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Sudão: "Em algumas aldeias, todos os habitantes estão infectados com calazar"

Dr. Dagemlidet Worku, médico etíope

Publicada em 12/04/2011

12 de abril de 2011 - Dr. Dagemlidet Worku tem uma vasta experiência em trabalhos com calazar (leishmaniose visceral), uma doença que, apesar de afetar meio milhão de pessoas todos os anos, principalmente na Ásia e na África, é negligenciada pela indústria farmacêutica. O médico etíope já tratou de pacientes em Uganda e no Quênia, e em janeiro de 2010 participou da inauguração de um centro de tratamento da doença no estado de Al-Geradef, a 500 quilômetros ao leste da capital, Khartoum. Al-Geradef é uma das regiões mais afetadas pelo calazar, embora o Sudão do Sul também esteja enfrentando uma epidemia sem precedentes. O Dr. Dagemlidet Worku, que acabou de voltar de Al-Geradef, falou sobre o tratamento da doença.

O quê mais lhe impressionou quando você chegou ao Sudão?
Dagemlidet Worku -
No Quênia, eu costumava tratar entre 60 e 70 casos por mês. Em Al-Geradef, quando começamos a trabalhar no cento de tratamento de calazar em Tabarak Allah, recebíamos cerca de 150 pacientes por dia. Alguns tinham viajado até 130 quilômetros para ter acesso ao tratamento. Não havia espaço suficiente no edifício e fomos forçados a tratar pessoas debaixo de árvores. Os pacientes foram transferidos para abrigos temporários, até que construímos uma nova ala. Eu fiquei muito surpreso com esse novo fluxo; meus colegas sudaneses, nem tanto.

Al-Geradef é uma das regiões do Sudão mais afetadas pelo calazar. Em algumas aldeias, todos os habitantes estão infectados. Oitenta e cinco por cento dos casos registrados no norte do Sudão vêm deste estado.

Por que esta região é tão seriamente afetada?
Worku -
O clima e a topografia de Al-Geradef são especialmente favoráveis aos mosquitos-palha, transmissores do calazar. Eles se escondem em rachaduras que se formam no chão após a estação chuvosa, e também em troncos de árvores.

Como existem 10 centros de saúde especializados no tratamento de calazar, pacientes de outros estados vêm para cá para serem tratados. Al-Geradef também é o local onde o avanço da doença é monitorado mais de perto. Eu tenho certeza que se fosse dada a mesma atenção à doença em outros locais do norte do Sudão, a porcentagem de casos registrados em Al-Geradef cairia.

Apesar destes esforços, a doença ainda não está sob controle?
Worku -
São necessários mais recursos. Al-Geradef se tornou uma região importante na pesquisa de calazar, mas ainda não há pesquisa suficiente focada na melhora dos diagnósticos e tratamentos. Por exemplo, o estibogluconato de sódio (SSG, na sigla em inglês), o medicamento de primeira linha contra o calazar, foi desenvolvido na década de 1930. Além disso, o centro de tratamento gerenciado por MSF é o único que utiliza o teste diagnóstico rápido. O teste é bem simples e envolve apenas a coleta de uma gota de sangue do dedo do paciente.

Calazar é uma doença estranha. Alguns sintomas variam em função da localização do paciente, se ele está no Quênia ou no Sudão. A eficácia dos testes e tratamentos também é diferente em cada país. Por exemplo, na Índia os pacientes podem ser curados com apenas uma sessão de anfotericina lipossomal B intravenoso, o remédio de segunda linha. Na África, doses únicas não são o bastante. Sem pesquisa operacional, todas estas diferenças permanecem um mistério.

Por que as crianças são mais afetadas pelo calazar?
Worku -
Porque elas têm menos imunidade para lutar contra a infecção. Nem todos que entram em contato com o calazar desenvolvem a doença. E mais: pacientes que já foram tratados ficam imunes à doença. Não é uma coincidência que pacientes com HIV/Aids sejam mais vulneráveis, uma vez que seus sistemas imunológicos já estão enfraquecidos.

Como essa doença pode ser erradicada?
Worku -
MSF está tentando tratar o máximo de pacientes possível. Em 2010, nós registramos sete mil pessoas com a doença e tratamos cerca de 1.200 casos. A taxa de cura chegou a 96% e, após curadas, as pessoas ficam imunes à doença.  Essa é a melhor maneira de reduzir a infecção.

Para erradicar o calazar, as condições de vida devem ser melhoradas. No Sudão, como em qualquer lugar, o calazar atinge os mais pobres. Ele ataca os enfraquecidos pela desnutrição. Como as paredes das casas são feitas de lama seca, se tornam um refúgio ideal para os mosquitos-palha transmissores do calazar. Colocar tendas plásticas seria uma medida simples, mas as comunidades mais afetadas não podem nem mesmo arcar com esses custos. Há muita dúvida sobre a eficácia de mosquiteiros na prevenção do calazar. Como no caso de todas as doenças parasitárias, MSF simplesmente encoraja as pessoas a manterem a pele coberta.

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