Mauro Nunes
Publicada em 05/08/2010
O enfermeiro Mauro Nunes, chefe de missão do projeto de emergência de MSF, conta como a organização está trabalhando para amenizar o sofrimento das vítimas das enchentes em Alagoas
Quais são os principais problemas de saúde mental que afetam a população em Alagoas? Mauro Nunes - Sensação de medo, angústia, tristeza, choro fácil, ideias suicidas.
Como que você vê a importância de oferecer este tipo de trabalho (saúde mental) em situações de tragédia como esta? Nunes - O suporte de saúde mental é essencial no atendimento às vítimas destas catástrofes e pode prevenir o agravamento de problemas psicológicos e mentais no futuro, e mesmo impedir que estes problemas se tornem crônicos. Garantir a saúde mental dessas pessoas é uma forma de garantir que elas possam se reestruturar e recomeçar suas vidas de uma forma saudável e equilibrada do ponto de vista mental e psicológico.
É possível perceber o impacto deste tipo de atendimento através das falas dos nossos pacientes. Uma delas, de 43 anos, abrigada na Rodoviária de Murici com seus filhos e familiares, entrou em profunda depressão. Não tinha vontade de fazer nada. Depois que começou a ser atendida por nossa equipe de psicólogos, está demonstrando melhora. Hoje, ela diz que já tem força para tomar algumas decisões.
Qual é o beneficio que a articulação de MSF com os atores locais pode trazer para população?Nunes - O beneficio de MSF estar articulado com vários atores locais, entre eles o Conselho Regional de Psicologia, a Secretaria Estadual de Saúde e a própria Universidade Federal de Alagoas, é poder garantir a continuidade do atendimento. Assim, MSF assegura que essas pessoas não fiquem desamparadas.
Houve alguma melhora na situação dos desabrigados nas últimas semanas? Se sim, qual foi a participação de MSF?Nunes - Têm acontecido melhoras sensíveis com os desabrigados que MSF está atendendo. Médicos Sem Fronteiras vêm proporcionando o suporte psicológico e melhorando diretamente as condições de água e saneamento dessa população. A presença de MSF também tem se mostrado muito forte aqui como um catalisador para que outros atores, a partir do nosso trabalho, nos solicitem até mesmo capacitação.
A população ainda está muito vulnerável?Nunes - A população está vulnerável sim. Claro que não está mais tão vulnerável quanto no primeiro momento, mas essa população só vai estar numa situação mais confortável a partir do momento em que as famílias estejam todas em barracas que sejam resistentes, com sistema de água e saneamento, com o retorno das atividades.
Teve alguma situação vivenciada na missão que foi marcante pra você, algo que você possa destacar? Nunes - A superação dos nossos pacientes marca o nosso cotidiano de trabalho. Lembro de uma senhora que engoliu muita água no momento da enchente e teve que passar dois dias e uma noite no telhado de sua casa. De lá, ela viu muitos mortos. Ela relatou que depois que compartilhou com nossa equipe o que aconteceu no dia da enchente, ela se sentiu aliviada. “Até dormi a noite toda. Estou varrendo o meu cantinho e quero pensar no que tenho que fazer de agora em diante”, conta a paciente de 58 anos.
Como você descreveria o trabalho que MSF está fazendo?Nunes - Em linhas gerais, o trabalho que a gente está fazendo é de saúde metal, distribuição de kits, melhoria das condições de água e saneamento, monitoramento e treinamento. MSF não está se deixando envolver pelas mazelas locais, existem dificuldades no atendimento de saúde, mas já existiam antes, não foi a enchente que causou. Os problemas que já existiam a gente está tentando fazer um lobby para melhorar sem se deixar “seduzir” pelas necessidades que são crônicas no estado, em termos de coberturas de saúde pública.
Eu resumiria a missão como uma missão bem sucedida. Nós estamos atuando exatamente nos pontos falhos, toda missão foi calculada de uma maneira a atender as necessidades que estavam pendentes. Para mim é muito gostoso ver que o Brasil hoje já tem uma equipe capaz de oferecer um atendimento no padrão Médicos Sem Fronteiras.
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