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Libaneses acolhem refugiados sírios; cenário é preocupante

Profissional de MSF recém-chegado da região relata recentes acontecimentos

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©MSF 

22 de junho de 2012 - Desde o início dos conflitos na Síria, dezenas de milhares de sírios se refugiaram em países vizinhos. À medida que mais e mais pessoas chegaram ao Líbano em busca de abrigo e cuidados médicos, Médicos Sem Fronteiras (MSF) estende suas atividades no país para as regiões de Wadi Khaled, Trípoli e o vale de Bekaa. Laurent Ligozat, diretor operacional adjunto de MSF, que acaba de voltar da região, relata a situação encontrada por Médicos Sem Fronteiras:

“Mais de 20.700 sírios que fugiram de seu país de origem – de um total de 27 mil registrados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados - estão agora oficialmente registrados no Líbano. A maioria está vivendo no norte do país e na região do vale de Bekaa. Alguns estão hospedados com familiares ou foram recebidos pela comunidade local; outros ocuparam edifícios públicos ou casas abandonadas. Muitos têm pouquíssimos bens e viver é uma luta diária. Pressionados, serviços de saúde e ONGs locais também estão começando a trabalhar na região.

As turbulências na Síria não estão melhorando. Para os refugiados, os bombardeios, a jornada em busca de segurança e o reassentamento no Líbano foram experiências muito traumáticas – tanto para adultos quanto para crianças. Eles se pegam revivendo eventos passados, como a perda de familiares e de suas casas. Muitos estão tomados por sentimentos como medo, insegurança e incertezas sobre o futuro – e isso se sobrepõe às dificuldades econômicas que estão enfrentando.

Suprindo necessidades
Identificamos a saúde mental como uma necessidade particular dentre os serviços médicos oferecidos. Em novembro de 2011, começamos a realizar consultas e gerenciar grupos de apoio, sessões psicoeducacionais e terapia de família na região norte de Wadi Khaled.

À medida que mais e mais famílias começaram a se acomodar no norte da cidade de Trípoli, nós estendemos os serviços para o hospital de Dar Al Zahraa e para o hospital público de Trípoli, oferecendo consultas psicológicas e psiquiátricas, bem como cuidados de saúde primários, incluindo imunizações infantis e tratamento de doenças crônicas e agudas, tanto para sírios quanto libaneses locais. Estamos trabalhado também no vale de Bekaa, que é o ponto principal utilizado por aqueles que querem cruzar a fronteira e fugir da violência na Síria. As equipes médicas de MSF realizaram mais de 4.600 consultas para cuidados de saúde primários e mais de 900 consultas psicológicas e psiquiátricas individuais, todas gratuitas. Cobrimos os custos de internação de 86 casos de emergência médica, incluindo partos, tratamentos de diálise e operações que salvaram vidas.

Organizações não governamentais locais têm trabalhado em conjunto conosco e têm desempenhado papel fundamental na aproximação de MSF com grupos de refugiados vulneráveis. Eles também nos emprestaram suas instalações para que pudéssemos disponibilizar nossos serviços rapidamente.

População local abre suas portas
As comunidades locais – tanto de Wadi Khaled quanto do vale de Bekaa – têm feito muito para aliviar o sofrimento dos refugiados sírios. Há grande senso de solidariedade, e muitos abriram suas casas para os refugiados, dividindo seu espaço e sua comida.

Mas há ainda muitos refugiados que precisam de abrigo. Em março, ajudamos a reformar cinco edifícios públicos para abrigar famílias sírias na fronteira da cidade de Aarsal.

Habitação já é uma séria questão, especialmente em Aarsal e Trípoli. Isso porque os refugiados continuam a chegar e a comunidade local simplesmente não tem como abrigar mais ninguém. Visitei casas nas quais duas ou três famílias já dividiam apenas um ou dois cômodos.

Nada nas mãos
Na maioria das vezes, os refugiados sírios chegam sem ter nada, sem meios de sobreviver, com a possibilidade de ter sua situação econômica deteriorada rapidamente. Eles têm necessidade do básico: comida, leite para bebês, fraldas, itens de higiene, equipamentos para cozinhar, colchões e cobertores. Entre janeiro e maio, providenciamos itens de necessidades básicas a cerca de 2.150 pessoas na região montanhosa de Aarsal, incluindo combustível e lenha para aquecimento.

Observamos muitas reclamações musculoesqueléticas, infecções respiratórias agudas e doenças de pele entre os refugiados. Algumas dessas mazelas podem estar relacionadas às más condições em que muitos estão vivendo. Durante o inverno, havia famílias em Aarsal morando em edifícios inacabados, sem ter onde se proteger da neve e do frio intenso. Outros não têm acesso à água corrente.

Refugiados com doenças crônicas também estão em risco, uma vez que podem ter saído da Síria sem sua medicação regular e não ter condições de comprar mais. Tratamos casos severos em Trípoli: um paciente teve de ter seu dedão do pé amputado devido a complicações causadas por diabetes, enquanto um paciente hipertenso apareceu com hemiplegia, o que significa que um lado de seu corpo estava paralisado.

Experiências terríveis
Crianças estão particularmente vulneráveis. Muitas delas tiveram familiares e amigos desaparecidos ou mortos. Elas podem ter testemunhado assassinatos e espancamentos, ter deixado suas casas sob condições de perigo e frequentemente ficam ansiosas por notícias de parentes que ficaram para trás. Em termos de saúde mental, observamos casos de mudez, mas os sintomas mais comuns são urinar na cama, comportamento agressivo ou regressivo e medo constante em relação a eventos traumáticos.

Adultos, obviamente, compartilham dos mesmos medos, e nossas equipes de saúde mental encontraram pessoas com sintomas agudos, envolvendo pensamentos suicidas, reações pós-trauma, reclamações físicas relativas a estresse psicológico e psicose aguda. Depressão e ansiedade são os diagnósticos mais comuns.

Tensões no Líbano
O impacto da crise síria no Líbano está aumentando, especialmente nas regiões fronteiriças e em Trípoli. Desde meados de abril, estendemos nossos serviços de saúde mental para o hospital público de Trípoli, localizado em uma das áreas de maior conflito, e um médico de emergência de MSF está também ajudando no departamento de emergência do hospital. MSF planeja aumentar sua capacidade de oferecer cuidados médicos emergenciais para civis direta ou indiretamente afetados pela violência trabalhando em um hospital e dois postos de saúde.

Reconheço que a assistência médica de MSF a Síria ainda é limitada, especialmente quando consideradas as imensas demandas médicas atuais do país. Há muitos meses, estamos buscando obter autorização oficial para trabalhar nas províncias sírias mais afetadas pela violência. Infelizmente, até o momento, nenhum de nossos esforços – tanto tratando diretamente com autoridades sírias quanto por intermediários – foram bem-sucedidos. No meio tempo, continuamos a apoiar redes médicas em Homs, Deraa, Hama, Damascus e Idlib, entregando suprimentos e medicamentos por meio de países vizinhos.”

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