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Cuidando da saúde mental das comunidades retidas na frente de batalha na Ucrânia

10/10/2017
Equipes de MSF trabalham em proximidade com população que vive em zonas de conflito no leste do país
Profissional de MSF com Sofia, paciente de 91 anos.

Foto: Robin Hammond/Noor

Monika Bregy é coordenadora de atividades de saúde mental da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) no leste da Ucrânia. Ela supervisiona uma equipe de psicólogos e tradutores que trabalha na zona de conflito oferecendo suporte psicológico vital às populações que vivem próximo à frente de batalha. Neste Dia Mundial da Saúde Mental, pedimos que Monika nos contasse sobre os problemas que essas pessoas vivem estando próximas ou na própria frente de batalha.

Algumas pessoas estão vivendo há mais de três anos em uma zona de conflito; elas estão espalhadas pela frente de batalha, em vilarejos isolados, sem acesso a cuidados médicos e transporte público, ou simplesmente deslocadas de suas casas e vivendo em outras cidades, como Mariupol e Kurakhove. A maioria de nossos pacientes é de idosos, especialmente mulheres, que não estão acostumados a falar sobre sua saúde mental porque querem parecer “fortes”. Às vezes, essas pessoas enxergam a necessidade de falar sobre suas questões pessoais como uma fraqueza. Pode demorar algum tempo até que o sentimento de vergonha diminua e elas comecem a usar nossos serviços mais frequentemente. Então, eles contam sobre o que estão sofrendo; seu isolamento, visto que as gerações mais novas muitas vezes vão embora, seu luto, sua ansiedade aguda, sua depressão e seus sintomas psicossomáticos – através dos quais eles experimentam dores físicas ligadas aos seus problemas psicológicos.

Eu trabalho com cinco psicólogos para apoiar comunidades no leste da Ucrânia. Atuamos em clínicas móveis, com um médico e um enfermeiro, que oferecem cuidados primários e de saúde mental nas áreas em que esses serviços são limitados ou inexistentes. Há também localidades como Chermalyk, que nossos psicólogos visitam sozinhos porque as necessidades médicas são, em sua maioria, atendidas; contudo, as necessidades de saúde mental são enormes e não há outro serviço disponível. O quinto psicólogo trabalha exclusivamente nessas localidades, principalmente em Avdiivja e Krasnogorivka.

Descobrindo quando o suporte psicológico é necessário

Conduzimos avaliações a fim de entender as necessidades de suporte psicológico das comunidades. Perguntamos sobre eventos críticos que tenham acontecido e procuramos saber como as pessoas se adaptaram a eles ou se ainda sofrem seu impacto. Grupos vulneráveis, seus sintomas e suas necessidades são o nosso foco. Consideramos fatores qualitativos e quantitativos, como a percepção local de sua saúde mental e expressões de dificuldade emocional. 

Em nossa avalição inicial conduzida em Avdiivka, descobrimos que as pessoas estavam experimentando mudanças em sua forma de pensar e em seu humor, com sensações como decepção e falta de esperança. Muitas pessoas que encontramos apresentam sintomas relacionados com ansiedade, problemas psicossomáticos e depressão. Esses diagnósticos frequentemente são inter-relacionados e coexistentes.

Além disso, alguns manifestam sintomas relacionados a traumas, como memórias angustiantes, recorrentes e indesejadas, assim como flashbacks e pesadelos, ou evitam pensar e/ou falar sobre um evento traumático, como o de testemunhar a morte de pessoas próximas ou de viver em meio a bombardeios diários. Muitos deles desenvolverão problemas para dormir ou ficarão facilmente amedrontados, irritados e enfurecidos.

Aconselhamento individual

Para os que precisam de suporte individual a fim de manter e recuperar sua saúde mental, oferecemos sessões individuais de aconselhamento e ensinamos técnicas para lidar melhor com seus sintomas, como exercícios de respiração e instruções positivas. Por exemplo, pedimos à pessoa que ela imagine o que um amigo próximo diria a ela e então usamos isso como um meio de reforçar a afirmação que dão a si mesmos. Também os ajudamos a identificar pensamentos negativos que possam ser substituídos por afirmações que os ajudem.

Também usamos técnicas de redução de estresse baseadas em atenção plena, que ensinam o paciente a estar presente no momento por meio da descrição da situação e da percepção dos aspectos do ambiente por meio de seus cinco sentidos. Por último, mas não menos importante, sempre enfatizamos a importância do contato social ou de redescobrir atividades simples e prazerosas.

Terapia de grupo em um jardim de infância abandonado

Nosso psicólogo trabalha duas vezes por semana em Avdiivka. Avdiivka é uma cidade industrial que viveu um aumento das hostilidades desde janeiro, bem como bombardeios frequentes por meses seguidos. Realizamos nosso trabalho em um jardim de infância abandonado, com buracos nas paredes. As janelas são cobertas por dois tipos de película instalados por nossos logísticos: uma para proteger o vidro contra fragmentos em caso de bombardeios e outra em cima dessa para conservar a privacidade dos pacientes.

Em maio de 2017, nossos psicólogos em Avdiivka começaram a conduzir sessões de grupo semanais para pessoas idosas que se sentiam isoladas. Em junho, a equipe também realizou treinamento para professores locais, destacando a importância de eles cuidarem de sua própria saúde mental. Eles apreciaram os efeitos positivos que exercícios aparentemente simples e curtos de respiração podem ter. A partir de outubro, a equipe planeja começar a conduzir grupos de apoio a pais, a fim de ajudá-los a lidar com seus filhos no que diz respeito a superar dificuldades emocionais. Em vilarejos perto da frente de batalha, somos regularmente informados sobre os bombardeios e sobre como as pessoas se escondem em seus porões. Nessas situações extremas, as crianças precisam ser acalmadas, mas os adultos também sentem muito medo. O objetivo do grupo é oferecer um espaço confidencial onde as experiências possam ser compartilhadas entre pessoas que passam por situações parecidas e onde essas pessoas possam encontrar, juntas, meios de lidar com suas reações. Esse é o principal valor agregado das sessões em grupo – informar as pessoas de que, apesar das dificuldades que enfrentam, não estão sozinhas.

Recentemente, quando supervisionei um grupo de apoio para idosos, fiquei comovida ao ver como os participantes expressavam cautelosamente seus medos e dúvidas no início da sessão e, ao final dela, se sentiam nitidamente mais relaxados. O compartilhamento de emoções, os exercícios de grupo e o ambiente amigável criado pelos desenhos de crianças nas paredes contribuíram para uma atmosfera incrivelmente amigável e calorosa. Eu sempre vou me lembrar dos momentos ao fim da sessão, com os participantes rindo, compartilhando sua força com os demais, tirando fotos juntos e dizendo adeus com lágrimas de alegria nos olhos.