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Crise humanitária nos arredores do acampamento de Dadaab, no Quênia

Médicos Sem Fronteiras encontrou taxas alarmantes de desnutrição entre os refugiados somalis. A organização vai reforçar suas atividades no acampamento.

Refugiados em Dadaab
© Serene Assir/MSF
As crianças que chegam a um dos cinco postos de saúde de MSF no campo de refugiados de Dadaab, no Quênia, são examinadas pela equipe médica para checar seu estado nutricional 

13 de julho de 2011 - Dia após dia, milhares de pessoas fugindo do conflito na Somália continuam a chegar ao acampamento superlotado. A região toda está sofrendo com uma grave seca, após duas estações de chuvas que não vieram.  Ao chegarem exaustos no acampamento, após dias ou semanas de viagem, os refugiados estão recebendo assistência inadequada.

O complexo de Dadaab é formado pelos acampamentos de Ifo, Hagadera e Dagahaley. É o maior campo de refugiados do mundo, e agora está cheio. Os recém-chegados são obrigados a se instalar em abrigos precários nos arredores do acampamento. Apesar de MSF ter pedido repetidamente por soluções para o problema da superlotação do acampamento, nenhuma resposta foi dada. O número de pessoas nesses acampamentos está chegando aos 400 mil, apesar de ter sido construído para abrigar 90 mil pessoas.

MSF está oferecendo assistência médica aos 113 mil habitantes de Dagahaley. O número de novas chegadas aumenta a cada mês, com uma média de 500 novas pessoas chegando por dia. Cerca de 25 mil pessoas estão vivendo do lado de fora das fronteiras do acampamento, e esse número deve crescer ainda mais. Desde o começo do ano, equipes de MSF estão oferecendo assistência aos recém-chegados nas proximidades do acampamento de Ifo, enquanto esperam pela abertura da expansão do acampamento (Ifo 2) para aumentar suas atividades.

Taxas de desnutrição extremamente elevadas

Desde o começo de junho, um novo centro de recepção em Dagahaley, gerenciado pelas autoridades quenianas e pela Agência de Refugiados das Nações Unidas, foi aberto, com o propósito de aumentar a oferta de cuidados médicos aos recém-chegados.

Diariamente, uma equipe de MSF avalia a saúde das pessoas que chegam ao centro.  Com a avaliação nutricional sistemática das crianças com menos de cinco anos - usando como método o parâmetro a circunferência do antebraço superior (MUAC, na sigla em inglês), taxas de desnutrição alarmantes foram encontradas. Isso levou a uma avaliação nutricional na região em meados de junho. Os resultados foram piores do que imaginamos.

A mistura de calor extremo, falta de água e saneamento, atrasos nos registros dos recém-chegados e na provisão de alimentos resultaram em grandes dificuldades nas condições de vida dos sobreviventes. Durante uma rápida avaliação nutricional de três dias em meados de junho, cerca de 500 crianças entre seis meses e cinco anos de idade foram medidas e pesadas. Mais de 37% delas estava sofrendo com desnutrição aguda, e, dentre esses, 17,5% estavam seriamente afetados e corriam risco de vida. Crianças com até 10 anos de idade também apresentaram taxas elevadas de desnutrição.

"Os níveis de desnutrição são altos. Nós estamos extremamente preocupadosf", disse Monica Rull, coordenadora dos projetos de MSF na Somália. "Eu esperava encontrar uma situação difícil, mas não catastrófica", explicou Anita Sackl, coordenadora da avaliação nutricional. "A maioria dos recém-chegados fugiu porque não tinha nada para comer, e não só porque seu país estava em guerra há décadas", completou.

Devido a esses alarmantes resultados a respeito dos recém-chegados na região, MSF está incluindo crianças com mais de cinco anos de idade em seu programa nutricional no acampamento de Dagahaley.

Ajuda humanitária é muito lenta

A demora na oferta de ajuda humanitária também é problemática. Os refugiados têm que esperar 40 dias para serem oficialmente registrados pelo Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), que oferece um cartão que lhes dá direito às distribuições regulares de alimentos. Até o término desse prazo de 40 dias, eles recebem apenas uma porção de alimentos para dois dias e um recipiente para água de cinco litros.

No começo de junho o sistema mudou. "Era totalmente inaceitável", denuncia Monica Rull. "Agora, os recém-chegados recebem alimentos para pelo menos 15 dias. Mas isso não é o bastante. O Programa Mundial de Alimentação (WFP, na sigla em inglês), deve garantir distribuição de alimentos regulares. É necessário que seja feita uma avaliação nutricional em todos os acampamentos de Dadaab. Crianças com até 10 anos de idade também devem ser incluídas no programa. Assim, poderemos confirmar as taxas de desnutrição em crianças mais velhas e adequar os programas nutricionais".  

Além disso, MSF pede que o processo de registro seja feito de forma mais acelerada. Atualmente, existe apenas um centro de registro em todo o complexo de Dadaab, que fica no acampamento de Ifo.

Em algumas áreas de acampamentos temporários nos arredores de Dagahaley, MSF descobriu que alguns refugiados não recebiam sequer três litros de água por dia. Essa é a quantidade mínima padrão para pessoas que vivem em climas quentes, mas não é o suficiente para a higiene básica. O aumento do fornecimento de água é necessário. Equipes de MSF começaram a distribuir, com um caminhão, mais de 100 metros cúbicos de água todos os dias.

Atendimentos estão sendo ampliados

A pressão no hospital de Dagahaley e nos cinco postos de saúde, administrado por MSF está aumentando. Mais de 1.600 crianças com desnutrição aguda severa estão recebendo tratamento nos ambulatórios e mais de 700 mil novas admissões estão sendo realizadas semanalmente em programas complementares. A maioria é encaminhada por postos de saúde recentemente inaugurados e localizados nos arredores dos acampamentos, onde ficam os recém chegados.

As equipes têm registrado uma média de 107 novas admissões no programa de terapia intensiva nutricional do hospital. Como a unidade já estava operando além de sua capacidade, uma nova ala pediátrica com 60 leitos foi construída.

MSF reitera a necessidade de todas as organizações trabalhando na região expandirem suas atividades para prestar assistência adequada aos refugiados. Isso inclui tanto oferecer assistência imediata nas áreas de fronteiras como encontrar soluções para a situação.

MSF oferece assistência médica no Quênia desde 1992. Há 14 anos trabalha em Dadaab. Desde 2009, a organização tem sido a única a oferecer serviços médicos no acampamento de Dagahaley, com um hospital 170 leitos no hospital geral e cinco postos de saúde para fornecer cuidados de saúde para o acampamento de 113.000 residentes.

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