Awais Yaqub
Publicada em 06/08/2010
O médico paquistanês Dr. Awais Yaqub é coordenador médico de MSF no Paquistão. Ele está atualmente trabalhando em Charsadda, um dos distritos mais afetados pelas enchentes.
Como está hoje a situação no distrito de Charsadda?Awais Yaqub - Muitas casas foram inundadas pela água e metade da cidade de Charsadda foi alagada. Muitas pessoas buscaram refúgio nos telhados das construções, rodeados de água. Os mais fortes nadaram até as áreas de terra seca, onde não podiam fazer nada além de esperar que o resto de suas famílias, crianças, mulheres e idosos, fossem resgatados. Felizmente, nos últimos dois dias as chuvas pararam nesse distrito e em muitos lugares e a água recuou significativamente.
Isso facilita em termos de acesso?Yaqub - Definitivamente, nos permitiu acessar mais pessoas em locais remotos. Mas a área afetada pela enchente é muito vasta... A população do distrito é estimada em aproximadamente um milhão. Nós estamos muito longe de ter uma noção completa das necessidades das pessoas.
Quais são as prioridades?Yaqub - De acordo com nossas avaliações no distrito, o que as pessoas mais precisam é água potável, comida e cuidados médicos. Milhares estão desabrigados ou refugiados em construções abandonadas e escolas. Eles não têm água limpa. Eles não têm nada para beber e tem muito pouca comida. Tudo está enlameado. Essas condições de tão pouca higiene também são uma preocupação principal.
Que trabalho as equipes estão realizando?Yaqub - Água é a primeira coisa na qual estamos trabalhando. Nós estamos melhorando a qualidade da água. Onde é possível, nós estamos trazendo água segura para as pessoas através de caminhões. Equipes de água e saneamento estão trabalhando duro para purificar pontos de água contaminada. No distrito de Charsadda, nós também estamos usando 21 veículos menores, carregados com água, para chegar a lugares de mais difícil acesso, onde ninguém esteve ainda. Ontem nós distribuímos 30 mil litros no distrito. Nós também estamos preparando a distribuição de kits de higiene (toalhas, escovas de dente, baldes, sabonetes), e outros itens como cobertores, colchões, garrafas, coberturas plásticas, mosquiteiros e utensílios de cozinha. Nossa terceira prioridade é o cuidado médico. Por isso, nós organizamos duas equipes médicas. Duas vezes por semana elas estão visitando seis locais onde as necessidades médicas são altas.
Que tipos de problemas médicos estão sendo verificados?Yaqub - Existem muitas infecções de pele e respiratórias. Diarreia também está crescendo. As equipes também têm cuidado de pacientes que sofrem de doenças crônicas, como diabetes, que podem ter perdido remédios vitais durante a enchente. Nos centros médicos, nós observamos muitos traumas físicos. Basicamente pessoas que foram arrastadas pela enchente ou que se feriram quando suas casas foram danificadas. Eu me deparei com uma mulher com o braço dilacerado. Ela estava com curativo, mas disse que sentia tanta dor que queria que olhássemos. Nós examinamos o ferimento durante a consulta e mudamos o curativo.
Existe o risco de um surto de cólera?Yaqub - Nós estamos em uma área onde a cólera é endêmica. Agora é a temporada de pico, entre julho e novembro, então o risco da doença é elevado. A maioria dos reservatórios de água da cidade foi danificada ou misturada com água da enchente e do esgoto. As pessoas não têm acesso à água limpa porque os poços foram contaminados e as condições de higiene são muito ruins. Talvez em breve isso leve a um grande problema de saúde.
As pessoas estão desesperadas ou em pânico?Yaqub - É possível ver a frustração. A ajuda está chegando, mas a escala do desastre é tamanha que claramente não tem sido suficiente, especialmente em termos de água potável. Nós estamos trabalhando duro para providenciar o tanto quanto pudermos, mas somos a única organização fazendo isso em Charsadda e o problema é de grandes proporções... Nós decidimos avaliar a situação de saúde mental aqui, pois muitas pessoas ainda estão em estado de choque. Eles ainda têm muito medo de que a água retorne e que uma nova enchente os pegue de surpresa. Eles ainda temem por suas vidas.
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