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Desnutrição recorrente: uma epidemia silenciosa que devasta o Chade

16/09/2016
Os casos de desnutrição em Bokoro, no Chade, são responsáveis por quase metade das mortes infantis no país. Equipes de MSF lutam para combater e evitar o problema, por meio de unidades de tratamento e centros de distribuição de alimentos suplementares
Desnutrição recorrente: uma epidemia silenciosa que devasta o Chade

Foto: Charlotte Morris

 “A situação das crianças é grave por aqui”, diz Bernadette Amaji, 37 anos, enquanto prepara comida para crianças desnutridas e suas mães no centro de nutrição terapêutica da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) na cidade de Bokoro, no centro do Chade. “Algumas mães não têm os meios necessários para alimentar os filhos. Outras têm, mas não conseguem tomar os devidos cuidados devido à falta de informação sobre higiene e nutrição. É preciso ser forte e corajoso para cuidar de um filho aqui. Não é fácil. ”

Bernadette Ammaji, cozinheira da unidade de tratamento intensivo de MSF em Bokoro (Foto: Charlotte Morris / MSF)Bernadette, que trabalha com MSF desde 2012, é uma das mais de 200 profissionais que trabalham contra a desnutrição na região. A desnutrição é endêmica em Bokoro, assim como em boa parte do Chade, com quase metade das mortes de crianças sendo associadas a essa condição.

A região de Bokoro fica cerca de 300 quilômetros a leste da capital do Chade, N’djamena, na direção do centro desse país sem costa marítima na África central. Essa é uma parte relativamente estável do Chade, mas também negligenciada, normalmente ficando de fora das manchetes devido à crescente presença do Boko Haram na região noroeste do país.

Este ano, em vilarejos da região de Bokoro, em parceria com o Ministério da Saúde, MSF mantém 15 clínicas móveis ambulatoriais para crianças desnutridas com idade entre seis meses e cinco anos. Na cidade de Bokoro, MSF tem um Centro de Nutrição Terapêutica em um hospital do Ministério da Saúde, com uma unidade de tratamento intensivo para a qual as crianças com casos mais graves são transferidas.

E, pela primeira vez, MSF também está trabalhando na área para identificar e tentar prevenir que crianças com risco de desnutrição adoeçam.

Um “clima extremo”

Clínica móvel para tratamento de desnutrição de MSF; as temperaturas em Bokoro chegam aos 45 graus (Charlotte Morris / MSF)O clima em Bokoro é adverso. A temperatura chega a 45 graus e a temporada de chuvas é muito curta. “As condições de vida realmente são muito difíceis por aqui”, diz Suzanne Moher, 36 anos, epidemiologista espanhola que trabalha com MSF em Bokoro. “Sim, agora tudo está verde, mas quando eu cheguei, há alguns meses, não havia sinal de vida.” A população tem apenas um par de meses para plantar e colher alimento suficiente, normalmente painço, para durar cerca de um ano. A grande maioria das pessoas da área é de agricultores de subsistência, então uma má colheita pode ser muito devastadora.

No momento, centenas de mulheres trazem seus bebês para as clínicas móveis de MSF todos os dias, conforme o úmero de crianças com desnutrição atinge seu pico anual. As famílias ainda não fizeram a colheita deste ano, mas no ano passado a safra não foi boas, então algumas pessoas já ficaram sem comida.

No mês passado, MSF transferiu uma média de 50 bebês por semana da clínica ambulatorial para a sua unidade de tratamento intensivo em Bokoro para cuidados de emergência.

Práticas culturais

Em Bokoro, bebês e crianças menores também caem na desnutrição devido a práticas culturais que podem involuntariamente causar mais danos do que benefícios.

“Algumas mães que vêm aqui dizem que, quando seu próximo filho é concebido, o leite materno não é bom para o filho que já existe”, diz Benedicte La-Toumbayle, 28 anos, uma enfermeira chadiana do centro de nutrição terapêutica de MSF na cidade de Bokoro. “Elas acreditam que, se continuarem amamentando o bebê com seu leite, irão prejudicar o futuro da criança que carregam no ventre.”

Benedicte La-Toumbayle, enferimeira chadiana de MSF (Foto: Charlotte Morris / MSF)Muitas vezes as mães preferem levar os filhos doentes a um líder religioso, e não a uma clínica de saúde. Os Marabout (líderes religiosos islâmicos) podem recitar algumas preces do Corão para os bebês doentes; dar a eles uma mistura à base de plantas que pode ser venenosa; fazer três cortes na barriga do bebê ou retirar sua úvula, na parte de trás da garganta. Na melhor das hipóteses, esses procedimentos podem atrasar o início do tratamento necessário às crianças desnutridas. Nos piores casos, os bebês mais vulneráveis, cujo sistema imunológico já se encontra enfraquecido pela falta de alimento, podem morrer por envenenamento ou infecção. O fato de a viagem até outras clínicas de saúde no Chade ser cara tampouco ajuda; além disso, muitas vezes as clínicas não têm os medicamentos necessários ou um número suficiente de profissionais treinados, e apesar da política nacional de tratamento gratuito para crianças com desnutrição, muitas vezes há custos ocultos que podem impossibilitar que a população tenha acesso a esse cuidado essencial de saúde. 

 “Infelizmente, uma criança morreu hoje”, diz Benedicte. “Em casa, como parte de um procedimento da medicina tradicional, deram algo para ele comer que acabou envenenando-o. Quando a criança chegou à clínica, fizemos tudo o que podíamos. É muito triste ver tantas crianças sofrendo na sua frente, mas isso também me leva a não desistir de ajudá-los.”

Falta de informação

Compondo esses fatores de risco, há uma falta de informação generalizada sobre desnutrição em Bokoro. “Em vez de leite materno, algumas mães alimentam seus bebês com leite de cabra ou com boullie (um caldo normalmente feito à base de painço) ou com outros alimentos consumidos pelos adultos, levando a criança a ter diarreia e, com isso, desenvolver desnutrição”, diz Benedicte.

Os níveis de educação formal são baixos, com uma taxa de alfabetização nacional de apenas 33%, e a maioria das mães que MSF atende aqui nunca passou pela escola. Muitas não entendem o que está levando seus filhos a ficarem doentes. Um treinamento curto sobre higiene e nutrição é parte essencial da visita de todas as mães a clínicas de MSF ou à unidade de terapia intensiva.

Uma necessidade urgente de prevenção para lutar contra os casos crônicos de desnutrição

MSF tem lançado uma resposta de emergência à desnutrição em Bokoro, nesta mesma época do ano, nos últimos cinco anos. Nesse período, ficou claro que esses casos não são emergências pontuais, mas parte de um padrão de desnutrição recorrente com causas complexas e interligadas. Tendo isso em vista, este ano MSF começou a trabalhar em Bokoro antes de os casos de desnutrição chegarem ao auge, normalmente no início da temporada de chuvas (de maio a outubro), instaurando suas clínicas móveis no mês de janeiro em vez de julho. Desde então, MSF tratou mais de 9.140 bebês e crianças com desnutrição grave.

Este ano MSF também criou um componente para o projeto que visa prevenir que bebês e crianças menores desenvolvam desnutrição.

 “As crianças que vêm aos nossos centros de distribuição deveriam ser saudáveis, mas estão em risco de desenvolver desnutrição”, diz Elizair Djamba, supervisor da equipe de distribuição de MSF em Bokoro. “Pela primeira vez em Bokoro, vamos oferecer neste ano a essas crianças porções de alimentos suplementares especialmente formulados, dando a elas a chance de permanecer saudáveis.”

Equipes de MSF distribuíram alimentos suplementares prontos para o consumo, além de sabonetes e mosqueteiros, para mais de 30 mil mães em Bokoro, junto com um treinamento breve sobre saúde e nutrição.

O trabalho é difícil, mas as equipes acreditam entusiasmadamente que é necessário fazer isso para que MSF possa causar impacto e mudanças na recorrente situação de desnutrição no país. “Muitas vezes chegamos aos pontos de distribuição no meio de tempestades”, diz Elizair. “Mas temos que estar lá, na chuva, com essas mulheres, mostrando a elas que estar ali é importante, que vale a pena.”