambulâncias e hospitais que sofrem com ferimentos provocados por explosões e por tiros. A grande maioria dos pacientes são civis que foram feridos durante o conflito ou depois, quando retornaram para suas casas.

Existe alguma rota livre para que os feridos saiam de Raqqa?

A cidade de Raqqa é uma zona de guerra, existe uma frente de batalha muito clara e os civis têm muita dificuldade de cruzá-la. Alguns conseguem cruzar durante a noite ou deixam a cidade com a ajuda de contrabandistas, mas certamente não há uma forma organizada ou coordenada para uma evacuação médica dos feridos e dos doentes da cidade. Infelizmente, as pessoas que conseguimos acessar com nossos serviços foram as únicas que conseguimos alcançar.
Por exemplo, no hospital Tal Abyad recebemos um paciente que perdeu sete membros de sua família. Ele tinha estilhaços em seu peito e chegou com sua filha e sua mãe ferida, que ficou sob os escombros de um prédio que colapsou por conta de um bombardeio aéreo por 15 horas, antes que eles pudessem ter acesso a cuidados médicos básicos e, depois, fugir da cidade.

O paciente explicou que, apesar dos seus ferimentos, eles tiveram que ser tirados da cidade por contrabandistas com um grupo de outras 40 pessoas. Eles dormiram no mato por uma noite e tiveram que seguir cães para evitar minas terrestres. A ameaça de ser atingido por atiradores de elite de ambos os lados era iminente durante todo o tempo. Depois que conseguiram escapar da cidade, eles mudaram de um campo para o outro e só conseguiram chegar ao hospital Tal Abyad dez dias depois que foram originalmente feridos.

Quais são os tipos de ferimentos que MSF está observando nos pacientes que recebe agora?

Vemos dois tipos de casos vindos de Raqqa. O primeiro são casos de trauma agudo de pessoas feridas no combate na cidade. Esses requerem cuidados médicos imediatos. O segundo caso é o de pessoas presas do outro lado da frente de batalha. Elas são capazes de ter acesso a cuidados médicos rudimentares dentro da cidade e apenas depois de dias ou semanas conseguem achar uma maneira de cruzar a frente de batalha e chegar aos nossos hospitais para cuidados de saúde secundária.

Quais são os desafios que MSF enfrenta trabalhando em Raqqa?

O maior desafio enfrentado por MSF em Raqqa é relacionado ao acesso. Sabemos que ainda há uma grande população civil dentro da cidade; de acordo com a ONU, entre 30 mil e 50 mil. Porém, não conseguimos ter acesso a essa população e ela provavelmente não consegue ter acesso a cuidados médicos dentro da cidade. Os que conseguem cruzar a frente de batalha para chegar às nossas ambulâncias levam às vezes horas ou dias para trazer um paciente para o hospital. Isso é um tempo inacreditavelmente longo para alguém que foi ferido ou precisa de cuidados médicos de emergência.

Por que MSF está trabalhando em Raqqa?

Depois de seis anos de guerra a gama de necessidades médicas não atendidas apenas cresce. Ao mesmo tempo, existe apenas uma meia dúzia de organizações trabalhando na região para fornecer ajuda humanitária e cuidados de saúde. Quando essas duas peças do quebra-cabeça são colocadas juntas o resultado é um grande déficit de cuidados médicos disponíveis para uma população incrivelmente vulnerável. Cuidados médicos de emergência, cirurgia, cuidados de saúde primária e vacinação: todos esses serviços são praticamente inexistentes para as pessoas em Raqqa e, como profissionais de MSF, sentimos que é imperativo dar uma resposta.

Por que MSF não pode trabalhar mais perto da frente de batalha?

No momento, temos nossas ambulâncias e nossas equipes o mais perto que podem chegar da frente de batalha em segurança. Infelizmente, as regras da guerra e as leis humanitárias internacionais não são sempre respeitadas no conflito da Síria. Não podemos ignorar esse fato. Sem esse status de proteção, profissionais de saúde estão extremamente vulneráveis a ataques, o que torna mais difícil o trabalho em áreas próximas ao conflito ativo. Tudo isso traz mais sofrimento para os pacientes.

A ameaça a profissionais médicos não acontece apenas próximo à frente de batalha. Nossas equipes trabalham em áreas recentemente acessíveis que antes eram dominadas pelo grupo autoproclamado Estado Islâmico. Estamos encontrando um grande número de dispositivos explosivos nessas cidades, o que impede as pessoas de retornarem para suas vidas normais. Por exemplo, em Hazima, ao norte da cidade de Raqqa, nossas equipes recomeçaram serviços de vacinação essa semana, mas fomos forçados a parar porque descobriu-se que no local de vacinação, uma escola local, havia minas e armadilhas com explosivos.